Share the post "Clássicos: o Boca de Sapo marcou a história automóvel. Poderá voltar?"
Poucos automóveis conseguiram alterar o rumo da indústria automóvel como o Citroën DS. Conhecido em Portugal pelo carinhoso e inconfundível nome de “Boca de Sapo”, o modelo francês não foi apenas um sucesso comercial ou um exercício de design arrojado.
Foi uma verdadeira revolução tecnológica sobre rodas, capaz de deixar a concorrência uma década, ou talvez duas, a correr atrás do prejuízo.
A indústria automóvel adora falar de inovação. O DS teve a ousadia de a colocar em produção em série em 1955. Apresentado no Salão Automóvel de Paris desse ano, o Citroën DS provocou um impacto imediato.
Nos primeiros 15 minutos após a abertura das encomendas foram vendidos cerca de 750 exemplares e, no final do primeiro dia, o número de pedidos ultrapassava os 12 mil.
Para um automóvel tão avançado e futurista, o entusiasmo do público parecia mais próprio do lançamento de um smartphone revolucionário do que de um automóvel dos anos 50.
Citroën DS: o nascimento da “deusa” francesa
O nome DS deriva da pronúncia das letras em francês, que soam a déesse, ou seja, “deusa”.
A designação assentava na perfeição ao modelo desenhado pelo italiano Flaminio Bertoni e desenvolvido pelo engenheiro aeronáutico André Lefèbvre, dois nomes fundamentais na história da Citroën.
O resultado foi um automóvel de linhas fluidas e aerodinâmicas, inspirado no mundo da aviação e completamente diferente de tudo o que circulava nas estradas europeias da época.
Em Portugal, porém, a imaginação popular encontrou uma designação mais terrena e igualmente memorável, “Boca de Sapo”.
A frente arredondada, os faróis integrados e a silhueta peculiar deram origem a uma alcunha que acabou por sobreviver ao próprio modelo e que ainda hoje é imediatamente reconhecida por várias gerações de portugueses.
Laboratório tecnológico disfarçado de automóvel

Se o design impressionava, a tecnologia deixava os restantes fabricantes praticamente sem resposta.
O Citroën DS introduziu a famosa suspensão hidropneumática, desenvolvida por Paul Magès, que utilizava um complexo sistema hidráulico para controlar a suspensão, a travagem, a direção e até a caixa de velocidades em determinadas versões.
O resultado era um conforto de rolamento sem precedentes, frequentemente descrito pelos condutores como a sensação de viajar sobre um tapete voador.
A suspensão permitia ainda regular a altura ao solo e mantinha automaticamente o veículo nivelado independentemente da carga transportada.
m estradas degradadas, particularmente comuns na Europa do pós-guerra, esta tecnologia fazia parecer que o DS ignorava por completo os buracos e irregularidades do piso.
Mas o pioneirismo do modelo não se ficou por aqui.
- Foi um dos primeiros automóveis produzidos em série com travões de disco dianteiros;
- Disponibilizava direção assistida quando esta ainda era um luxo raro;
- Introduziu uma caixa semiautomática controlada hidraulicamente;
- Recebeu, em 1967, faróis direcionais que acompanhavam o movimento da direção, tecnologia que só décadas mais tarde se tornaria comum na indústria. ()
Muitas destas soluções são hoje banais nos automóveis modernos. Em meados dos anos 50 pareciam retiradas de um filme de ficção científica.
O automóvel que salvou um presidente
O estatuto lendário do DS ganhou uma nova dimensão em 1962, durante a tentativa de assassinato do presidente francês Charles de Gaulle.
O veículo presidencial foi atingido por vários disparos, que destruíram pneus e danificaram a carroçaria. Apesar disso, a suspensão hidropneumática permitiu ao condutor manter o controlo do automóvel e escapar do atentado.
O episódio ajudou a cimentar a reputação do DS como um automóvel extraordinariamente avançado e seguro para a época.
Clássico que deu origem a uma marca
Entre 1955 e 1975 foram produzidos mais de 1,45 milhões de exemplares do Citroën DS, incluindo variantes familiares, comerciais e descapotáveis.
O impacto cultural e tecnológico do modelo foi tão profundo que, décadas mais tarde, a designação DS acabaria por dar origem à atual marca premium do grupo francês, hoje separada da Citroën.
Poucos automóveis podem afirmar que deram nome a uma marca inteira. Menos ainda conseguem fazê-lo mais de meio século após o fim da produção.
Poderá o “Boca de Sapo” regressar elétrico?

A ideia de ressuscitar o Citroën DS circula regularmente entre entusiastas e especialistas da indústria automóvel.
Embora não exista qualquer confirmação oficial de um regresso do lendário modelo, o atual contexto da mobilidade elétrica e o sucesso de interpretações modernas de ícones históricos alimentam os rumores.
A própria Citroën já demonstrou abertura para recuperar modelos emblemáticos da sua história através da recente decisão de relançar o mítico 2CV numa interpretação elétrica para os próximos anos.
Essa estratégia reforça a possibilidade de outros nomes históricos poderem regressar no futuro sob a forma de veículos elétricos e tecnologicamente avançados.
Caso um novo DS venha efetivamente a surgir, dificilmente abandonará os princípios que fizeram do original uma referência, como conforto absoluto, tecnologia inovadora e um design suficientemente ousado para dividir opiniões.
Afinal, os automóveis verdadeiramente marcantes raramente procuram agradar a toda a gente. Limitam-se a aparecer e a obrigar o resto do mercado a repensar tudo o que julgava saber.
Símbolo de inovação
Setenta anos depois da sua estreia, o Citroën DS continua a ser estudado em escolas de design, admirado em concursos de elegância e venerado por colecionadores de todo o mundo.
O “Boca de Sapo” não foi apenas um automóvel muito avançado para a sua época, foi um automóvel concebido para uma época que ainda não existia.