Share the post "Brasília faz 50 anos: a história do primeiro shopping do Porto e da Península Ibérica "
Inaugurado a 9 de outubro de 1976, o Shopping Brasília foi o primeiro centro comercial da Península Ibérica e trouxe ao Porto uma nova forma de comprar, passear e até de passar o tempo.
Cinquenta anos depois, as míticas escadas rolantes continuam no mesmo lugar e o edifício prepara-se para celebrar uma história feita de comércio, cultura, memórias e muitas vidas.
Quando abriu portas, em 1976, a Rotunda da Boavista ganhou muito mais do que um novo conjunto de lojas. Ganhou um lugar que rapidamente se transformou em destino.
O Brasília foi inaugurado a 9 de outubro de 1976 e é apontado como o primeiro centro comercial de toda a Península Ibérica.
A dimensão do projeto, a concentração de lojas e serviços e, sobretudo, a existência de seis escadas rolantes fizeram daquele espaço uma novidade praticamente sem paralelo em Portugal.
Hoje, a ideia de entrar num centro comercial e encontrar escadas rolantes é tão banal que parece difícil imaginar que, em determinada altura, elas fossem motivo suficiente para uma viagem. No Brasília, eram precisamente isso.
Brasília: escadas rolantes eram uma atração

Para muitas famílias dos anos 70, visitar o Brasília era quase uma excursão. Pessoas de várias regiões do país e também de Espanha deslocavam-se ao Porto para conhecer o novo espaço e experimentar as escadas rolantes.
Chegavam autocarros de várias localidades, Barcelos, Viana do Castelo, Coimbra e até Lisboa. As pessoas subiam e desciam repetidamente, muitas vezes mais pela experiência do que pela necessidade de chegar a outro piso.
A história é curiosa porque revela até que ponto a tecnologia pode ser uma atração quando ainda é novidade. Hoje, uma escada rolante é praticamente invisível no quotidiano. Em 1976, no Brasília, era uma experiência.
Brasília foi a génese dos centros comerciais
O Brasília surgiu numa época em que o conceito de centro comercial ainda estava longe de ter a presença que viria a conquistar nas décadas seguintes.
O edifício reunia inicialmente 242 lojas e uma sala de cinema com 400 lugares. O comércio de moda tinha um peso importante e o espaço chegou a acolher marcas internacionais que ajudavam a reforçar a imagem de modernidade do novo equipamento.
Mas o Brasília nunca foi apenas um lugar para comprar roupa, calçado ou outros produtos. Ao longo das décadas, foi incorporando diferentes atividades e serviços, assumindo uma natureza quase multifuncional.
O próprio projeto de requalificação desenvolvido nos últimos anos parte dessa característica. O Brasília é descrito como um edifício onde convivem comércio, serviços, ateliers e diferentes atividades profissionais, numa lógica mais próxima de uma pequena cidade do que de um centro comercial convencional. É também essa diversidade que ajuda a explicar a sua longevidade.
Cinema Charlot e as cadeiras confortáveis
Uma das histórias mais curiosas do Brasília é a do Cinema Charlot. A sala abriu em 1977, um ano depois da inauguração do centro comercial, e é identificada como a primeira sala de cinema integrada num centro comercial na cidade. Tinha 400 lugares, dois camarotes e características consideradas modernas para a época.
As próprias cadeiras eram uma atração. Eram descritas como verdadeiros sofás, ajudando a criar uma experiência de cinema diferente da das salas tradicionais.
O Charlot acabou por encerrar durante a última década. Atualmente, o espaço está nas mãos de investidores portugueses e encontra-se em estudo para uma futura reconversão num espaço multiusos.
Ginásio pioneiro
Outra curiosidade pouco conhecida está ligada ao desporto. Em 1982, durante uma terceira fase de construção, o Brasília ganhou novas características arquitetónicas, incluindo mármore rosa e espelhos que refletem o gosto estético dos anos 80.
Foi também nessa altura que surgiu um ginásio, com uma forte presença feminina e aulas de aeróbica. O ginásio acabou por fechar, mas a história não termina aí. Em 2026, o espaço, com cerca de 700 metros quadrados, foi adquirido pela cadeia portuguesa Lemonfit e prepara o regresso à atividade.
É um detalhe particularmente simbólico: quase meio século depois, uma das funções que fizeram parte da história do edifício volta a ocupar o mesmo lugar.
O Brasília e a rapariguinha do shopping

Poucos centros comerciais podem dizer que deram origem a uma personagem da música popular portuguesa. O Brasília pode.
A realidade das jovens funcionárias que trabalhavam nas lojas, muitas vezes com horários prolongados e uma imagem associada à modernidade da época, inspirou Carlos Tê a escrever “A Rapariguinha do Shopping”, tema que seria celebrizado por Rui Veloso no álbum Ar de Rock, de 1980.
A canção tornou-se uma espécie de retrato cultural de uma determinada época e associou definitivamente o Brasília ao imaginário urbano do Porto dos anos 70 e 80.
Quase meio século depois, a história ganhou ainda outro capítulo. O livro A Rapariguinha do Shopping já é avó, de Júlio Rodão, será apresentado no âmbito das comemorações dos 50 anos do centro comercial.
A própria evolução do título diz muito sobre o tempo que passou. A rapariguinha já não desce simplesmente pela escada rolante. Entretanto, passaram-se cinco décadas.
De ícone a espaço em transformação
O sucesso das primeiras décadas não durou para sempre. A construção de novos centros comerciais na região do Porto, sobretudo a partir dos anos 90, alterou profundamente os hábitos de consumo e criou uma concorrência que o Brasília teve dificuldade em acompanhar.
O declínio acabou por ser agravado pelo encerramento de alguns espaços emblemáticos e, mais tarde, pelo impacto da pandemia de COVID-19. Mas o Brasília não desapareceu.
Em 2023 arrancaram obras de requalificação destinadas a modernizar o edifício sem eliminar os elementos que fazem parte da sua identidade. A intervenção nas áreas comuns representou um investimento de cerca de meio milhão de euros e ficou concluída em 2024. A mudança passou também pela identidade da marca, com o conceito “Brasília Faz Parte”, procurando reforçar a relação entre o edifício e a cidade.
A aposta parece estar a traduzir-se numa nova dinâmica. Em setembro de 2026, cerca de 95% das 243 lojas estavam ativas, correspondendo a 223 espaços em funcionamento. Entre elas encontram-se 35 negócios ligados à beleza e estética.
50 anos depois, o Brasília é parte do Porto

As comemorações dos 50 anos estão marcadas para 9 de outubro de 2026, precisamente cinco décadas depois da abertura ao público. O programa inclui a inauguração de um mural de arte urbana com 10 metros de comprimento e seis metros de altura, criado pelo artista Mr. Dheo.
Está também prevista a transformação do antigo espaço do lago com barcos para crianças numa pequena praça comemorativa. A gastronomia terá igualmente lugar nas celebrações, com um showcooking marcado para 8 de outubro, reunindo chefs da cidade. Mais do que assinalar uma data redonda, o aniversário serve para recordar aquilo que o Brasília representou e continua a representar.
Foi o lugar onde muitos portuenses descobriram as escadas rolantes. Foi destino de excursões, ponto de encontro, espaço de compras, cinema, música, moda, restauração e serviços.
Foi cenário de mudanças sociais e económicas e até personagem involuntária de uma das canções mais conhecidas de Rui Veloso.