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A taça preferida caiu e partiu-se em três. Antes de ir para o lixo, há uma alternativa com mais de 500 anos: colá-la e realçar as fissuras a dourado. É isso o kintsugi, uma técnica japonesa de reparação de cerâmica que usa laca e pó de ouro (ou de prata) para unir os pedaços. Em vez de esconder o estrago, mostra-o e transforma-o na parte mais bonita da peça.
Hoje, há kits que permitem fazer uma versão simplificada em casa. Para quem quer recuperar loiça com valor sentimental, ou simplesmente gastar menos em peças novas, é uma forma de bricolage com resultado decorativo.
O que é o kintsugi e de onde vem
O kintsugi é uma técnica japonesa de reparar cerâmica partida com laca natural, à qual se junta pó de ouro, prata ou platina. O nome significa “junção dourada”. As linhas de reparação ficam à vista e passam a fazer parte da história e da beleza da peça.
Segundo o New Orleans Museum of Art (2020), a técnica desenvolveu-se no século XV. A história mais contada envolve o xógum Ashikaga Yoshimasa (1436-1490): uma taça de chá chinesa de que gostava muito foi reparada com agrafos de metal, e o resultado desagradou-lhe. Os artesãos japoneses terão então procurado uma solução mais bonita, com laca e ouro.
Esse espírito liga-se diretamente ao wabi-sabi, a estética japonesa que valoriza o imperfeito e o que mostra a passagem do tempo. O museu descreve esta técnica como uma expressão desse apreço pela imperfeição, pela simplicidade e pela transitoriedade das coisas.
Kintsugi tradicional ou kit moderno: o que muda
Quem pesquisa kintsugi encontra duas coisas muito diferentes com o mesmo nome. A tabela resume a diferença.
| Kintsugi tradicional | Kit moderno | |
|---|---|---|
| Cola | Laca natural (urushi) | Resina sintética (por exemplo, epóxi) |
| Acabamento | Pó de ouro, prata ou platina | Pó metálico dourado ou prateado |
| Tempo | Vários meses por peça | Muito menos (depende da cola usada) |
| Dificuldade | Exige formação e prática | Acessível a principiantes |
| Cuidados | A laca fresca pode causar alergia na pele | Siga as indicações de segurança do fabricante |
No método tradicional, segundo a conservadora-restauradora e artista de kintsugi Naoko Fukumaru, os fragmentos são unidos com laca misturada com farinha, as falhas são preenchidas com laca e pó de pedra, a superfície é lixada, recebe várias camadas de laca e só no fim é polvilhada com ouro. Entre cada etapa, a laca tem de secar dias ou semanas em ambiente quente e húmido e uma única peça pode levar vários meses a ficar pronta.
A laca tradicional tem outro cuidado: contém urushiol, o mesmo óleo que pode provocar reações alérgicas na pele a quem toca na hera venenosa. Enquanto não endurece por completo, a laca pode causar irritação; depois de bem curada, perde essa propriedade. Por isso, quem trabalha com ela usa luvas e mangas compridas.
O kit moderno é uma adaptação. Não é kintsugi no sentido rigoroso, mas permite obter um efeito parecido em casa, em muito menos tempo.
Como fazer kintsugi em casa, passo a passo
O processo varia de kit para kit, por isso as instruções do fabricante prevalecem sempre. Em traços gerais, é assim:
- Prepare a peça – lave e seque bem os fragmentos. Junte-os a seco para confirmar que encaixam e que não falta nenhum pedaço;
- Proteja-se e proteja a mesa – use luvas, trabalhe num espaço arejado e forre a superfície com papel;
- Misture a cola – nas resinas epóxi, junta-se a resina ao endurecedor nas proporções indicadas. Alguns kits pedem para misturar logo o pó dourado; outros, para o aplicar no fim;
- Una os pedaços – aplique uma camada fina nas arestas, encaixe e segure durante o tempo indicado pelo fabricante. Retire o excesso enquanto a cola está mole;
- Realce as fissuras – com um pincel fino, aplique a mistura dourada ao longo das linhas de união;
- Deixe secar – respeite o tempo de cura indicado na embalagem antes de mexer na peça.
Para uma primeira tentativa, escolha uma peça partida em dois ou três pedaços limpos. Fragmentos muito pequenos ou peças esfareladas são bastante mais difíceis.
O que pode (e não pode) fazer com a peça reparada
Esta é a questão que mais dúvidas levanta. Uma peça reparada com kit não fica, automaticamente, igual a uma peça nova. Antes de usar uma taça ou um prato com comida ou bebida, confirme no rótulo se a resina é indicada para contacto com alimentos. O mesmo vale para a máquina de lavar loiça, o micro-ondas e líquidos quentes: se a embalagem não o disser expressamente, não arrisque.
Em caso de dúvida, há uma solução simples: dar à peça uma função decorativa. Uma taça reparada serve de “porta-chaves”despeja bolsos” na entrada, de vaso para uma planta pequena ou de peça de destaque numa decoração de estilo japandi.
Também há casos em que reparar não compensa. Loiça barata e sem valor sentimental, ou peças muito fragmentadas, raramente justificam o tempo e o material, tal como acontece com outras coisas que é melhor substituir do que reparar. Já para aquela chávena herdada ou a taça comprada numa viagem, a conta é outra. Aí, reparar é a única forma de a manter.
A ideia continua a fazer sentido, dentro e fora da cozinha. Antes de deitar fora a próxima peça partida, guarde os pedaços. Com um kit e alguma paciência, a cicatriz dourada pode tornar-se a parte preferida da peça.
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Arney, K. (s.d.). Urushiol. Education in Chemistry, Royal Society of Chemistry. https://edu.rsc.org/magnificent-molecules/urushiol/3007556.article
Buchanan, M. (2020, novembro 9). Object lesson: Kintsugi reflects beauty in flaws, strength in healing. New Orleans Museum of Art. https://noma.org/kintsugi-reflects-beauty-in-flaws-strength-in-healing/
Centers for Disease Control and Prevention. (2026). Poisonous plants and work. National Institute for Occupational Safety and Health. https://www.cdc.gov/niosh/topics/plants/exposure.html
Fukumaru, N. (2024, julho 29). The art of healing: Reflections from kintsugi artist Naoko Fukumaru. Portland Japanese Garden. https://japanesegarden.org/2024/07/29/reflections-naoko-fukumaru/
James, C. (2020, janeiro 29). If it isn’t broken, don’t fix it: A critical review of ‘New Kintsugi’, a modern take on a traditional repair method. CU Conservation, Cardiff University. https://blogs.cardiff.ac.uk/conservation/if-it-isnt-broken-dont-fix-it-a-critical-review-of-new-kintsugi-a-modern-take-on-a-traditional-repair-method