Share the post "Burlas no Whatsapp estão cada vez mais refinadas. Saiba como se pode defender"
As burlas no WhatsApp deixaram de se limitar a mensagens mal escritas ou pedidos óbvios de dinheiro. Com o recurso cada vez mais frequente à Inteligência Artificial, os esquemas tornaram-se mais rápidos, mais personalizados e muito mais difíceis de detetar à primeira vista.
Em Portugal, o WhatsApp é já a plataforma mais utilizada pelos burlões para contactar as vítimas, e os prejuízos financeiros estão acima da média mundial.
Um estudo global da empresa de cibersegurança Kaspersky, intitulado “The Great Messaging Heist”, coloca Portugal entre os países mais afetados por fraudes através de aplicações de mensagens.
O relatório indica que cada vítima portuguesa perde, em média, mais de 800 euros por burla, um valor superior à média global, que ronda os 675 euros. Quase duas em cada dez vítimas nacionais chegaram a perder mais de 1.245 euros numa única ocorrência.
O WhatsApp destaca-se como o canal preferido dos criminosos em Portugal, estando associado a mais de metade dos casos reportados, seguido de perto pelo SMS e, com menor expressão, pelo Facebook.
É também frequente que a mesma burla passe por várias plataformas ao mesmo tempo precisamente para dificultar que a vítima perceba o que está a acontecer.
A velocidade é outro dado preocupante. Mais de metade das vítimas portuguesas entregou dinheiro ou dados pessoais em menos de 30 minutos após o primeiro contacto, e uma em cada sete fê-lo em menos de cinco minutos.
Entre os esquemas mais comuns no país estão as falsas entregas de encomendas, os falsos investimentos e as burlas de cariz romântico.
Quais são as burlas mais comuns no WhatsApp

Os esquemas mais frequentes recorrem a engenharia social para criar confiança ou urgência e levar a vítima a agir sem pensar:
- Burla do falso familiar (“olá pai, olá mãe”): o burlão finge ser um filho ou familiar que perdeu o telemóvel e está a escrever de um número novo. Pouco depois, surge um pedido de dinheiro urgente, normalmente para pagar uma fatura ou multa através de referência Multibanco.
- Clonagem da conta de WhatsApp: o criminoso tenta obter o código de verificação de seis dígitos enviado por SMS, alegando ter-se enganado no número. Se conseguir esse código, assume o controlo da conta e passa a contactar os contactos da vítima fazendo-se passar por ela.
- Falsas ofertas de emprego: propostas profissionais muito atrativas que pedem dados pessoais ou o pagamento de uma taxa inicial.
- Falsos investimentos: a vítima é adicionada a grupos onde outros participantes (também falsos) partilham supostos lucros elevados, incentivando-a a transferir dinheiro para uma plataforma fraudulenta.
- Falsos prémios e passatempos: mensagens que usam o nome de marcas conhecidas para anunciar um prémio ou vale, pedindo à vítima que clique num link ou reencaminhe a mensagem a outros contactos.
- Falsa versão “premium” do WhatsApp: conhecida como “WhatsApp Gold”, trata-se de um alegado upgrade da aplicação que, na realidade, instala software malicioso capaz de roubar dados pessoais e bancários.
- Falsas transportadoras em vendas online: frequente em plataformas como OLX, Vinted ou Standvirtual. O suposto comprador diz já ter pago e envia um link que imita o site de uma transportadora, levando o vendedor a introduzir dados bancários para “receber” o dinheiro.
- Falsas dívidas ou faturas pendentes: mensagens que se fazem passar por empresas ou entidades públicas, exigindo pagamento imediato sob ameaça de corte de serviço ou processo judicial.
- Transferências não solicitadas via MB Way: a vítima recebe dinheiro que não pediu e, pouco depois, surge um pedido de devolução, quando, na realidade, a transferência inicial teve origem numa conta ou cartão roubado.
Inteligência Artificial a mudar as burlas
Os erros ortográficos e a linguagem estranha costumavam ser os sinais mais óbvios de uma tentativa de fraude. Esse indicador está a perder força. Com ferramentas de Inteligência Artificial, os burlões conseguem escrever mensagens fluentes, adaptadas ao perfil e à forma de comunicar da vítima ou da entidade que estão a imitar:
- Clonar vozes a partir de curtas gravações públicas, criando áudios que soam a familiares ou amigos;
- Gerar imagens e vídeos falsos (deepfakes) para simular a identidade de outra pessoa;
- Personalizar em massa milhares de mensagens diferentes, tornando cada contacto mais credível do que uma mensagem genérica.
De acordo com o estudo da Kaspersky, quase um terço das vítimas portuguesas foi alvo de esquemas com vozes artificiais e um quarto recebeu imagens ou vídeos manipulados.
Ainda assim, uma minoria dos portugueses inquiridos reconheceu que a tecnologia tinha sido usada contra si, o que sugere que a maioria das pessoas ainda não está preparada para identificar este tipo de manipulação, tornando-se, por isso, um alvo mais fácil.
Como reconhecer uma burla no WhatsApp

Como a linguagem deixou de ser um indicador fiável, é mais importante do que nunca avaliar o contexto da mensagem:
- Contacto vindo de um número desconhecido, sobretudo internacional;
- Alguém conhecido que diz ter mudado de número recentemente;
- Pedidos inesperados de dinheiro, transferências ou dados bancários, mesmo que pareçam vir de um familiar ou amigo;
- Urgência artificial, com expressões como “é urgente” ou “preciso agora”;
- Ofertas demasiado boas para serem verdade, como prémios, empregos ou investimentos com ganhos fora do habitual;
- Pedidos de códigos de verificação recebidos por SMS ou WhatsApp;
- Métodos de pagamento pouco rastreáveis, como criptomoedas ou cartões-presente;
- Links suspeitos, com domínios estranhos ou pequenos erros ortográficos;
- Ficheiros inesperados, sobretudo em formatos como .exe, .scr ou .docm;
- Áudios ou vídeos com inconsistências, como entoação pouco natural, pausas estranhas ou problemas de iluminação e sombras.
Evitar perder dinheiro numa burla no WhatsApp
Perante uma mensagem suspeita ou um pedido inesperado, algumas medidas simples reduzem significativamente o risco:
- Parar antes de responder. A pressão e a urgência são táticas propositadas para impedir que a pessoa pense com calma.
- Confirmar a identidade por outro canal. Se a mensagem alega vir de um familiar, ligar para o número já guardado. Se alega vir de um banco ou empresa, contactar diretamente os canais oficiais dessa entidade.
- Não partilhar códigos de verificação, palavras-passe ou dados de homebanking através do WhatsApp, seja qual for a justificação apresentada.
- Confirmar os dados do destinatário antes de qualquer transferência ou pagamento.
- Ativar a autenticação de dois fatores na aplicação, como camada extra de proteção da conta.
- Bloquear e denunciar o contacto suspeito assim que a fraude for confirmada, recorrendo às ferramentas de denúncia do próprio WhatsApp.
Existem também ferramentas gratuitas de apoio, como o Detetor de Burla, da Associação Portuguesa de Marketing Directo e Digital, onde é possível analisar o texto de uma mensagem, um link ou uma captura de ecrã para avaliar o nível de risco.
O que fazer se já foi vítima de uma burla

- Contactar o banco de imediato, sobretudo se foram partilhados dados de cartão ou de acesso ao homebanking, e perguntar se é possível bloquear ou reverter alguma operação;
- Alterar todas as palavras-passe comprometidas, incluindo em qualquer outro serviço onde a mesma password fosse usada;
- Guardar todas as provas: número do burlão, capturas de ecrã, links e comprovativos de pagamento, sem apagar nada;
- Bloquear o contacto e denunciar dentro da própria aplicação;
- Apresentar queixa às autoridades. Em Portugal, é possível recorrer à PSP, à GNR ou à Polícia Judiciária, presencialmente ou através do Sistema de Queixa Eletrónica, disponível para determinados tipos de crime, incluindo a burla;
- Avisar os contactos, caso a conta de WhatsApp tenha sido comprometida, para que não sejam também enganados em nome da vítima.
Apesar destas vias estarem disponíveis, os dados da Kaspersky mostram que a maioria dos casos em Portugal nunca chega a ser denunciada às autoridades ou comunicada ao banco, o que dificulta o combate a estas redes e reduz as hipóteses de recuperar valores.