Catarina Milheiro
Catarina Milheiro
12 Fev, 2024 - 11:25

Alotriofagia: sente vontade de comer o que não é comestível?

Catarina Milheiro

Já sentiu vontade de comer sabonete, cabelo e até cinzas de cigarro? Conheça a alotriofagia, um estranho distúrbio do apetite.

Provavelmente nunca ouviu falar em alotriofagia, um transtorno também conhecido como síndrome de pica. Contudo, talvez tenha conhecimento de alguém que quis comer algo fora do comum, como terra, barro ou algodão por exemplo.

Assim, a alotriofagia é um transtorno onde existe a ingestão de substâncias sem qualquer valor nutricional, que estão normalmente, à parte de qualquer cultura alimentar.

Trata-se, por isso, de uma doença onde o paciente sente uma vontade quase irresistível de ingerir coisas que não são comestíveis e que sabe que não deveria comer.

Existem inclusivamente pessoas diagnosticadas com alotriofagia que referem ter vontade de comer madeira, cabelos, lascas de tinta de parede, sabão e até mesmo cinzas de cigarro.

Por outro lado, alguns pacientes sentem vontade de comer coisas igualmente incomuns, mas que acabam por ser inofensivas para o organismo, como ingerir gelo, por exemplo.

Normalmente, este transtorno está associado a crianças na idade em que se faz a introdução alimentar. No entanto, pode acontecer até aos 6 anos de idade ou mais. Nos adultos, a síndrome de pica pode significar um sintoma de que existe uma outra condição médica ou em alguns casos, uma doença mental.

Alotriofagia: por que motivo se ingerem coisas que não são comestíveis?

As causas da alotriofagia podem ser várias e distintas. Normalmente, surge em pacientes que apresentam algum tipo de deficiência nutricional onde existe a vontade de comer coisas incomuns como uma forma de ajudar o organismo a repor todos esses nutrientes.

Por exemplo: em pessoas que tenham um défice de ferro ou zinco, parece existir uma vontade de comer terra para compensar o organismo (como é o caso de mulheres grávidas).

Para além disto, saiba que a alotriofagia pode surgir especialmente ao longo da gestação – onde a mãe apresenta vontades e desejos que podem fugir um pouco àquilo que consideramos normal.

O transtorno pode ainda estar associado à anemia. Nestes casos, recomenda-se que a gestante converse com o seu médico na presença de alguns sintomas anormais.

O problema poderá surgir também em pessoas que tenham algum tipo de transtorno mental – como depressão, esquizofrenia ou transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Por isso, em caso de suspeita é essencial observar com atenção alguns comportamentos e falar com o médico.

Quais são os sintomas da alotriofagia?

Ao contrário de outras patologias, no caso da alotriofagia, existe apenas um sintoma: a vontade de comer algo que não é de todo comestível.

Mas há que ter em consideração que poderemos estar perante um caso de mera curiosidade apenas, quando se trata de um episódio único (principalmente quando verificado em crianças).

Assim, para que seja considerado um caso de alotriofagia, é necessário que o comportamento se mantenha por um mês ou mais. Além disto, é preciso que aconteça numa faixa etária onde a pessoa já entende que não deve se devem ingerir determinadas coisas.

Nos casos em que os indivíduos chegam ao ponto de ingerir materiais nocivos ao organismo (como produtos químicos, fezes, urina ou produtos de limpeza), podem apresentar sintomas de intoxicação. Falamos, portanto, de vómitos, dores de estômago ou até diarreia, por exemplo.

Que tipo de coisas são ingeridas em pessoas com síndrome de pica?

É normal existirem dúvidas relativamente àquilo que as pessoas com alotriofagia ingerem – não fosse esta uma condição rara nos seres humanos. Enumeramos algumas das mais frequentes associadas ao transtorno:

  • tecidos;
  • fezes;
  • urina;
  • cabelo;
  • pelo;
  • sabão;
  • gelo;
  • barro;
  • madeira;
  • tinta;
  • produtos químicos de limpeza;
  • produtos de beleza;
  • terra;
  • tijolos;
  • casca de ovos;
  • unhas;
  • cinzas de cigarro;
  • cola.

Existe tratamento para este transtorno?

Como já percebemos, a alotriofagia não se caracteriza apenas por um acontecimento pontual. Deve ser diagnosticada por um médico, depois de se verificar a permanência do mesmo tipo de comportamento ao longo de pelo menos 1 mês.

Relativamente ao tratamento, o mesmo será indicado de acordo com aquilo que o médico identificou como sendo a causa – já que pode estar associado a diversos motivos, inclusivamente do foro psicológico.

Entre alguns dos procedimentos utilizados, estão a psicoterapia e a prescrição de suplementos vitamínicos. No entanto, para os casos de pacientes onde se verificaram problemas gástricos, intoxicação ou infeção associados à ingestão de coisas tóxicas, existem tratamentos específicos para cada um desses problemas.

No fundo, não existe um medicamento particular que trate de forma eficaz a alotriofagia. Tudo depende da condição e da idade da pessoa. Por exemplo: no caso das crianças, é necessário um acompanhamento especial.

Por isso, quanto mais rápido for detetado o transtorno, menores são os riscos e os danos que a ingestão de coisas impróprias poderá trazer no futuro.

Na suspeita da presença desta condição o ideal é conversar de imediato com o seu médico de família, psiquiatra, nutricionista ou até com o seu psicólogo. Afinal, o importante é iniciar o tratamento o quanto antes sem que exista tempo para surgirem consequências para o nosso organismo.

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