Share the post "Mesa riscada, taça lascada? O wabi-sabi diz para as manter"
Uma taça com o rebordo lascado, uma mesa de madeira riscada pelos anos, um banco herdado dos avós. Para o wabi-sabi, nada disto é para deitar fora, é precisamente o que dá carácter a uma casa.
O wabi-sabi é uma ideia estética japonesa que valoriza a simplicidade, o natural e o que mostra a passagem do tempo. Na decoração, traduz-se em menos objetos, materiais naturais e peças com história, mesmo que imperfeitas.
E tem uma consequência prática que interessa ao orçamento: em vez de substituir o que está gasto, repara-se, reaproveita-se ou compra-se em segunda mão. É um estilo que se constrói sobretudo com o que já existe em casa.
O que é o wabi-sabi
O wabi-sabi é uma filosofia estética japonesa que encontra beleza no simples, no imperfeito e no que envelhece. Junta duas ideias: wabi, a simplicidade deliberada no dia a dia, e sabi, o apreço pelo que é antigo e gasto pelo uso. Na decoração, privilegia materiais naturais e peças com marcas do tempo.
As definições são da Encyclopaedia Britannica, que liga as duas noções à cerimónia do chá. Foi o mestre do chá Sen Rikyū (1522-1591) quem as fixou como ideais estéticos dessa tradição, com salas de chá pequenas, despojadas e utensílios simples.
No Ocidente, uma das obras de referência sobre o tema é Wabi-Sabi for Artists, Designers, Poets & Philosophers, publicada em 1994 por Leonard Koren, artista e arquiteto de formação. O livro descreve-o como a beleza das coisas imperfeitas, impermanentes e incompletas.
Wabi-sabi, japandi e minimalismo: o que os distingue
Os três estilos partilham a ideia de “menos coisas”, o que os torna fáceis de confundir. A diferença está no que cada um valoriza.
| Estilo | O que valoriza | Aspeto típico |
|---|---|---|
| Minimalismo | Ordem e espaço livre | Superfícies lisas, linhas retas, poucas cores |
| Japandi | Equilíbrio entre simplicidade japonesa e conforto nórdico | Madeira, linho, mobiliário baixo, tons neutros |
| Wabi-sabi | Imperfeição e passagem do tempo | Texturas irregulares, peças antigas, materiais crus |
Na prática, esta estética é uma das bases do estilo japandi e da forma de o aplicar em casa. O japandi junta-lhe o lado acolhedor escandinavo; o minimalismo, pelo contrário, tende a apagar as marcas do uso que o wabi-sabi faz questão de mostrar.
Como aplicar o wabi-sabi em casa
Escolha materiais que envelhecem bem
Madeira maciça, linho, algodão, lã, pedra, barro e cerâmica ganham carácter com o uso. O linho fica mais macio a cada lavagem; a madeira escurece e ganha brilho. Plásticos, laminados e acabamentos brilhantes fazem o contrário: estragam-se sem ganhar nada.
Quando tiver de comprar, prefira estes materiais. Duram mais e dispensam substituições frequentes.
Procure peças antigas e em segunda mão
Feiras de velharias, lojas solidárias, plataformas de artigos usados e a casa da família são o primeiro sítio onde procurar. Uma cómoda antiga, uma jarra de barro ou um banco de madeira têm exatamente o tipo de marcas que o estilo valoriza.
A troca também funciona no sentido inverso: o que deixou de fazer sentido em casa pode ser vendido ou doado. É a lógica da economia circular aplicada às despesas da casa.
Repare em vez de substituir
É aqui que o estilo se torna mais evidente. Um móvel riscado pode ser lixado e tratado com óleo, sem esconder por completo o veio e as marcas. Veja como renovar móveis antigos com técnicas simples.
Para loiça partida, há o kintsugi, a técnica japonesa de reparar peças com laca misturada com pó de ouro (ou de prata), que deixa as fissuras à vista. A cicatriz passa a fazer parte da peça. Existem kits para fazer em casa, mas atenção: a laca tradicional (urushi) contém urushiol, uma substância que pode provocar alergia na pele, e muitos kits atuais usam resinas sintéticas. Confirme no rótulo se a peça reparada pode voltar a ter contacto com alimentos.
Deixe espaço e luz natural
Poucos objetos, cada um com o seu lugar. Cortinas leves, plantas de interior fáceis de manter, ramos secos numa jarra de barro. O vazio faz parte da composição e não custa nada. Antes de comprar o que quer que seja, faça uma volta pela casa e liste o que pode ser reaproveitado, reparado ou trocado de divisão.
Os erros que desvirtuam o estilo
O primeiro é comprar “imperfeição” de fábrica. Peças industriais com aspeto envelhecido, produzidas em série, contrariam a ideia base: a marca do tempo não se compra feita.
O segundo é confundir imperfeição com desleixo. Uma peça gasta é uma coisa; humidade, bolor ou madeira podre são outra. Estes casos são problemas de manutenção e também de saúde: a Organização Mundial da Saúde associa a humidade e o bolor em casa a mais sintomas respiratórios, alergias e asma. Não fazem parte de nenhum estilo.
O terceiro é encher a casa de objetos antigos. Este estilo pede poucas peças, bem escolhidas. Uma prateleira cheia de velharias perde o efeito e volta a ser apenas tralha. Por fim, não é preciso mudar tudo de uma vez. Se este estilo valoriza o incompleto, a casa também pode ir mudando aos poucos.
Antes de comprar, olhe para o que já tem
Aquela cadeira que ia para o lixo, a toalha de linho da avó, a taça com uma racha. Antes de pensar em decoração nova, dê-lhes uma segunda oportunidade. Comece por uma divisão. Retire o que não usa, guarde o que tem história e repare o que estiver estragado. O resultado será uma casa com mais carácter e uma conta de decoração mais curta.
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Encyclopaedia Britannica. (s.d.). Sen Rikyū. https://www.britannica.com/biography/Sen-Rikyu
Encyclopaedia Britannica. (s.d.). Wabi. https://www.britannica.com/topic/wabi
Koren, L. (1994). Wabi-sabi for artists, designers, poets & philosophers. Stone Bridge Press.
World Health Organization. (2009). WHO guidelines for indoor air quality: Dampness and mould. https://www.who.int/publications/i/item/9789289041683