Miguel Pinto
Miguel Pinto
22 Set, 2026 - 11:00

Castro de Monte Mozinho: a “Cidade Morta” que ainda respira bem perto do Porto

Miguel Pinto

Escondido num cabeço da serra, em Penafiel, é o maior povoado castrejo de época romana da Península Ibérica. Chamam-lhe a cidade morta.

Cidade morta em penafiel

Entre as freguesias de Galegos, Oldrões e Valpedre, em Penafiel, existe um recanto que parece ter parado no tempo. A cerca de quarenta minutos da cidade do Porto, o Castro de Monte Mozinho ergue-se a 408 metros de altitude, com vista desimpedida sobre a Serra do Marão, a Este, e o Montemuro, a Sul.

Quem sobe até ao topo encontra muito mais do que ruínas. Encontra uma das páginas mais fascinantes da romanização do Noroeste peninsular, gravada em granito.

Chamam-lhe a “Cidade Morta”, mas o nome engana. Este castro está tudo menos morto: é um dos sítios arqueológicos mais visitados da região e continua, ano após ano, a revelar novos segredos aos arqueólogos que ali trabalham.

Cidade Morta e o Castro de Monte Mozinho

O Castro de Monte Mozinho é um povoado fortificado de altura, erguido entre o final do século I a.C. e o início do século I d.C., com uma ocupação que se prolongou até ao século V.

Trata-se de um povoado castrejo já em plena romanização, o que significa que junta duas realidades arquitetónicas na mesma colina. Os núcleos de casas-pátio de tradição castreja, com compartimentos circulares e vestíbulo e as habitações romanas de planta quadrada ou retangular, mais complexas e organizadas.

A área habitada ocupa cerca de 22 hectares, protegidos por duas linhas de muralhas que acompanham o relevo do terreno. Na parte superior, destaca-se a muralha do século I, cuja entrada era ladeada por dois torreões que, em tempos, guardavam duas estátuas de guerreiros galaicos, hoje expostas no Museu Municipal de Penafiel.

No cume, a acrópole, delimitada por um muro espesso e sem construções no interior, terá sido o coração da vida coletiva do povoado, palco de mercados, assembleias e jogos.

O local está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1948, ao abrigo do Decreto n.º 37077, de 29 de setembro daquele ano, e integra a Rede de Castros do Noroeste Peninsular.

Segundo diversas fontes, é frequentemente apontado como o maior castro de época romana da Península Ibérica, ainda que a escavação completa do sítio esteja por concluir.

Porque se chama “Cidade Morta”

pormenor da cidade morta

A designação popular tem origem numa história com mais de um século. No início do século XX, o militar e investigador Francisco Soares de Lacerda Machado tomou conhecimento das ruínas através de José Monteiro de Aguiar e visitou o local em 1919.

Dessa visita resultou uma conferência proferida no Instituto Histórico do Minho, em Viana do Castelo, publicada em 1920 pela Imprensa da Universidade de Coimbra sob o título “Uma Cidade Morta no Monte Mòsinho ou Castro de Santo Estevão de Oldrões”, o primeiro texto alguma vez escrito sobre o castro.

Foi este título que deu origem ao nome pelo qual o sítio ainda hoje é popularmente conhecido.

A expressão pegou porque traduz bem a sensação de quem percorre as ruas empedradas do povoado. São casas sem telhado, alicerces expostos ao céu, silêncio interrompido apenas pelo vento na serra.

Uma cidade que já não se habita, mas que continua muito presente na paisagem e na identidade de Penafiel.

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Escavação dura há quase um século

A história das escavações no Castro de Monte Mozinho é, em si mesma, um retrato da evolução da arqueologia portuguesa.

Os trabalhos começaram em 1943, conduzidos por Elísio Ferreira de Sousa, e prolongaram-se até 1954. Seguiu-se uma pausa de duas décadas, até que Carlos Alberto Ferreira de Almeida retomou as escavações em 1974.

Desde 1980, a investigadora Teresa Soeiro assumiu a direção dos trabalhos até 2001, sendo desde então continuados por Teresa Pires de Carvalho.

Ao longo destas décadas, foram sendo identificadas estruturas cada vez mais complexas, como um provável templo e respetivos anexos, o alicerce de um mausoléu, rampas de acesso às portas das muralhas e uma necrópole de inumação no exterior do perímetro fortificado.

Peças de cerâmica, joalharia em prata e bronze, estatuária granítica e altares com inscrições (alguns dedicados a Júpiter) foram recuperados e encontram-se hoje distribuídos entre o Museu Municipal de Penafiel, o Museu de Etnografia e História do Porto e o Museu de Antropologia da Universidade do Porto.

vista aérea do castro

Centro Interpretativo: porta de entrada para a história

Inaugurado em 2004, o Centro Interpretativo do Castro de Monte Mozinho funciona como núcleo dependente do Museu Municipal de Penafiel e é, para a maioria dos visitantes, o primeiro contacto com o sítio arqueológico.

No espaço, é possível consultar painéis informativos e maquetas que ajudam a compreender a evolução urbanística do povoado, bem como observar parte do espólio cerâmico recolhido nas escavações da necrópole.

O edifício dispõe ainda de um pequeno auditório, parque de estacionamento, sanitários públicos e uma área de merendas.

Informações práticas para visitar

Para quem pretende organizar a visita, seguem os dados essenciais, sujeitos a confirmação junto do Museu Municipal de Penafiel antes da deslocação.

  • Morada: Lugar de Vilar, 4560-122 Galegos, Penafiel
  • Coordenadas GPS: 41º 8′ 46.90” N | 8º 18′ 40.17” W
  • Acesso: transporte público a partir de Penafiel, através das empresas Valpi-Santos e Almeida e Filhos
  • Área arqueológica: entrada livre e permanente
  • Horário de verão (2 de maio a 30 de setembro): dias úteis, das 9h30 às 13h00 e das 14h00 às 17h30; fins de semana e feriados, das 9h00 às 13h00 e das 14h00 às 19h00
  • Horário de inverno (1 de outubro a 30 de abril): dias úteis, das 9h00 às 13h00 e das 14h00 às 17h00; fins de semana e feriados, das 9h00 às 13h00 e das 14h00 às 17h30
  • Encerramento: 1 de janeiro, domingo de Páscoa, 1 de maio e 25 de dezembro
  • Contactos: Centro Interpretativo, +351 255 215 294; Museu Municipal de Penafiel, +351 255 712 760, [email protected]

O museu organiza regularmente visitas orientadas gratuitas ao castro, uma boa opção para quem quer ir além dos painéis informativos e ouvir, no terreno, as explicações de quem conhece o sítio em detalhe.

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