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O ChatGPT começa a mostrar anúncios aos utilizadores europeus, incluindo em Portugal, iniciando uma nova de monetização da plataforma.
Depois de um período de testes nos Estados Unidos, a OpenAI decidiu avançar para aquela que descreve como a maior expansão geográfica de sempre do seu negócio publicitário, levando os anúncios a 31 países do continente europeu.
Esta mudança representa um marco importante na forma como a empresa liderada por Sam Altman pretende sustentar financeiramente o seu produto mais conhecido.
E, para milhões de portugueses que usam o assistente de inteligência artificial diariamente para pesquisar, comparar produtos ou tirar dúvidas, significa que a experiência de utilização está prestes a mudar.
ChatGPT: mudança par a um novo paradigma?
A OpenAI confirmou que o ChatGPT vai passar a exibir anúncios em 31 mercados europeus, entre os quais Alemanha, França, Espanha, Itália, Suécia, Noruega, Dinamarca, Países Baixos, Áustria, Polónia, Bélgica, Irlanda, República Checa e, naturalmente, Portugal.
A novidade chega precisamente seis meses depois de a empresa ter iniciado, em fevereiro, um projeto-piloto de publicidade exclusivo para o mercado norte-americano, entretanto alargado a mais oito países, incluindo Brasil, México, Japão e Coreia do Sul.
Para já, as marcas não vão poder criar campanhas de forma totalmente autónoma. O acesso às ferramentas publicitárias será feito através da equipa da OpenAI dedicada a soluções de publicidade, de agências parceiras e de parceiros tecnológicos.
A gestão inteiramente self-service, através da plataforma Ads Manager, só deverá ficar disponível mais tarde, ainda este verão.
Quem vai ver anúncios (e quem fica isento)

Um dos pontos mais relevantes para quem usa o ChatGPT é perceber quem vai realmente ser exposto a publicidade. E serão apenas os utilizadores dos planos gratuito e Go, este último a versão de entrada paga, que na Europa custa cerca de oito euros por mês.
Quem tiver uma subscrição Plus, Pro ou Enterprise vai continuar a usar o ChatGPT sem qualquer anúncio.
Ou seja, a publicidade funciona como contrapartida pelo acesso gratuito ou de baixo custo à ferramenta, um modelo de negócio semelhante ao já adotado por gigantes como a Google ou a Meta.
Como vão aparecer os anúncios no ChatGPT
Segundo a OpenAI, a publicidade será sempre identificada de forma clara e mantida separada das respostas geradas pelo assistente. A empresa garante ainda três compromissos centrais.
- As conversas dos utilizadores não são partilhadas com os anunciantes.
- A publicidade não influencia o conteúdo das respostas dadas pelo ChatGPT.
- Os utilizadores mantêm controlo sobre os dados usados para personalização de anúncios, através de definições específicas na conta.
Do lado técnico, a plataforma publicitária da OpenAI também tem evoluído rapidamente nos últimos meses.
Além dos modelos de licitação por CPM e CPC já existentes, a empresa passou a oferecer otimização para conversões, segmentação geográfica, públicos personalizados e novas ferramentas de medição de resultados, como o OpenAI Pixel e uma API de conversões, além de integrações com plataformas de medição de terceiros.
Europa demorou mais tempo a receber anúncios

A chegada da publicidade ao Velho Continente não é imediata desde o arranque do projeto nos Estados Unidos por causa do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD).
Ao contrário de outros mercados, a legislação europeia exige consentimento explícito para que os dados pessoais sejam usados em publicidade personalizada, a menos que a empresa consiga justificar um chamado “interesse legítimo”, algo difícil de sustentar neste tipo de tratamento de dados.
Por isso, a OpenAI optou por construir o seu modelo publicitário europeu assente no consentimento desde a primeira hora.
A empresa já tinha atualizado, em junho, os seus termos de privacidade, e publicou a 14 de agosto uma nova política de privacidade específica para a União Europeia, detalhando como os dados dos utilizadores europeus vão ser tratados a partir do momento em que os anúncios entrarem em funcionamento.
Investimentos pesados
A pressão financeira ajuda a explicar a velocidade desta expansão.
A OpenAI continua a investir somas avultadas em infraestrutura e desenvolvimento de modelos de inteligência artificial, ao mesmo tempo que se prepara para uma eventual oferta pública inicial que a poderá valorizar em cerca de mil milhões de dólares. Angariar novas fontes de receita é, por isso, uma prioridade estratégica.
Os números também ajudam a perceber o interesse comercial da aposta. A empresa ultrapassou recentemente a marca de mil milhões de utilizadores ativos semanais a nível mundial, com cerca de 20% das interações a revelarem alguma forma de intenção comercial.
É precisamente esse comportamento que torna o ChatGPT atrativo para os anunciantes.
Em vez de uma simples palavra-chave de pesquisa ou de uma impressão passiva nas redes sociais, a conversa com o assistente pode revelar necessidades e preferências de forma muito mais detalhada.
Riscos para a confiança dos utilizadores
Mas nem tudo são boas notícias para quem defende um ecossistema digital mais transparente.
Há quem alerte para o risco de os utilizadores começarem a desconfiar das respostas do ChatGPT caso sintam que estas podem estar, ainda que indiretamente, influenciadas por interesses comerciais.
É também apontado que o facto de a publicidade só afetar os planos gratuito e Go pode criar uma pressão implícita para que quem valoriza a privacidade e uma experiência sem anúncios opte por subscrever um plano pago.
Vale a pena notar que a Anthropic, criadora do assistente Claude e concorrente direta da OpenAI, tem feito da ausência de publicidade um argumento central da sua proposta de valor, distinguindo-se assim de um mercado que caminha, cada vez mais, para o modelo publicitário tradicional da internet.
Como impacta o ChatGPT em Portugal
Na prática, os utilizadores portugueses do plano gratuito ou do plano Go vão começar a ver anúncios integrados na interface do ChatGPT já a partir do dia 24 de agosto.
A gestão das campanhas em Portugal deverá passar, numa primeira fase, por grandes agências internacionais de publicidade, como Publicis, WPP, Omnicom, Havas e Dentsu, que já colaboram com a OpenAI noutros mercados.
Para as marcas e profissionais de marketing portugueses, esta mudança abre uma nova porta de comunicação junto de consumidores que já recorrem à inteligência artificial para investigar produtos e tomar decisões de compra.