Miguel Pinto
Miguel Pinto
24 Jul, 2026 - 10:00

Nuvem: 7 mil quilómetros de cabos submarinos ligam Portugal aos EUA

Miguel Pinto

O Nuvem já chegou a Portugal e trouxe consigo sete mil quilómetros de cabos submarinos. Venha conhecer o projeto da Google.

rota dos cabos submarinos

Sines acaba de se tornar o ponto de chegada de uma das infraestruturas digitais mais ambiciosas do Atlântico. Trata-se do Nuvem, o novo sistema de cabos submarinos da Google que liga, pela primeira vez de forma direta, Portugal aos Estados Unidos, percorrendo quase sete mil quilómetros de fundo oceânico.

O nome resulta, precisamente, da palavra portuguesa “nuvem”, numa referência direta aos serviços de computação em nuvem que esta infraestrutura vai sustentar.

A rota liga Myrtle Beach, na Carolina do Sul (Estados Unidos), a Sines, em Portugal continental, com pontos intermédios nas Bermudas e na Zona Económica Exclusiva dos Açores, junto a São Miguel.

No total, o sistema estende-se por cerca de 7000 quilómetros e é composto por 16 pares de fibra ótica, com uma capacidade de desenho total de aproximadamente 384 terabits por segundo.

É o primeiro sistema de cabos submarinos a ligar diretamente os Estados Unidos a Portugal continental e aos Açores, e também o primeiro sistema transatlântico com ponto de amarração nas Bermudas.

A entrada em funcionamento do Nuvem está prevista para 2027, apesar de a amarração física em Sines já estar concluída.

A importância dos cabos submarinos

instalação de cabos submarinos

Pode parecer surpreendente, mas a internet mundial não depende principalmente de satélites.

Depende de cabos de fibra ótica instalados no fundo dos oceanos que transportam mais de 95% de todo o tráfego internacional de dados, incluindo chamadas, mensagens, vídeos, pagamentos e serviços de nuvem.

Estes cabos assentam no leito oceânico profundo, protegidos por camadas de aço, cobre e polímeros que os resguardam da pressão da água, das correntes marítimas e até de eventuais ataques de tubarões.

As avarias mais comuns não resultam de fenómenos naturais, mas sim de atividade humana, como a pesca ou o lançamento de âncoras. Os riscos naturais, como terramotos ou deslizamentos submarinos, surgem apenas em segundo plano.

Sem esta rede de cabos, seria praticamente inviável garantir comunicações globais, transações financeiras internacionais ou o funcionamento dos serviços em nuvem à escala atual, já que os satélites não têm capacidade de banda suficiente para suportar esse volume de dados.

Quais são os objetivos do Nuvem?

  • Reforçar a resiliência da rede no Atlântico, criando um percurso alternativo às rotas já existentes;
  • Diversificar as rotas internacionais de conectividade, reduzindo a dependência de um número limitado de corredores digitais;
  • Responder à procura crescente por serviços digitais, computação em nuvem e inteligência artificial.
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Quem está envolvido no projeto?

O Nuvem resulta de uma parceria entre a Google e a operadora portuguesa MEO, que assume o papel de investidor e parceiro nacional nesta infraestrutura.

Em comunicado citado pela agência Lusa, a MEO confirmou que vai integrar o sistema, tornando-se parte de “uma das mais relevantes infraestruturas digitais do Atlântico”, sem, no entanto, divulgar o valor do investimento realizado.

A MEO recorda ainda que esta é a primeira vez, desde o fim de vida do sistema Columbus III, que a operadora volta a investir numa infraestrutura submarina transatlântica com ligação direta aos Estados Unidos.

O Nuvem não está sozinho: Equiano, Firmina e Sol

O Nuvem soma-se a outros projetos de cabos submarinos da Google que já passam, ou vão passar, por Portugal:

  • Equiano (2022) – liga a Europa Ocidental à África do Sul, reforçando a conectividade entre a Europa e o continente africano, com passagem por Portugal;
  • Firmina – liga a costa leste dos Estados Unidos, também através da Carolina do Sul, à América do Sul (Argentina, Brasil e Uruguai), sem envolver Portugal;
  • Sol – anunciado para entrar em funcionamento já em 2027, este novo sistema vai ligar os Estados Unidos, as Bermudas, os Açores e Espanha, completando aquilo que a Google descreve como o seu “investimento único” em resiliência transatlântica.

Portugal conta ainda com outra ligação relevante ao continente americano com o cabo EllaLink, que liga Sines diretamente ao Brasil.

Por que motivo Portugal foi escolhido?

A resposta começa pela geografia. Portugal situa-se no extremo ocidental da Europa continental, no ponto mais próximo das Américas.

A própria Google já tinha sublinhado, em 2023, que esta localização estratégica no sudoeste da Europa transformou o país num verdadeiro “porto para cabos submarinos”.

Mas a geografia não explica tudo, há outros fatores que atraem estes investimentos:

  • Estabilidade política e institucional, num contexto internacional onde esta escasseia;
  • Talento qualificado, com engenheiros, investigadores e uma geração jovem com formação em tecnologia e línguas estrangeiras;
  • Energia limpa e competitiva, essencial para alimentar centros de dados. De acordo com o “Retrato Ambiental de Portugal”, elaborado pela Pordata, o país está entre os quatro Estados-membros da União Europeia onde mais de 95% da eletricidade produzida tem origem em fontes renováveis, com 97,8% em 2024.

A Google acrescenta ainda como fator decisivo o investimento contínuo do país no reforço da infraestrutura da sua economia digital, o que torna Sines e a região envolvente cada vez mais atrativas para novos centros de dados, plataformas de cloud e serviços tecnológicos globais.

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