Elsa Santos
Elsa Santos
31 Mar, 2021 - 10:21

Medo de ir trabalhar: um problema real com solução

Elsa Santos

O medo de ir trabalhar é um problema sério e que exige tratamento. Saiba identificar os sintomas, conheça as soluções e entenda o que mudou com a pandemia.

mulher ao computador a sentir medo de ir trabalhar

O medo de ir trabalhar é um problema clinicamente diagnosticado que exige tratamento.

Se para uns o problema até pode ter sido minimizado pelo confinamento e trabalho à distância, para outros pode ter piorado, ou mesmo surgido, com a pandemia.

Dos casos mais leves, que se confundem com a simples desmotivação, aos mais graves que limitam seriamente o desempenho de funções, são muitas as pessoas que diariamente se confrontam com o medo de ir trabalhar.

Saiba mais sobre este tema.

Tudo sobre o medo de ir trabalhar

Ter medo de ir trabalhar não é sinónimo de não gostar da profissão, mas de uma incapacidade de lidar com vários fatores que lhe estão associados. Apesar de, para alguns, poder parecer estranho, a verdade é que a fobia ao trabalho é um problema real, reconhecido pela ciência.

De acordo com um artigo de 2009, da Psychology, Health and Medicine, esta condição, designada de ergofobia, é definida como uma

reação de ansiedade, com sintomas de pânico que ocorrem ao pensar na aproximação ao local de trabalho.

Trata-se, pois, de um distúrbio psicológico caracterizado por um temor irracional e excessivo relacionado ao trabalho.

Como muitas doenças mentais, a ergofobia é pouco compreendida por quem não a experimenta. Isso faz com que os portadores dessa fobia sejam tratados com desprezo ou preconceito, o que piora a situação.

Nos casos mais graves, o medo de ir trabalhar impede a progressão na carreira e pode mesmo levar ao desemprego e a quadros de doença mais graves.

Sintomas

Quem tem medo de ir trabalhar, sofre de uma fobia séria. Tal condição pode apresentar vários sintomas. Um artigo do Journal of Anxiety Disorders, em 2007, apresenta 6 tipos diferentes de ansiedade relacionados com o trabalho:

  • Fobia situacional ao local de trabalho: está relacionada, como o nome indica, com uma situação concreta. Por exemplo, se o trabalhador é obrigado a fazer algo que o deixe extremamente desconfortável, como uma apresentação para muitas pessoas, por exemplo;
  • Pânico relacionado com o trabalho: só de pensar em ir trabalhar, a pessoa sente que pode não aguentar e sofrer um enfarte;
  • Fobia social indiscriminada relacionada com o trabalho: muitos aspetos diferentes do respetivo trabalho provocam grandes níveis de ansiedade ao profissional, como se estivesse a sofrer um enfarte;
  • Fobia social discriminada relacionada com o trabalho: alguns aspetos específicos das funções desempenhadas fazem o profissional sentir medo e até pânico;
  • Ansiedade generalizada relacionada com o trabalho: o colaborador sente que é como se estivesse a ter um enfarte no trabalho, mas não sabe porquê;
  • Stress pós traumático relacionado com o trabalho: o profissional sente-se angustiado após sofrer, de facto, um enfarte no trabalho. Essa angústia, ou ansiedade, manifesta-se, normalmente, numa sensação de estar a sofrer novo episódio.

A ansiedade relacionada com o trabalho é um problema tão sério que pode ser incapacitante. Os fatores que lhe estão associados levam a uma série de dificuldades que podem conduzir ao abandono do posto de trabalho.

Isso acontece, sobretudo, pela dificuldade em controlar o problema, ou por não reconhecimento do mesmo. O trabalhador não consegue focar-se ou terminar qualquer tarefa. O facto de ser uma situação pouco conhecida da generalidade e encarada com desprezo, a falta de compreensão ou apoio da entidade patronal acaba por ditar o fim da maioria dos casos, sobretudo os mais graves.

Diagnosticar a ergofobia

De uma forma resumida, o diagnóstico da ergofobia caracteriza-se, entre outros pontos, pela presença de:

  • Medo irracional ou ansiedade excessiva relacionada ao trabalho como um todo ou a alguma situação específica do trabalho;
  • Relação desproporcional entre o medo ou a ansiedade e a situação real;
  • Persistência do medo ou ansiedade por períodos longos, superiores a um semestre;
  • Efeitos prejudiciais à saúde mental e ao desenvolvimento pessoal e profissional do paciente.

Falamos de distúrbio mental quando falamos de ergofobia que, na verdade, é muito mais do que medo de ir trabalhar. É, portanto, a incapacidade de exercer as funções inerentes a uma profissão que até se pode gostar.

Ainda que o problema possa ser complexo, desistir de trabalhar não é solução para quem sofre desta fobia. Há que identificar o problema e procurar o melhor tratamento.

COVID-19 e o medo de ir trabalhar

O contexto no qual vivemos pode ser o elemento-chave desencadear de medo. É, claramente, o que acontece com a pandemia de COVID-19, que há mais de um ano mata milhares de pessoas em todo o mundo e que tem estado na base de confinamentos e medidas como o distanciamento social.

Neste caso, o medo (quase generalizado) de ir trabalhar prende-se, essencialmente, com a possibilidade concreta de poder ser infetado e infetar os mais próximos. Ainda que para parte das pessoas isso assuma contornos especialmente relevantes.

De acordo com um estudo realizado pela Randstad, nos últimos meses de 2020 quase metade (49%) dos portugueses tinha medo de ir trabalhar pela possibilidade de contrair COVID-19.

Dos 182 inquiridos, 17% admitiu não ter conhecimento do plano de contingência da entidade empregadora. Para além disso, a confiança plena na empresa e nas medidas adotadas era apenas sentida por 39% dos trabalhadores. 13% negaram, logo à partida, qualquer possibilidade de se sentirem tranquilizados com o trabalho presencial.

Quanto aos inquiridos que se encontravam desempregados ou à procura do primeiro emprego, o medo perdia importância. Assim, apenas 30% assume não se sentir confortável em se deslocar ao local de trabalho, sendo que 19% recusaria uma oferta de trabalho caso não pudesse trabalhar a partir de casa.

Segundo a Randstad, o medo não pode ser ignorado, pois pode ser bloqueador de produtividade, de talento e de felicidade dos trabalhadores. Assim, as empresas devem reconhecer o medo e trabalhar a confiança, garantindo a proximidade com os seus colaboradores.

O estudo concluía que o medo de ir trabalhar poderia aumentar à medida que Portugal continuasse a bater recordes de infetados por COVID-19, uma realidade registada ainda em janeiro de 2021.

Atenuantes

Considerando o contexto de pandemia, o medo de ir trabalhar prende-se, essencialmente, com os fatores relacionados.

Assim, um maior conhecimento e uma normalização de hábitos diários de acordo com as medidas impostas pela DGS tem ajudado a reduzir ou controlar o medo de ir trabalhar, ainda que grande parte da população permaneça em regime de teletrabalho.

O teletrabalho

Para muitos do que todos os dias se confrontavam com o medo de ir trabalhar, o confinamento e o teletrabalho pode ter tido um efeito inverso, minimizando o problema. Afinal, o facto de não terem de se deslocar para a empresa, um local “estranho” longe do conforto de casa, é um fator importante.

Porém, dependendo da profissão, da exigência e de outros problemas que possam ter surgido ou piorado com o confinamento, o teletrabalho pode, nalguns casos, ter tido um efeito negativo.

Durante o primeiro confinamento, em 2020, a pensar no impacto psicológico da pandemia, o SNS 24 criou uma linha de aconselhamento psicológico. O objetivo é dar apoio aos portugueses numa altura de adaptação às mudanças, nomeadamente em contexto laboral.

linhas de apoio psicológico
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Como tratar esta fobia

Quando falamos de medo de ir trabalhar, ou de ergofobia, falamos de um distúrbio mental. Oi seja, de uma fobia específica que não possui uma relação direta de causa e efeito.

Assim, não é possível, genericamente, apontar uma origem e muito menos um único tratamento.

Um bom psicólogo saberá identificar o acontecimento, trauma ou outro evento que possa ter originado a aversão a uma situação de trabalho. E, uma vez identificado, saberá orientar a melhor forma de vencer o problema.

O método mais habitual para controlar o medo de ir trabalhar é uma combinação de terapia (comportamental cognitiva ou equivalente) e medicação (cuidadosamente prescrita e, preferencialmente, leve) contra a ansiedade.

Várias empresas já implementaram novas práticas, como a meditação ou o ioga, proporcionando um ambiente menos tenso, atribuindo funções adaptadas a quem sofre de stress e ansidedade, tirando o melhor partido dos conhecimentos e competências de cada um.

Com os meios e ajuda adequados é possível vencer o medo de ir trabalhar e mudar a vida.

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