Share the post "Castelo do Rei Wamba: lenda do Tejo junto às Portas de Ródão"
Quem passa uns dias na Beira Baixa e procura um daqueles lugares que ficam na memória, encontrará no Castelo do Rei Wamba e nas Portas de Ródão uma paragem obrigatória. Não é o tipo de sítio que aparece em todas as listas de viagem e talvez seja exatamente por isso que vale tanto a pena.
Nas Portas de Ródão, o maior rio da Península Ibérica, o Tejo, é literalmente “espremido” entre duas paredes de rocha quartzítica com 170 metros de altura e apenas 45 metros de largura.
É uma garganta imponente esculpida pelo rio ao longo de milhões de anos, num trabalho de erosão tão paciente que avançou apenas 10 centímetros por cada milénio nos últimos 2,6 milhões de anos.
A formação resulta da interseção do curso do Tejo com a crista quartzítica da Serra das Talhadas e constitui um dos mais notáveis geomonumentos de Portugal, reconhecida como tal pelo geólogo Galopim de Carvalho.
Em 2009 foi oficialmente classificada como Monumento Natural, abrangendo uma área de cerca de 965 hectares nos concelhos de Vila Velha de Ródão e Nisa. Faz ainda parte do Geopark Naturtejo, integrado na rede de Geoparques Mundiais da UNESCO.
A paisagem é tão antiga que nas rochas xistosas e quartzíticas da região ainda se encontram fósseis de trilobites e bivalves com cerca de 600 milhões de anos, testemunhos de um antigo mar que cobria este território antes de existir qualquer forma de vida em terra firme.
A presença humana na região remonta ao Paleolítico Inferior. O Monte do Famaco (com cerca de 150.000 anos), o sítio arqueológico de Vilas Ruivas (50.000 anos) e a Foz do Enxarrique (35.000 anos) são alguns dos testemunhos dessa longa história de ocupação nas margens do Tejo.
O Castelo do Rei Wamba: entre a história e a lenda

Erguido numa escarpa sobranceira ao Tejo, mesmo por cima das Portas de Ródão, o Castelo do Rei Wamba, também conhecido como Castelo de Ródão, ocupa um dos pontos mais estratégicos que se possam imaginar. Quem controlava esta crista controlava a passagem.
A origem exata do castelo não está totalmente esclarecida, mas acredita-se que remonte ao período da ocupação muçulmana da Península Ibérica. O que é historicamente documentado é que, em 1199, D. Sancho I doou o território da Açafa à Ordem do Templo, e foi provavelmente pelos Templários que a torre atalaia remanescente foi erguida entre os séculos XII e XIII.
Na antiga porta de entrada, que ficava no piso superior, ainda se pode ver gravada a cruz dos Templários no seu lintel. Durante a Reconquista Cristã, o castelo servia como posto de vigilância da linha de fronteira do Tejo, comunicando visualmente com outros pontos de guarda ao longo do vale.
As escarpas quartzíticas faziam o papel das muralhas que noutros terrenos exigiriam construção de raiz, uma solução de engenharia militar adaptada à própria geologia do lugar.
Invasões francesas
Séculos mais tarde, já em plena Idade Moderna, o castelo voltou a ter um papel ativo e serviu de base de artilharia durante a Guerra dos Sete Anos e na Primeira Invasão Francesa, em 1807, para impedir a passagem do Tejo e travar o avanço inimigo pela Beira Baixa em direção ao Alentejo.
As últimas grandes reconstruções terão ocorrido no início do século XIX, por ordem do Marquês de Alorna. Em 2007, obras de conservação devolveram-lhe o aspeto atual. Hoje é monumento classificado. A entrada é gratuita e está aberto durante todo o ano.
A lenda que lhe deu o nome

A tradição oral atribui a fundação do castelo ao Rei Wamba, monarca visigodo que governou a Península Ibérica entre 672 e 680 d.C. e que ficaria associado a este lugar muito depois de ter deixado de existir qualquer ligação histórica verificável entre ambos.
A lenda conta que Wamba vivia no castelo com a sua família, mas as frequentes ausências em caçadas e guerras deixavam a rainha a governar sozinha. Do outro lado do Tejo reinava um monarca mouro, e os dois foram-se aproximando, sentados em “cadeiras de pedra” em margens opostas do rio, dizem as versões mais poéticas. O amor floresceu. A rainha acabou por abandonar o castelo e refugiar-se na capital do rei mouro.
Wamba, ao tomar conhecimento, disfarçou-se de mendigo, infiltrou-se no território inimigo e fez-se capturar. Quando lhe concederam o último desejo, tocar a sua corna pela última vez, tocou tanto e tão alto que os seus guerreiros, apostados em atalaia, acorreram, derrotaram o exército mouro e trouxeram a rainha de volta a Ródão. É uma lenda. Wamba terá vivido séculos antes da construção deste castelo. Mas são precisamente estas camadas que tornam o lugar tão rico.
Como chegar e o que esperar
O acesso ao castelo faz-se a partir de Vila Velha de Ródão, seguindo a sinalização para o monte. O estacionamento é gratuito. A torre tem dois pisos e o acesso ao piso superior é feito por uma escada metálica. A poucos metros encontra-se a ermida de Nossa Senhora do Castelo, uma presença discreta mas com enorme significado para a comunidade local.
Do miradouro junto ao castelo, a vista abre-se em todas as direções, com o Tejo a serpentear entre as escarpas, as Portas de Ródão em toda a sua magnitude, os grifos a planar em círculos nas correntes de ar quente. É um daqueles panoramas que convida ao silêncio. Para quem quiser ir além do miradouro, existem outros ângulos privilegiados para observar o monumento natural.
A ponte sobre o Tejo, o parque de merendas da Foz do Enxarrique, o Miradouro da Senhora da Achada e até a linha de comboio da Beira Baixa, que atravessa a região com vistas únicas sobre o desfiladeiro.
No verão, passeios de barco pelo Tejo oferecem outra perspetiva, desta vez de baixo para cima, sobre estas paredes de rocha que o rio demorou milhões de anos a moldar. Por isso, quem estiver na região, seja a caminho do Alentejo, a explorar a Beira Baixa ou simplesmente a descobrir o interior de Portugal, não deve passar em branco por este lugar.