Share the post "72 mil toneladas de aço e uma revolução pelo meio: os 60 anos da Ponte 25 de Abril"
A Ponte 25 de Abril completa seis décadas de existência e poucas estruturas em Portugal conseguem reunir, ao mesmo tempo, o estatuto de infraestrutura essencial, ícone turístico e símbolo de um momento histórico.
Erguida sobre o rio Tejo, a ponte tornou-se sinónimo da própria cidade de Lisboa, ao lado do elétrico 28 e do Cristo Rei que a observa do outro lado da margem sul.
Para assinalar o aniversário, a Infraestruturas de Portugal, a Lusoponte e a Fertagus prepararam um programa de celebrações que inclui, entre outras iniciativas, um espetáculo com cerca de 500 drones sobre o Tejo, além de exposições, debates e passeios pedonais e fluviais que atravessam Lisboa e Almada ao longo de setembro.
Um bom pretexto para relembrar a história, as peripécias da construção e os números que continuam a definir esta obra de engenharia.
Ponte 25 de Abril: ideia com quase um século
Antes de ser realidade, a ponte foi, durante muito tempo, apenas um desejo. A primeira proposta para uma travessia fixa sobre o Tejo remonta a 1876, quando o engenheiro Miguel Pais desenhou um projeto para ligar Lisboa ao Montijo, pensado sobretudo para uso ferroviário.
Só quase 90 anos depois, com o arranque oficial das obras a 5 de novembro de 1962, o sonho começou finalmente a ganhar forma.
Até então, atravessar o Tejo significava recorrer aos tradicionais ferry boats, um meio de transporte lento e cada vez mais insuficiente para uma área metropolitana em crescimento acelerado.

Uma obra construída contra o relógio
A construção ficou a cargo de um consórcio liderado pela norte-americana United States Steel Export Company, em conjunto com catorze empresas, onze das quais portuguesas.
O prazo estipulado era de 51 meses, e a obra mobilizou, em média, cerca de três mil trabalhadores por dia, um verdadeiro exército de operários, engenheiros e técnicos que transformou a paisagem ribeirinha em poucos anos.
Entre os desafios técnicos mais exigentes estavam a resistência a ventos fortes e a capacidade de a estrutura suportar um eventual sismo, um receio compreensível numa cidade que ainda guardava na memória o terramoto de 1755.
Os estudos de engenharia inspiraram-se diretamente na baía de São Francisco, na Califórnia, onde se ergue a Golden Gate Bridge, não por acaso, a “prima americana” com quem a Ponte 25 de Abril partilha o desenho suspenso e a icónica cor vermelho-alaranjada.
Como em qualquer grande obra da época, o trabalho em altura teve um custo humano. Os registos oficiais apontam para quatro trabalhadores mortos durante a construção, mas o investigador Luís F. Rodrigues, autor do livro “A Ponte Inevitável”, contabiliza cerca de dez vítimas.
Ainda assim, o número ficou muito abaixo dos sessenta óbitos que os próprios engenheiros, antes do início da obra, consideravam estatisticamente prováveis para um projeto desta dimensão.
Um batismo (e um rebatismo) marcados pela História
A ponte foi inaugurada a 6 de agosto de 1966 com o nome de Ponte Salazar, numa cerimónia que arrancou às 10h30 da manhã, com a execução do hino nacional e uma salva de tiros, e que só terminou de madrugada.
Estiveram presentes o Presidente da República, Almirante Américo Tomás, o próprio Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, e o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira.
O nome não sobreviveria, contudo, à Revolução dos Cravos. Após 25 de abril de 1974, a ponte foi rebatizada com a data que passaria a simbolizar a liberdade conquistada e que ainda hoje ostenta.
A Ponte 25 de Abril em números

A Ponte 25 de Abril não impressiona apenas pela história. Os dados de engenharia continuam a colocá-la entre as estruturas mais notáveis da Europa:
- 1.012,88 metros: comprimento do vão principal, entre as duas torres;
- 2.227,64 metros: distância total entre as amarrações da ponte;
- 190,5 metros: altura das torres principais acima do nível da água;
- 80 metros: profundidade do pilar sul, que se afunda abaixo do leito do rio;
- 72.600 toneladas: de aço trabalhado e montado na estrutura;
- 20.000 quilómetros: comprimento total de fio de aço utilizado nos cabos principais, o suficiente para dar a volta ao mundo;
- mais de 300 mil pessoas: atravessam diariamente o Tejo através da ponte, seja de comboio, seja de automóvel.
Estes números explicam por que razão a Ponte 25 de Abril mantém, seis décadas depois, o título de ponte com o maior vão central da Europa entre as que combinam tráfego rodoviário e ferroviário, uma combinação rara mesmo à escala mundial.
Curiosidades que poucos conhecem
Além da engenharia, há pequenas histórias que ajudam a explicar o carinho que os portugueses têm pela ponte:
- A tabela ferroviária chegou depois. A ponte nasceu pensada apenas para tráfego rodoviário. O tabuleiro inferior, hoje usado pela Fertagus para o comboio entre as duas margens, só entrou em funcionamento em 1999, mais de três décadas após a inauguração.
- O recorde de tráfego data de 2005. Nesse ano, cerca de 57 milhões de veículos atravessaram a ponte, o número mais alto alguma vez registado num único ano.
- A cor não é coincidência. O tom vermelho-alaranjado que cobre a estrutura é herdeiro direto da paleta escolhida para a Golden Gate, uma cor pensada originalmente para garantir boa visibilidade em dias de nevoeiro.
- A revolução mudou o nome, mas não a estrutura. Apesar de todas as transformações políticas e sociais que testemunhou, a ponte propriamente dita mudou muito pouco desde o dia da inauguração, um testemunho da robustez do projeto original.