Share the post "Parque D. Carlos I: o jardim romântico que é o coração verde das Caldas da Rainha"
O Parque D. Carlos I, nas Caldas da Rainha, é um jardim com mais de dois séculos de existência que continua a ser, todos os dias, o local de encontro preferido de quem vive na cidade e de quem a visita pela primeira vez.
Entre lagos com cisnes, árvores centenárias e um museu nascido para guardar a obra de um dos maiores pintores portugueses, este parque é, ao mesmo tempo, um monumento histórico e um espaço absolutamente vivo.
Com cerca de 11 hectares de área verde, é um dos maiores e mais bem preservados jardins públicos da região Oeste, funcionando como ponto de partida natural para quem quer conhecer a cidade a pé.
Dali chega-se facilmente à Praça da Fruta, à Igreja de Nossa Senhora do Pópulo ou à rota dedicada à cerâmica de Bordallo Pinheiro.
Mais do que um jardim de recreio, o parque é hoje um símbolo identitário das Caldas da Rainha, reconhecido pela combinação entre valor paisagístico, património edificado e uma intensa vida social que se mantém desde o século XIX.
Parque D. Carlos I: história começa com um hospital
A origem do parque está intimamente ligada à vocação termal da cidade. Por volta de 1747, ainda no reinado de D. João V, começou a ganhar forma a ideia de criar um espaço de lazer exclusivo para os doentes que procuravam tratamento nas águas termais das Caldas.
Nessa época, as profundas reformas realizadas no Hospital, incluindo a construção da Casa da Convalescença, tornaram necessária a aquisição de novos terrenos.
Foi já na segunda metade do século XVIII que surgiu o chamado Passeio da Copa, mandado construir pelo administrador do Hospital Termal, Dr. António Gomes da Silva Pinheiro.
Tratava-se de um jardim de traço barroco, com composição axial, muros de suporte e escadarias, pensado para proporcionar aos doentes momentos de descanso ao ar livre durante os tratamentos.
Este projeto inicial foi substituído, em 1806, pelo Passeio das Caldas, que corresponde hoje à zona norte do parque.
Com o século XIX, as Caldas da Rainha tornaram-se um destino da moda. As visitas frequentes da família real, a chegada da linha ferroviária do Oeste em 1887 e o gosto crescente da burguesia por passeios, bailes e piqueniques transformaram o antigo espaço terapêutico num verdadeiro centro de convívio social.
Rodrigo Berquó e a criação do parque romântico

A grande transformação do espaço aconteceu a partir de 1888, com a chegada de Rodrigo Maria Berquó à administração do Hospital Termal.
Foi Berquó quem propôs converter as vinhas junto ao Passeio da Copa num parque arbóreo dotado de um grande lago artificial, à imagem do estilo paisagístico romântico então em voga por toda a Europa.
O projeto incluiu ainda a criação de diversas formas de entretenimento: ténis, críquete, tiro à pistola, música ao vivo num coreto e passeios de barco no lago, entretanto aberto ao público em 1891.
O abastecimento do lago, inicialmente pensado para aproveitar os excedentes de água termal, acabou por exigir obras adicionais de canalização, sinal do investimento sério que a autarquia e o Hospital colocaram na transformação do espaço.
Berquó idealizou também um conjunto de grandes pavilhões, destinados a albergar um novo Hospital D. Carlos I, com sete edifícios para enfermarias e uma galeria de 55 metros.
O arquiteto morreu antes de concluir o projeto e os pavilhões, nunca chegaram a cumprir a função inicial, serviram como quartel militar, esquadra de polícia e escola secundária.
Hoje devolutos, os edifícios continuam a impressionar quem passeia pelo parque pela sua arquitetura sóbria e um pouco enigmática, que já lhes valeu comparações bem-humoradas com o imaginário de Hogwarts.
A remodelação e o Parque D. Carlos I de hoje
Depois de décadas de menor investimento durante as primeiras décadas do século XX, o parque voltou a ganhar destaque a partir dos anos 30, tornando-se um espaço cada vez mais procurado não só pelos aquistas, mas também pela população local.
O momento decisivo aconteceu entre 1948 e 1951, com um projeto de requalificação assinado pelo engenheiro agrónomo paisagista Francisco Caldeira Cabral.
Foi esta intervenção que consolidou grande parte da estrutura atual, como relvados regulares, sebes floridas, fontes, tanques, azulejos e bicas de cantaria, além de um jogo cuidado de luz e sombra criado pela disposição das árvores.
Foi também nesta fase que o parque ganhou uma estufa própria de flores e viu nascer, no seu interior, o Museu José Malhoa.

Museu José Malhoa: arte no coração do parque
Um dos grandes atrativos do Parque D. Carlos I é precisamente o facto de abrigar, no seu interior, o Museu José Malhoa, inaugurado em 1940.
Este foi o primeiro edifício em Portugal concebido de raiz para funcionar como museu, um detalhe que explica a qualidade dos seus espaços, com salas de pé direito alto, luz natural calculada para a pintura e proporções que continuam a impressionar arquitetos e visitantes.
O museu reúne o maior núcleo de obras do pintor naturalista José Malhoa, natural das Caldas da Rainha, além de peças de outros nomes incontornáveis da arte portuguesa, como Columbano, Vieira da Silva ou Rafael Bordalo Pinheiro, e esculturas de Leopoldo de Almeida.
A ligação entre museu e parque não se limita ao edifício: várias esculturas encontram-se espalhadas pelos jardins, entre árvores e caminhos, criando um percurso artístico ao ar livre que muitos visitantes descobrem por acaso.
O que fazer no Parque D. Carlos I
O parque continua a ser, sobretudo, um espaço vivido no dia a dia. E não faltam motivos de interesse:
- Passear junto ao lago, observando os cisnes e patos que ali residem, ou alugar um barco a remos para um passeio na água.
- Visitar o Museu José Malhoa, incluído num percurso que pode continuar pelas esculturas ao ar livre distribuídas pelo jardim.
- Fazer uma pausa numa das esplanadas, como o restaurante-bar situado junto ao lago, ideal para uma refeição ou simplesmente um café com vista para o parque.
- Jogar ténis nos campos existentes no recinto, uma tradição que remonta já ao projeto original de Berquó.
- Descobrir os antigos pavilhões hospitalares, hoje devolutos mas com um valor arquitetónico e histórico muito particular.
- Observar a diversidade botânica: um levantamento realizado em 2010 identificou 157 espécies de árvores e arbustos no parque, incluindo um viveiro de carvalhos portugueses e outras espécies típicas da flora mediterrânica, além de fetos, musgos e líquenes.