A maternidade e o empreendedorismo são duas das experiências mais intensas que uma mulher pode viver. Quando acontecem em simultâneo, o desafio multiplica-se. Em Portugal, cada vez mais mães optam por criar o próprio negócio precisamente porque procuram maior flexibilidade para acompanhar os filhos. A realidade, porém, é mais complexa do que a promessa de liberdade que o empreendedorismo oferece.
Dados de estudos recentes apontam Portugal como um dos países europeus com maior percentagem de mulheres em cargos de gestão empresarial, acima de 37%, superando economias como a Irlanda, França ou Alemanha. Estes números demonstram que as mulheres portuguesas têm conquistado espaço no mundo dos negócios. Mas quando se adiciona a maternidade à equação, surgem desafios específicos que exigem estratégias próprias.
A realidade da flexibilidade
Muitas mulheres iniciam um negócio acreditando que terão mais tempo para a família. A verdade é que empreender exige dedicação intensa, sobretudo nos primeiros anos. Estudos com empreendedoras portuguesas revelam que muitas consideravam mais simples conciliar vida familiar e profissional quando trabalhavam por conta de outrem.
Esta contradição acontece porque a fronteira entre vida pessoal e profissional desaparece, nem horários fixos, nem colegas a substituir durante ausências. Uma mãe empreendedora pode buscar o filho à escola às três da tarde, mas isso significa trabalhar depois do jantar. A autonomia não elimina a carga, reorganiza-a.
Por que mães empreendem
A maternidade é um dos principais motivos que leva mulheres a criar negócio próprio. Muitas querem estar mais presentes na vida dos filhos. Outras fazem-no por necessidade económica, especialmente quando enfrentam discriminação no mercado de trabalho após a licença parental.
Estudos da McKinsey mostram que empresas com maior diversidade de género na liderança têm 25% mais probabilidade de atingir desempenho financeiro acima da média do sector. Quando há mais de 30% de mulheres executivas, essa probabilidade aumenta significativamente. Ainda assim, o acesso ao financiamento continua difícil. As mulheres empresárias portuguesas enfrentam mais barreiras no acesso a produtos financeiros do que as suas congéneres em economias como o Reino Unido, Alemanha ou França.
Apoio da família e licença parental
Conciliar negócio e família sem apoio é quase impossível. As mães empreendedoras que mantêm equilíbrio são aquelas que partilham responsabilidades parentais. Em Portugal, a licença parental permite diferentes modalidades. Pode durar 120 dias pagos a 100%, 150 dias a 80%, ou 180 dias a 83%. Se os pais partilharem a licença por pelo menos 30 dias consecutivos, a licença de 150 dias passa a ser paga a 100%.
Esta partilha não é apenas uma questão de dias. Quando o pai assume desde cedo consultas médicas, idas à creche e imprevistos do quotidiano, a mãe empreendedora não fica sozinha a gerir duas vidas em paralelo. Redes informais de avós, irmãos ou amigos também são uma ajuda importante
Creches e apoio do Estado
O programa Creche Feliz garante gratuitidade nas creches em Portugal, cobrindo o serviço base. Este apoio facilita o regresso ao trabalho após a licença parental. A oferta de vagas nem sempre corresponde à procura, especialmente nas grandes cidades. A localização da creche também pesa. Para quem trabalha a partir de casa, a logística é mais simples.
Estão em discussão medidas adicionais de apoio à parentalidade, incluindo alargamento da licença e jornadas contínuas que permitam aos pais sair mais cedo do trabalho. Estas mudanças podem beneficiar empreendedores, mas ainda dependem de aprovação parlamentar.
Financiamento e apoios específicos
O acesso ao financiamento continua a ser um dos maiores obstáculos para mulheres empreendedoras. Estudos europeus demonstram que as startups fundadas por mulheres recebem uma percentagem desproporcionalmente baixa do financiamento disponível, apesar de representarem uma fatia significativa do tecido empresarial.
Existem programas de apoio em Portugal. O programa EWA (Empowering Women in Agrifood), uma iniciativa europeia do EIT Food coordenada em Portugal pela BGI, apoia mulheres empreendedoras no setor agroalimentar com mentoria, formação especializada e prémios que podem atingir os 10.000 euros. As candidaturas para a edição de 2026 decorrem entre abril e maio.
O IEFP disponibiliza o Programa de Apoio ao Empreendedorismo e à Criação do Próprio Emprego, com linhas de crédito bonificadas como o MicroInvest e o Invest+. O IAPMEI gere sistemas de incentivos financiados por fundos europeus nas áreas de inovação, sustentabilidade e digitalização. A plataforma WEgate, criada pela União Europeia, oferece recursos, formação e acesso a redes de Business Angels para mulheres que querem criar ou expandir empresas.
Gestão realista do tempo
Gerir o tempo quando se é mãe e empreendedora exige priorização constante, pois não é possível fazer tudo. Dividir o dia em blocos dedicados ajuda: blocos para o negócio, blocos para os filhos e blocos para tarefas domésticas. Dentro de cada bloco, o foco deve ser total. Trabalhar enquanto se brinca com os filhos não resulta.
Também é essencial delegar, por exemplo contratar um assistente virtual, externalizar a contabilidade ou pedir ajuda com a limpeza liberta horas preciosas. Também importa rever expectativas. Um negócio gerido por uma mãe de crianças pequenas não vai crescer ao mesmo ritmo que outros. O crescimento pode ser mais lento, mas também mais sustentável.
Redes e comunidades
Empreender pode ser solitário, especialmente para quem trabalha sozinha. Participar em redes de mulheres empreendedoras ajuda a quebrar o isolamento. Em Portugal existem várias associações focadas em apoiar mulheres empresárias.
A Associação de Mulheres Empreendedoras Europa África conecta empreendedoras entre Europa e África. A Mulheres à Obra organiza encontros e oferece plataforma de apoio. A Associação das Mulheres Empresárias em Portugal promove conferências e protocolos com bancos e gabinetes jurídicos. Estas redes oferecem perspetiva, inspiração e contactos que podem abrir portas.
Escolher o modelo certo
Nem todos os negócios são igualmente compatíveis com a maternidade. Atividades que exigem presença física constante ou deslocações frequentes são mais difíceis de conciliar. Negócios digitais, serviços online e atividades com vendas assíncronas oferecem maior flexibilidade. Uma designer gráfica pode trabalhar enquanto o filho dorme ou ma lojista online pode processar encomendas à noite.
Isto não significa que só negócios digitais funcionem. Significa escolher um modelo realista, que tenha em conta as limitações de tempo e energia. Começar em pequena escala e crescer gradualmente é mais seguro.
Não existe fórmula mágica para conciliar maternidade e empreendedorismo. Cada mulher terá de encontrar o seu próprio equilíbrio, ajustado às circunstâncias e necessidades da família. O que funciona numa fase pode deixar de funcionar quando os filhos crescem ou quando o negócio muda.
O importante é reconhecer que não é preciso fazer tudo sozinha. Os apoios existem, os programas estão disponíveis, as redes estão abertas. É preciso abandonar a ideia de perfeição. Ser mãe empreendedora significa fazer escolhas, priorizar e pedir ajuda quando necessário.