Miguel Pinto
Miguel Pinto
26 Mai, 2026 - 13:00

Citroën 2CV: ícone regressa elétrico e com um preço de arrasar

Miguel Pinto

Um dos automóveis mais amados da história europeia, o Citroën 2CV, está de volta desta vez com motor elétrico, mas com a mesma missão de sempre.

citroën 2CV

Era uma vez um carro que não prometia nada de extraordinário. Sem luxos, sem potência, sem pretensões. Apenas quatro rodas debaixo de um tejadilho arredondado, um motor pequenino e o compromisso de levar as pessoas de um lado ao outro sem gastar muito dinheiro.

O Citroën 2CV, nascido no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, tornou-se um símbolo de liberdade e democracia automóvel. E agora, quase oito décadas depois, está prestes a repetir a façanha, só que desta vez a gasolina dá lugar à eletricidade.

A Citroën confirmou oficialmente o regresso do histórico 2CV ao mercado, agora como um automóvel 100% elétrico, com chegada prevista para 2028 e um preço estimado a rondar os 15 000 euros.

O anúncio foi feito por Xavier Chardon, diretor-executivo da marca francesa, durante o Stellantis Investor Day, realizado em Auburn Hills, nos Estados Unidos, no contexto da apresentação do plano estratégico FaSTLAne 2030.

Citroën 2CV: um anúncio com peso histórico

Poucas marcas automóveis têm o privilégio de resgatar um nome que significa algo genuíno para as pessoas. O 2CV não é apenas um modelo, é uma memória coletiva, uma referência cultural que transcende fronteiras e gerações.

Chardon não deixou margem para dúvidas sobre a filosofia por detrás do projeto. Nas suas próprias palavras, o novo 2CV vai “democratizar a mobilidade elétrica”, uma frase que ressoa diretamente com o espírito original do modelo, criado em 1948 para pôr agricultores, operários e famílias sobre rodas numa Europa ainda a recuperar da guerra.

O que sabemos e o que ainda falta saber

O novo 2CV integra o projeto E-Car da Stellantis, a iniciativa do grupo industrial dedicada ao desenvolvimento de veículos elétricos pequenos e acessíveis para o mercado europeu.

O modelo enquadra-se na nova categoria M1E da União Europeia, criada especificamente para citadinos elétricos compactos com menos de 4,2 metros de comprimento e peso máximo de 1,5 toneladas.

Em termos de arquitetura técnica, o novo 2CV vai partilhar a plataforma com o futuro FIAT Panda elétrico, o que permite economias de escala relevantes.

A produção ficará a cargo da fábrica de Pomigliano d’Arco, no sul de Itália, uma unidade que atualmente produz o Pandina e tem capacidade para fabricar perto de 300 000 veículos por ano.

As baterias deverão ser produzidas em Espanha, no âmbito de uma joint venture entre a Stellantis e a fabricante chinesa CATL.

Detalhes técnicos

Quanto às especificações técnicas, os detalhes definitivos ainda não foram revelados. Segundo a imprensa especializada, o modelo poderá equipar uma bateria de aproximadamente 27,5 kWh, com uma autonomia estimada na ordem dos 260 km e um motor elétrico com cerca de 80 cv.

No entanto, estes dados não foram confirmados oficialmente pela marca, pelo que devem ser interpretados com cautela.

O que está confirmado é que o protótipo será revelado em outubro de 2026, no Salão Automóvel de Paris, um palco de enorme simbolismo, tratando-se de uma das mais prestigiadas montas do calendário automóvel mundial.

A Citroën já divulgou um teaser que antecipa as linhas do futuro modelo, onde é claramente percetível uma silhueta inspirada no clássico original, como o arco do habitáculo, os faróis redondos e salientes e a traseira arredondada.

Neo-Retrô: Citroën 2CV entre o passado e o futuro

Citröen 2CV bege

O desafio de ressuscitar um ícone é considerável. Há sempre o risco de cair no pastiche, um carro que parece vintage mas não tem alma, que usa a nostalgia como estratégia de marketing sem honrar verdadeiramente o espírito do original. A Citroën parece consciente desta armadilha.

Segundo fontes próximas do projeto, a abordagem escolhida é a do neo-retrô equilibrado, recuperando os traços mais reconhecíveis do 2CV sem criar uma réplica caricata.

O diretor de design, Pierre Leclercq, lidera o desenvolvimento com a missão declarada de preservar a essência do chamado “quatro rodas sob um guarda-chuva”, a definição com que o 2CV original foi concebido internamente.

Elementos icónicos como o tejadilho enrolável poderão também encontrar uma reinterpretação moderna no novo modelo, embora nada tenha sido confirmado oficialmente.

Sete lançamentos até ao final da década

O 2CV não será o único lançamento da Citroën até 2030. A marca prevê sete novidades até ao final da década, incluindo modelos renovados e propostas inéditas.

Entre elas, um compacto elétrico assente na plataforma Smart Car, a mesma utilizada no novo C3, o que sugere uma gama cada vez mais focada na mobilidade urbana acessível.

Mas o novo 2CV quer afirmar-se como um elétrico urbano sem ornamentos supérfluos, com tecnologia suficiente para ser moderno e seguro, mas sem os extras que inflacionam o preço final.

Uma lógica que o coloca em confronto direto com o Renault 5 E-Tech (outro ícone ressuscitado com enorme sucesso) e com os citadinos elétricos que as marcas chinesas estão a trazer para a Europa a preços cada vez mais competitivos.

Citroën 2CV: uma história de sucesso

Citroen 2cv

Em 1948, Pierre Boulanger, então presidente da Citroën, pediu um carro capaz de transportar dois agricultores e 50 kg de batatas a 60 km/h, com consumo de 3 litros aos 100 km.

O resultado foi um automóvel que durou 42 anos em produção, vendeu mais de cinco milhões de unidades e se tornou símbolo de toda uma época.

Em 2028, o desafio é diferente, mas a essência é a mesma. Criar um carro que as pessoas possam realmente comprar, conduzir todos os dias e manter sem gastar uma fortuna.

Se a Citroën conseguir cumprir essa promessa por 15 000 euros e com zero emissões, o 2CV terá, uma vez mais, todo o direito de ser chamado o carro do povo.

A confirmar em outubro, no Salão de Paris.

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