Miguel Pinto
Miguel Pinto
07 Abr, 2026 - 16:00

Esqueça a auto-estrada: a EN120 é o caminho para o Algarve

Miguel Pinto

Percorrer a EN120 entre Alcácer do Sal e Lagos é entrar numa viagem única pela costa portuguesa. Não hesite e faça-se ao caminho.

Roteiro pela EN120

Muitas estradas que são apenas uma linha entre dois pontos. Outras são uma experiência. A Estrada Nacional 120, a EN120, como lhe chamam os que a conhecem de cor, pertence claramente à segunda categoria.

Nasce em Alcácer do Sal, no baixo Alentejo litoral, atravessa Grândola e Santiago do Cacém, mergulha pelo interior selvagem da Costa Vicentina, atravessa o limiar invisível entre o Alentejo e o Algarve em Odeceixe, contorna a Serra do Espinhaço de Cão, e acaba em Lagos, já em frente ao Mediterrâneo temperado do sotavento algarvio.

São pouco mais de 170 quilómetros, mas valem bem mais do dobro se for com tempo, curiosidade e vontade de parar.

A EN120 foi criada em 1945, no âmbito do Plano Rodoviário Nacional, como um dos principais eixos norte-sul do litoral português, uma alternativa à EN2 e à EN5 para quem rumava a sul.

Com o tempo, perdeu estatuto oficial a favor das autoestradas e dos itinerários complementares, mas nunca perdeu carácter.

A sinalética continua a identificá-la como EN120 ao longo de quase toda a extensão, mesmo nos troços que foram entretanto reclassificados. É quase uma teimosia bonita. Quem a faz hoje não vai a correr. Vai a descobrir.

EN120: Km 0 em Alcácer do Sal

Há algo de imediatamente sedutor em Alcácer do Sal. Talvez seja a forma como a cidade se acomoda na encosta que desce ao Sado. Talvez seja a luz alentejana, aquela que não tem pressa nem desculpas.

Talvez sejam as casas caiadas de branco que se empilham até ao castelo como se ali tivessem crescido naturalmente.

O nome já conta tudo. Al-Kassr, fortaleza em árabe. E o sal, claro, aquele que deu riqueza à cidade durante séculos, que navegou o Sado em galeões e que ainda hoje dá nome à terra.

A cidade é uma das mais antigas de Portugal, com vestígios de ocupação desde a Idade do Bronze. Fenícios, romanos, mouros, cavaleiros de Santiago, todos aqui passaram e deixaram marca.

O que não perder antes de arrancar

O Castelo e a Cripta Arqueológica. O castelo é o ex-libris incontornável. De origem muçulmana, com mais de 30 torres que chegaram aos 25 metros de altura, alberga hoje a Pousada D. Afonso II, instalada no antigo Convento de Aracoelli.

Mesmo sem ser hóspede, pode visitar o claustro e a Cripta Arqueológica, um museu subterrâneo onde 27 séculos de história se cruzam em camadas geológicas de civilizaçõe. É a maior cripta arqueológica do país.

A Igreja de Santa Maria do Castelo. Fundada em 1217, após a reconquista da cidade por D. Afonso II, guarda no interior azulejos setecentistas, talha dourada e um púlpito de pedra que vale parar a olhar.

A marginal e a ponte metálica. Antes de partir, faça uma caminhada pela marginal do Sado. A ponte metálica de 1945, o mesmo ano em que a EN120 foi criada, tem traça “à Eiffel” e o tramo central é móvel.

Sobe e desce para dar passagem às embarcações, incluindo os galeões do sal que hoje levam turistas a passeio pelo estuário.

Km 22: Grândola: a terra da canção e da Serra

A estrada entre Alcácer e Grândola foi outrora a recta mais comprida de Portugal. Hoje em dia o traçado foi renovado, mas o espírito mantém-se, com pinhais extensos, luz que bate em diagonal, o silêncio pontual de uma terra que não tem pressa.

São 22 quilómetros planos, bons para ir preparando o espírito para o que vem a seguir.

O que não deve perder

A Ermida de Nossa Senhora da Penha fica logo à saída de Grândola, num outeiro que proporciona uma das vistas mais generosas sobre a planície a norte. É local de romaria no Domingo de Páscoa, mas pode ser visitada em qualquer altura do ano.

A Serra de Grândola, que se interpõe entre a vila e Santiago do Cacém, é uma das mais agradáveis surpresas desta rota. A estrada serpenteia em curvas bem lançadas entre a vegetação mediterrânea.

Km 55: Santiago do Cacém já cheira a mar

Vista aérea de Porto Côvo

Santiago do Cacém é uma das cidades mais subestimadas do Alentejo litoral. Fica no cimo de uma colina, tem um castelo medieval bem conservado e guarda nas suas entranhas uma das mais bem preservadas ruínas romanas do país, as de Miróbriga.

A partir de Santiago, a EN120 começa a descer em direcção ao mar. O cheiro muda. O céu também. Sines e Porto Covo. Antes de continuar para sul, quem tiver um ou dois dias extra deve fazer o desvio para a costa. Sines, terra natal de Vasco da Gama, tem um castelo sobranceiro ao mar e uma das melhores cenas gastronómicas da região.

Porto Covo é um cartão-postal, com ruas de casas brancas, uma baía com falésias cor de laranja e a Ilha do Pessegueiro bem à frente, acessível de barco no verão.

Km 80: Cercal do Alentejo e a entrada no parque

A partir do Cercal, a paisagem muda de registo. A estrada torna-se mais serpenteante, a vegetação mais densa, o oceano ainda invisível mas já presente no ar.

Está-se a entrar no território do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, o litoral europeu mais bem conservado, um espaço protegido que se estende por mais de 110 quilómetros de costa atlântica.

A estrada por aqui tem menos infraestrutura, mais natureza. É exactamente isso que se deve querer.

Km 100: Odemira e Vila Nova de Milfontes

esplanadas e terraços em Milfontes

Odemira é atravessada pelo rio Mira e tem uma calma de cidade que cresceu ao ritmo da natureza.

Vale a pena parar no centro, ver as igrejas, o moinho de vento, o jardim da Fonte Férrea e pensar que o município tem 55 quilómetros de costa, toda ela dentro do Parque Natural.

Mas é Vila Nova de Milfontes que rouba o coração desta etapa. A cidade fica na foz do Rio Mira, onde as águas doces se misturam com o Atlântico, e o resultado é um conjunto de praias para todos os feitios.

O Forte de São Clemente domina a foz do Mira desde o século XVII. No largo contíguo, um monumento recorda o voo do avião Pátria, que dali partiu em 1922 numa tentativa histórica de ligação a Macau.

Os restaurantes de peixe e marisco são dos melhores da costa. A conquilha à Bulhão Pato, o sargo grelhado, a cataplana de berbigão são de parar de andar.

Km 120: Almograve e Zambujeira do Mar

Almograve é uma aldeia costeira pequena e sossegada, com uma praia ladeada por falésias imponentes e o começo do trilho das Dunas, um dos percursos pedestres mais recomendados da Rota Vicentina.

A praia tem também um memorial. Foi ali que chegou, em 1989, uma das maiores marés negras da história da costa portuguesa, com cerca de seis mil litros de crude.

Zambujeira do Mar é o oposto em temperamento. Pequena no tamanho, enorme na reputação. A praia foi eleita uma das Sete Maravilhas de Portugal na categoria de praias urbanas. A grande falésia que a abraça protege-a do vento e cria um anfiteatro natural de rara beleza.

A Praia da Amália, a caminho de Odeceixe, merece menção especial. Foi o retiro favorito da fadista Amália Rodrigues, que aqui passava os verões.

Km 140: Odeceixe junta Alentejo e Algarve

parques de campismo na costa vicentina

Rolando pela EN120, surge Odeceixe, uma aldeia de ruas íngremes e casas caiadas, com um moinho de vento no alto que serve de cartão de visita.

Mas o que a distingue verdadeiramente é a sua praia, com uma língua de areia na foz da Ribeira de Seixe, onde o rio e o mar se encontram e criam um espaço que agrada a todos. Foi eleita uma das Sete Maravilhas de Portugal nas praias de arriba.

É aqui que a fronteira entre o Alentejo e o Algarve se dissolve. Os campos de trigo e os pomares de um lado, as serras calcárias do outro, tudo misturado numa paisagem que não tem partido.

Km 155: Aljezur com memórias e praias de surfistas

Aljezur é terra antiga. Os mouros chegaram ali no século VIII e ergueram um castelo no século X cujas ruínas ainda dominam a paisagem.

Foi conquistada pelos cristãos em 1249 e manteve desde então aquela arquitectura rural caiada de branco que é marca da região.

Nas imediações ficam algumas das praias mais procuradas pelos surfistas. Monte Clérigo, Arrifana e Amoreira são três destinos de eleição para quem apanha ondas, mas também para quem simplesmente quer ver o mar num estado mais bravo e selvagem.

Perto de Aljezur encontra-se também o Ribat da Arrifana, um convento-fortaleza do século XII fundado pelo mestre sufi Ibn Qasî, uma peça rara da arquitectura islâmica no ocidente peninsular, sobranceira ao mar numa ponta rochosa de tirar o fôlego.

da fuseta a cacela velha
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Km 165: surpresa na Serra do Espinhaço de Cão

A Serra do Espinhaço de Cão é a última peça desta viagem e uma das mais surpreendentes.

Quem se lembrar desta estrada de outros tempos, quando era estreita e de piso irregular, vai encontrar uma serpentina renovada com excelente pavimento e curvas bem desenhadas que convidam a conduzir com prazer.

O traçado sinuoso manteve-se, mas as condições melhoraram muito.

É uma subida e descida de floresta e mato mediterrâneo, com o perfume do pinheiro e do cistro a entrar pelas janelas. E depois, quase sem aviso, a EN120 deixa-nos em Lagos.

Km 174: Lagos, fim de viagem ou início de outra

escarpas junto ao mar em Lagos

Lagos é o fim da EN120. A cidade tem uma das mais belas marinhas de todo o Algarve, com os seus arcos dourados esculpidos pelo tempo nas falésias da Ponta da Piedade.

O centro histórico medieval está preservado dentro das muralhas do século XVII. A Igreja de Santo António é uma jóia do barroco português. O Mercado de Lagos (o primeiro mercado de escravos documentado da Europa, um lugar para visitar com sobriedade) é hoje um espaço museológico de memória.

Mas Lagos também é uma cidade viva, com uma cena gastronómica moderna que combina o peixe atlântico com influências contemporâneas, boas esplanadas junto à marina e energia de cidade costeira que não dorme cedo.

A EN120 acaba na EN125, a estrada que atravessa o Algarve todo de barlavento a sotavento. Daqui para a frente, o mundo continua. Mas a viagem que se acaba de fazer já foi inteira por si mesma.

Roteiro pela EN 120: informações práticas

Extensão total: cerca de 174 km (Alcácer do Sal — Lagos)

Tempo estimado sem paragens: 2h30 a 3h

Tempo recomendado com paragens: mínimo 2 dias, idealmente 4 a 5 dias para aproveitar praias e trilhos

Melhor época: primavera (abril-junho) e outono (setembro-outubro) para
quem quer praias sem multidões; verão para quem não dispensa o
movimento e o calor; inverno para quem gosta de solidão e ondas

A não perder

  • Cripta Arqueológica de Alcácer do Sal
  • Ruínas Romanas de Miróbriga (Santiago do Cacém)
  • Praias das Furnas e da Franquia (Vila Nova de Milfontes)
  • Praia de Zambujeira do Mar ao pôr do sol
  • Praia de Odeceixe (rio e mar juntos)
  • Praia da Arrifana (Aljezur)
  • Ribat da Arrifana

Comer e beber

  • Alcácer do Sal: Cantinho da Ribeira Velha, Retiro Sadino
  • Odemira: Tasca do Celso, Porto das Barcas
  • Almograve: O Lavrador
  • Azenha do Mar: Restaurante Azenha do Mar (sem reservas — chegue cedo)
  • Aljezur: Sítio do Forno, O Chaparro
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