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Elsa Santos
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12 Nov, 2019 - 10:41

Dislexia na escola: tudo o que deve saber

Elsa Santos

A dislexia na escola é ainda encarada com algumas reservas, com consequências para os alunos. Dos sintomas aos apoios, descubra tudo sobre o tema.

dislexia na escola

A dislexia na escola, quando não diagnosticada e sem medidas de apoio, pode comprometer seriamente o desempenho académico e, consequentemente, o futuro profissional do aluno.

É importante perceber o que é e quais as implicações da dislexia, assim como as medidas de apoio possíveis. Descubra as respostas às muitas questões sobre o tema.

Dislexia: o que é?

dificuldades de aprendizagem

A dislexia é uma disfunção neurológica que se manifesta ao nível da dificuldade de aprendizagem da leitura, em pessoas com inteligência normal ou acima da média.

A dificuldade crónica não está relacionada com a qualidade do ensino, o nível intelectual, as oportunidades socioculturais ou as alterações sensoriais. A mesma tem uma base neurobiológica, com alterações na estrutura e funcionamento neurológico, podendo apresentar uma influência genética.

Quem sofre de dislexia apresenta um esforço acrescido para distinguir letras, formar palavras e compreender o seu significado.

Ao contrário do que algumas pessoas possam pensar, os alunos com estas dificuldades não são preguiçosos, pouco inteligentes, imaturos, nem têm, necessariamente, problemas visuais ou de postura. Requerem, sim, um tratamento terapêutico adequado, intensivo e apoio no processo de ensino-aprendizagem, de modo a conseguirem ter sucesso.

Ainda que esteja relacionada com a aprendizagem da leitura, a dislexia pode ter consequências noutras áreas académicas, assim como a nível emocional e comportamental.

É frequente a existência de outros problemas em simultâneo, tais como: perturbação específica da linguagem, discalculia, disortografia, descoordenação motora, défice de atenção com ou sem hiperatividade, alterações do comportamento, perturbação do humor, perturbação de oposição e desvalorização da autoestima.

Como se manifesta?

De acordo com os muitos estudos já realizados, existe um conjunto de características inerentes a crianças e jovens com dislexia e cuja identificação é muito importante, para uma deteção o mais precoce possível do problema.

Os sinais e sintomas manifestam-se em diferentes campos: na leitura, na escrita, no comportamento e emoções.

Na leitura:

  • Dificuldades na aquisição e desenvolvimento do automatismo na leitura;
  • Leitura silabada, hesitante e com muitas incorreções;
  • Precisão e velocidade da leitura inferiores ao esperado para a idade e nível escolar;
  • Dificuldade na leitura de palavras irregulares e pouco frequentes;
  • Dificuldades na compreensão de textos e enunciados lidos;
  • Dificuldades no processamento fonológico: consciência fonológica, codificação fonológica e recuperação dos códigos fonológicos;
  • Dificuldade na descodificação de letras ou sílabas com trocas fonológicas e lexicais: o-u; p-t; b-v; s-ss-ç; s-z; f-t; m-n; f-v; g-j; ch-x; x/ch-j; z-j; nh-lh-ch; ão-am; ão-ou; ou-on; au-ao; ai-ia; per-pre;
  • Substituição de palavras por outras de estrutura similar, com significado diferente (saltou-salvou) e/ou substituição de palavras inteiras por outras semanticamente próximas (cão-gato; bonito-lindo; carro-automóvel).

Na escrita:

  • Dificuldades na escrita, na fase de iniciação e/ou de desenvolvimento;
  • Dificuldade na associação do som ao desenho da letra;
  • Dificuldade na rechamada de palavras;
  • Utilização de vocabulário restrito;
  • Presença de muitos erros ortográficos e sintáticos;
  • Frases com palavras unidas ou separadas;
  • Palavras com letras ou sílabas repetidas, ou colocadas antes ou depois do lugar correto;
  • Omissão ou adição de letras e sílabas (ex: livro-livo; batata-bata; flor-felore;);
  • Ligação ou separação de palavras ou sílabas (às vezes-àsvezes; agora-a gora);
  • Confusão de letras com sons próximos ou com desenho equivalente;
  • Presença de erros de concordância em género e número ou tempo verbal;
  • Não domínio do uso de regras de pontuação;
  • Desrespeito de regras gráficas (uso da cedilha, do hífen, traços, letra maiúscula) ou de translineação;
  • Dificuldade em exprimir ideias, em iniciar e desenvolver uma composição;
  • Dificuldade na organização das ideias no texto;
  • Má qualidade da caligrafia, letra rasurada, e irregular.

Manifestações no comportamento:

  • Demorar muito tempo a realizar os trabalhos de casa;
  • Recorrer a estratégias para não ler;
  • Não revelar prazer pela leitura;
  • Distração com facilidade perante qualquer estímulo exterior;
  • Apresentar curtos períodos de atenção;
  • Resultados escolares inferiores à capacidade intelectual;
  • Melhores resultados nas avaliações orais do que nas escritas;
  • Dificuldade na aprendizagem de idiomas estrangeiros;
  • Não gostar das tarefas da escola que impliquem ler ou escrever;
  • Comportamentos de oposição e de desobediência para com a figura de autoridade (pais, professores);
  • Comportamentos de isolamento ou anulação na escola e em sala de aula;
  • Comportamentos de inibição ou bloqueio, sempre que se exige exposição;
  • Resultados escolares que não refletem a aplicação e enorme esforço;
  • Revelar criatividade em algum domínio.

Alterações emocionais:

  • Ansiedade nos momentos de avaliação ou atividades que impliquem ler e escrever;
  • Sentimento de tristeza e de frustração quando não consegue concretizar uma tarefa;
  • Baixa autoestima e sentimento de inferioridade;
  • Vergonha perante os insucessos escolares;
  • Enurese noturna (perda involuntária de urina);
  • Perturbações do sono.

dislexia: como tratar?

ensinar a ler

Os sinais e sintomas apresentados são, habitualmente, detetados pelos educadores, professores e/ou familiares que facilmente se apercebem das dificuldades de aprendizagem. São essas dificuldades que conduzem os disléxicos a um sentimento de frustração e de inferioridade.

A criança deve ser encaminhada para uma consulta de psicologia e/ou educação especial, a fim de realizar uma avaliação psicopedagógica, para despistar a dislexia.

Essa avaliação inclui a história clínica do aluno, a análise cognitiva e comportamental e a avaliação da leitura (descodificação e compreensão), da linguagem oral e escrita, em alguns casos também da linguagem quantitativa, com o objetivo de identificar o tipo de erros, a sua intensidade e duração.

Os resultados obtidos vão servir de base para a construção de um plano de intervenção com metodologias adequadas a cada caso/aluno. Esse plano deve ser partilhado entre profissionais de saúde, família e professores, para garantir um verdadeiro trabalho de equipa para conseguir alcançar efeitos (melhorias).

Quanto mais cedo for feito o tratamento, melhor

Na dislexia, a intervenção precoce representa cerca de 90% das dificuldades ultrapassadas.

Nesse sentido, o ideal é que o apoio específico comece antes da entrada no primeiro ciclo, para que a criança possa ter os pré-requisitos da aprendizagem da leitura.

Apesar de uma criança ainda não poder ser considerada disléxica no pré-escolar, a verdade é que pode apresentar dificuldades que representem essa possibilidade, nomeadamente:

  • Falta de atenção ou dificuldade em concentrar-se;
  • Ter um atraso no desenvolvimento da linguagem e nas atividades de expressão oral;
  • Ter dificuldade em fixar as cores, a sua direita e esquerda, ou rimas e canções e em participar em jogos de memória ou em representar a figura humana, entre outros;
  • Manifestar desinteresse por tarefas “escolares” como estar sentado, realizar fichas ou ouvir histórias.

Apesar de não ser possível fazer um diagnóstico, perante indicadores que levem a crer que poderá vir a existir uma dislexia, a criança deverá ser acompanhada (mesmo sem diagnóstico) de forma a evitar que as dificuldades se agravem.

Diagnóstico e apoio

Um diagnóstico formal da dislexia pode ser feito apenas após dois anos de escola. Isso significa que em contexto escolar não será possível qualquer acompanhamento, até que complete o referido período.

Para poder beneficiar de uma intervenção especializada na escola, o aluno terá de integrar o Decreto Lei 3/2008, de 7 de janeiro e, para isso, precisa de apresentar diagnóstico formal (com relatório de um especialista).

No entanto, há algumas escolas com projetos direcionados para alunos com indicadores de possíveis futuras dificuldades na leitura e na escrita.

Percurso académico comprometido?

Ao abrigo desse decreto, um disléxico, considerado aluno com Necessidades Educativas Especiais (NEE), pode beneficiar de um Programa Educativo Individual (PEI), até ao 12º de escolaridade, independentemente do ensino (regular ou profissional) ou curso que frequente. O objetivo é que consiga adquirir conhecimentos e competências traçados.

Portanto, nada invalida que tenha sucesso e possa ingressar no ensino superior, desde que realize os respetivos exames nacionais, sendo que a um aluno com dislexia abrangido pelo Decreto-Lei n.º 3/2008 pode ser autorizada a aplicação de adaptações na classificação das provas finais de ciclo, dos exames finais nacionais e das provas de equivalência à frequência.

De uma forma geral, a Dislexia na escola depende da participação ativa e adequada, nomeadamente, de psicólogos, professores e encarregados de educação.

Para mais informações sobre Dislexia, consulte a Associação Portuguesa de Dislexia ou o PIN – Centro para as Perturbações do Desenvolvimento.

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