Miguel Pinto
Miguel Pinto
04 Ago, 2026 - 10:00

Alba: a história de um automóvel português nascido em Albergaria-a-Velha

Miguel Pinto

O Alba foi um carro português desenhado e construído em 1952, em Albergaria-a-Velha. Conheça a fantástica história deste modelo único.

Alba

Poucos episódios do automobilismo nacional têm tanto a contar como o do Alba, o pequeno desportivo concebido e fabricado em Portugal nos anos 50.

Nascido da paixão de um jovem industrial pelas corridas e da capacidade técnica de uma fábrica metalúrgica do Norte do país, o Alba tornou-se um dos nomes mais marcantes de uma geração de construtores nacionais que, com meios limitados, competiram de igual para igual com máquinas estrangeiras muito mais sofisticadas.

A história do Alba começa muito antes do primeiro carro sair de portas. As Fábricas Metalúrgicas Alba foram fundadas em 1921, em Albergaria-a-Velha, pelo Comendador Augusto Martins Pereira, sob o nome inicial de Fundição Lisbonense.

Nos anos 50, a unidade fabril era já uma das mais avançadas do país, com representação em Lisboa e no Ultramar.

Foi o neto do fundador, António Augusto Martins Pereira, quem transformou o know-how industrial da família numa aventura automóvel.

Grande entusiasta do desporto motorizado, decidiu criar uma marca própria, vocacionada para a competição, contando desde o início com o apoio do amigo Francisco Corte Real Pereira, piloto e mecânico de reconhecida competência.

Segundo o próprio António Augusto relatou anos mais tarde, o projeto nasceu quase por acaso, como uma forma de “pura distração e divertimento”, claramente inspirado noutros construtores nacionais da época, como a DM ou a FAP.

O primeiro Alba: um barchetta com alma italiana

Alba de lado

O primeiro exemplar da marca foi desenhado e construído em 1952, sobre um chassis Fiat 508C e recebeu a matrícula OT-10-54.

Contou, além de Martins Pereira e Corte Real Pereira, com a colaboração de Ângelo de Oliveira e Costa e de toda uma equipa de fundidores, carpinteiros e técnicos da fábrica de Albergaria.

Sob o capot seguia inicialmente um motor Fiat, e mais tarde Simca, de 1089 cc, adaptado para competir na categoria Sport, reservada a automóveis com cilindrada entre 750 e 1100 cc.

O chassis original foi reforçado e modificado na fábrica de Albergaria, com corte e inversão da traseira para baixar o centro de gravidade, e recebeu uma armação tubular própria, com suspensão do tipo Gregoire.

A carroçaria, do género barchetta e de inspiração italiana, foi inteiramente estampada em alumínio nas instalações da Alba e pintada numa tonalidade clara, com riscas longitudinais amarelas e azuis, complementadas por um pequeno pato pintado na lateral, motivo que terá surgido de forma quase espontânea, desenhado por um funcionário da fábrica.

Comparado com outros construtores nacionais da altura, como a DM ou a FAP, o Alba representou um avanço estilístico notável, aproximando-se da linguagem de desenho então em voga nos desportivos italianos e franceses.

Alba: sucessos em pista e novos motores

Com três unidades construídas, a equipa Alba adotou desde cedo uma estratégia clara para as provas nacionais organizadas pelo Automóvel Club de Portugal. Corte Real Pereira assumia os circuitos, enquanto Martins Pereira se dedicava sobretudo às provas de regularidade e aos rallys.

Os resultados não tardaram a chegar, com destaque para as vitórias na classe de 1100 cc no Circuito da Boavista, em 1951 e 1952, e para o triunfo na Taça Cidade do Porto, em 1953.

A partir de 1954, uma alteração regulamentar do Automóvel Club de Portugal fez subir o limite de cilindrada da categoria Sport de 1100 para 1500 cc, obrigando os pequenos construtores nacionais a repensar os seus motores.

A resposta da Alba foi tão engenhosa quanto característica do espírito artesanal da marca. Perante um orçamento pouco competitivo apresentado pela Maserati para o fornecimento de um novo motor, Martins Pereira terá respondido, sem hesitar, que por aquele valor construiria o seu próprio propulsor.

Museu do caramulo
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Motor próprio

Nasceu assim o motor Alba 1500, com 1490 cc, fundido em molde de areia na própria fábrica de Albergaria.

Tratava-se de um quatro cilindros em alumínio, de inspiração Maserati, com duas árvores de cames à cabeça e duas velas por cilindro, alimentado por dois carburadores Solex 36 e equipado com distribuidores Bosch fabricados propositadamente para o Alba, o que levou mesmo técnicos da marca alemã a deslocarem-se a Albergaria.

Este motor chegou a debitar cerca de 90 cv, permitindo ao Alba atingir uma velocidade máxima próxima dos 200 km/h, valores notáveis para um automóvel inteiramente concebido em Portugal.

Corte Real Pereira experimentou ainda outras soluções na procura incessante de mais potência, incluindo um motor de seis cilindros, com 1,5 litros, adaptado a partir de um bloco Alfa Romeo 6C 1750, com o qual participou em provas na Boavista, em 1955 e 1956, e em Vila Real, em 1958, embora sem o mesmo sucesso alcançado com o motor de fabrico próprio.

Alba: um legado que continua vivo

A carreira desportiva do Alba prolongou-se ao longo de quase uma década. Em 1961, Corte Real Pereira ainda competiu ao volante da marca no Rally Noturno de Salgueiros, terminando na terceira posição absoluta.

Do primeiro exemplar, OT-10-54, foram ainda construídas mais duas unidades, a TN-10-82, atualmente na posse de um colecionador privado, e a LA-11-18, que já não existe.

Hoje, o Alba original encontra-se exposto no Museu do Caramulo, um dos mais importantes espaços dedicados à história automóvel em Portugal.

E o interesse pela história da marca mantém-se atual. O município de Albergaria-a-Velha tem promovido iniciativas de divulgação sobre o tema, e o livro “Alba: uma Marca Portuguesa de Automóveis (1952-1961)”, da autoria de José Barros Rodrigues, aprofunda o percurso da marca e o seu significado para o património industrial da região.

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