Um número estrangeiro toca duas vezes e desliga. Uma mensagem no WhatsApp oferece trabalho a partir de casa a quem nunca se candidatou. Uma voz garante estar a ligar do banco. Segundo a ESET, estas chamadas e mensagens suspeitas têm, muitas vezes, o mesmo objetivo inicial: conseguir uma resposta.
O alerta foi feito pela empresa de cibersegurança em outubro de 2026, no âmbito do Mês Europeu da Cibersegurança, a campanha anual da União Europeia coordenada pela ENISA, a agência europeia para a cibersegurança, e pela Comissão Europeia, que decorre durante todo o mês de outubro. A tese é simples, o primeiro contacto nem sempre pede dinheiro ou dados, muitas vezes, serve apenas para abrir a conversa.
E é precisamente aí que começa o risco financeiro. Quem responde entra num processo que pode terminar numa chamada de retorno cara, em depósitos para “desbloquear ganhos” ou em códigos bancários entregues a desconhecidos.
O que os burlões querem do primeiro contacto
Os contactos fraudulentos procuram explorar três reações: curiosidade, confiança e sentido de urgência. A ESET agrupa-os em três objetivos, e cada um prepara uma fase seguinte da fraude.
Que devolva a chamada
Uma chamada de um número internacional desconhecido que toca poucos segundos e desliga (esquema conhecido como wangiri) quer apenas que o destinatário ligue de volta. Dependendo do número e do serviço usado, essa chamada de retorno pode gerar custos para quem liga. Por isso, uma chamada perdida de origem internacional que não se espera não é um convite para ligar. Saiba como se identificam as burlas telefónicas mais comuns em Portugal.
Que responda e entre na conversa
Num caso analisado pela ESET, os criminosos contactavam utilizadores do WhatsApp ao acaso com uma suposta oferta de trabalho. As primeiras tarefas eram simples e pagas com pequenas recompensas. Depois, a conversa passava para outras plataformas e chegavam os pedidos de depósito para continuar a receber os alegados ganhos.
O Banco de Portugal descreveu o mesmo padrão num alerta de 22 de outubro de 2025: taxas de inscrição, pagamentos “pré-pagos” para aceder a tarefas melhores e valores cada vez mais altos até os pagamentos pararem. Há ainda um risco menos óbvio. Os burlões podem pedir para usar a conta bancária da vítima como “conta-mula”, para fazer circular dinheiro de origem ilícita.
Antes de responder a uma oferta destas, confirme a vaga no site oficial da empresa. Estes são os sinais típicos de uma oferta de emprego fraudulenta.
Que confie em quem está do outro lado
No vishing, a burla por chamada, o interlocutor apresenta-se como banco, empresa, entidade pública, colega ou familiar. Muitas vezes usa dados verdadeiros da vítima para parecer credível e pede dados pessoais, credenciais, códigos ou uma ação concreta, como instalar uma aplicação.
Porque um número conhecido já não é garantia
A aparência de legitimidade pode ser reforçada com spoofing, uma técnica que falsifica o número que aparece no ecrã do telemóvel. A ANACOM tem alertado para este tipo de fraude e foi ela própria vítima: a 6 e 7 de abril de 2026, o seu número de apoio ao consumidor, o 800 206 665, foi usado em chamadas falsas. Os burlões diziam ser funcionários do regulador, acusavam as vítimas de atividades ilegais e ameaçavam bloquear números ou serviços.
A inteligência artificial acrescenta outra camada. Hoje é possível imitar mensagens, perfis, imagens, vozes e vídeos de forma convincente. Reconhecer um número ou uma voz familiar deixou de chegar.
Segundo dados da ANACOM, o regulador recebeu 30 queixas de spoofing em 2024 e 188 em 2025, mais de seis vezes mais. Só até 1 de junho de 2026, já somava 270. A 29 de maio de 2026, o Conselho de Ministros aprovou uma proposta de lei de autorização legislativa para alterar a Lei das Comunicações Eletrónicas. Prevê que os operadores adotem mecanismos de deteção e combate a fraudes, incluindo o bloqueio ou a anonimização de mensagens fraudulentas ou com hiperligações enganosas, e torna obrigatória a identificação dos utilizadores de cartões pré-pagos. A proposta ainda tem de passar pelo Parlamento.
Como confirmar se o contacto é verdadeiro
A regra resume-se a três verbos: parar, verificar e só depois agir. A ESET recomenda cinco medidas:
- Pare antes de agir, não devolva chamadas por impulso nem forneça dados, códigos, credenciais ou informação financeira num contacto inesperado;
- Confirme a identidade por um canal oficial e independente, como o site, a aplicação ou o número oficial da entidade;
- Não confie apenas no número apresentado, porque pode ter sido falsificado;
- Use soluções de segurança com filtro de chamadas e proteção contra phishing, SMS fraudulentos e ligações maliciosas;
- Reaja depressa se já agiu, contacte a entidade afetada, proteja as contas envolvidas e analise o dispositivo se instalou alguma aplicação.
A ANACOM acrescenta outro conselho: peça o nome, a empresa e o departamento de quem liga e solicite que o contacto seja feito noutra altura, para ter tempo de confirmar a identidade. Entretanto, ligue diretamente para o número que consta do cartão bancário, da fatura ou do site oficial da entidade. Atenção também aos números de valor acrescentado: perceba quanto custa ligar para números 707 antes de ligar de volta.
Já respondeu ou pagou? O que fazer nas primeiras horas
O tempo conta. Se forneceu dados bancários ou viu um movimento que não reconhece, contacte de imediato o banco ou o prestador de pagamento, peça o bloqueio de cartões e acessos e altere as palavras-passe. Se instalou uma aplicação ou seguiu instruções de alguém, analise o dispositivo com uma solução de segurança antes de voltar a usar a aplicação do banco.
Há uma diferença que pesa no reembolso. Quando a operação não foi autorizada pelo cliente, o Decreto-Lei n.º 91/2018 obriga o banco a reembolsar imediatamente e, o mais tardar, até ao final do primeiro dia útil seguinte a ter conhecimento. Mas a lei tem exceções: se houver atuação fraudulenta ou negligência grosseira do cliente, este pode ter de suportar as perdas. E quando é o próprio cliente a ordenar a transferência, convencido pelo burlão, o reembolso é mais difícil de obter, porque o banco pode considerar a operação autorizada.
Depois, apresente queixa na PSP, na GNR, na Polícia Judiciária ou no Ministério Público. Guarde capturas de ecrã, números, horas e comprovativos. Se o banco não resolver, é possível reclamar junto do Banco de Portugal.
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Autoridade Nacional de Comunicações. (2026, abril 8). Alerta para chamadas fraudulentas em nome da ANACOM. https://www.anacom.pt/render.jsp?contentId=1831529
Decreto-Lei n.º 91/2018, de 12 de novembro. Diário da República, 1.ª série, n.º 217. https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/91-2018-116936932
ESET Portugal. (2026, outubro 9). Mês Europeu da Cibersegurança: Porque recebemos tantas chamadas e mensagens suspeitas? [Comunicado de imprensa].
European Cybersecurity Month. (s.d.). What is ECSM? https://cybersecuritymonth.eu/about-ecsm
Governo de Portugal. (2026, maio 29). Comunicado do Conselho de Ministros de 29 de maio de 2026. https://portugal.gov.pt/gc25/governo/comunicados-do-conselho-de-ministros/comunicado-do-conselho-de-ministros-de-29-de-maio-de-2026