A Comissão Europeia apresentou, a 3 de novembro de 2026, as orientações para a preparação da população perante emergências. O ponto que mais tem chamado a atenção é a autossuficiência nas primeiras 72 horas de uma crise, ou seja, a capacidade de cada pessoa garantir o essencial durante três dias enquanto os serviços de socorro se organizam.
O documento chega num contexto que os portugueses conhecem bem. O apagão de 28 de abril de 2025 deixou milhões de pessoas sem eletricidade durante várias horas e, segundo o Banco de Portugal, expôs a vulnerabilidade de um sistema de pagamentos cada vez mais dependente de infraestruturas eletrónicas. Muitas famílias ficaram a perguntar o que fazer num apagão de energia. Agora, Bruxelas dá aos Estados-Membros um guia sobre como preparar os cidadãos para cenários deste tipo.
Para as famílias, contudo, nada passa a ser obrigatório. O que muda é a forma como as autoridades vão informar, ensinar e apoiar a população. E as orientações da UE para as 72 horas deixam pistas úteis sobre o que convém ter em casa, sem gastar tudo de uma vez.
Perceba o que a Comissão Europeia publicou
As orientações constam de uma comunicação da Comissão com a referência C(2026) 8250 final, datada de 30 de outubro de 2026. Trata-se de um documento não vinculativo, que incentiva os Estados-Membros e os restantes participantes do Mecanismo de Proteção Civil da União a criarem iniciativas de preparação de acordo com a sua organização nacional.
Não existe qualquer obrigação legal de comprar ou montar um kit de emergência. As orientações dirigem-se sobretudo às autoridades, que decidem como as aplicar no terreno. O documento concretiza ações previstas na Estratégia para uma União da Preparação, apresentada em março de 2025, e divide-se em quatro áreas:
- autossuficiência durante as primeiras 72 horas;
- educação para a preparação, desde a primeira infância;
- preparação inclusiva para pessoas com deficiência;
- comunicação de riscos e ameaças à população.
As orientações são acompanhadas por quatro documentos de apoio, com exemplos de boas práticas de vários Estados-Membros e de outros países. Na apresentação, a comissária europeia Hadja Lahbib resumiu a ideia central: quando uma catástrofe acontece, as primeiras horas podem fazer toda a diferença.
Saiba o que deve conseguir garantir durante 72 horas
Quem procura no documento uma lista de compras não a encontra. A Comissão identifica antes as necessidades essenciais a cobrir: alimentação, água, medicamentos, comunicação e dinheiro. A estas junta conhecimentos práticos, como preparar refeições sem eletricidade ou tomar decisões em situação de stress.
As orientações também não fixam quantidades. As 72 horas surgem como um patamar mínimo de partida, e não como um teto, e o documento descreve as primeiras 72 horas de uma crise como críticas. O texto defende ainda passos graduais e acessíveis, adaptados à situação de cada agregado, em vez de grandes compras feitas de uma só vez.
Em Portugal, a referência mais concreta continua a ser a da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC). No folheto do exercício A Terra Treme, a ANEPC aconselha pelo menos 6 litros de água potável por pessoa e alimentos não perecíveis para três dias, além de lanterna, rádio portátil e medicação essencial, entre outros artigos. Consulte a lista completa, item a item, no guia do kit de sobrevivência de 72 horas para ter em casa.
O dinheiro físico merece atenção especial, porque o pagamento com cartão pode deixar de funcionar quando falham os sistemas eletrónicos. O Ekonomista já explicou quanto dinheiro em casa recomenda o Banco de Portugal e como o guardar com segurança.
Conte com mais preparação nas escolas e na informação oficial
Duas das quatro áreas vão chegar ao dia a dia das famílias, ainda que de forma indireta. A primeira é a escola. A Comissão sugere integrar a preparação nos currículos da educação de infância e do 1.º ciclo, com formação para educadores e professores e atividades adequadas à idade, sem gerar medo nem ansiedade.
A ideia não passa por criar uma nova disciplina, mas por incluir o tema nas rotinas e nas matérias já existentes, ligado aos riscos de cada região. Entre as competências a ensinar estão reconhecer os avisos oficiais e saber quando e como ligar para o 112. As escolas podem ainda funcionar como pontos de apoio à comunidade em caso de crise.
A segunda área é a comunicação de riscos. As autoridades são incentivadas a informar a população de forma atempada, acessível e fiável, antes, durante e depois de uma emergência. As mensagens, os formatos e os canais devem ser adaptados a públicos diferentes, incluindo pessoas com deficiência física, sensorial, intelectual ou psicossocial.
Inclua quem precisa de mais apoio no plano da família
A terceira área pede que a preparação não deixe ninguém para trás. As orientações recomendam adaptar os conselhos às necessidades das pessoas com deficiência e envolvê-las no planeamento. Sugerem também planos de emergência pessoais para 72 horas, com espaço para dispositivos de apoio, medicação e contactos de quem presta assistência.
O documento refere ainda as famílias com rendimentos baixos e outras pessoas que enfrentam mais barreiras à preparação. Na prática, isto reforça um conselho simples: o plano de emergência deve ser pensado para quem vive na casa, seja um idoso, uma criança pequena ou um animal de companhia. Se tiver de sair de casa à pressa, a mochila de emergência para evacuação rápida é o complemento natural deste plano.
As orientações da UE para as 72 horas não trazem multas, prazos nem listas obrigatórias. Trazem uma mudança de mentalidade: a preparação começa em casa, na escola e na comunidade, muito antes de a crise chegar. O primeiro passo pode ser tão simples como verificar o que já existe na despensa, guardar algumas notas num local seguro e combinar com a família um ponto de encontro. O resto faz-se aos poucos, ao ritmo do orçamento de cada casa.
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Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil. (2025). A Terra Treme: O que fazer em caso de sismo? [Folheto]. https://www.aterratreme.pt/wp-content/uploads/2025/10/A_Terra_Treme_folheto2025.pdf
Banco de Portugal. (2025). Boletim Notas e Moedas 2025. https://www.bportugal.pt/sites/default/files/documents/2025-10/boletim_notas_e_moedas_2025.pdf
Comissão Europeia. (2026a). Guidelines on population preparedness under the EU Preparedness Union Strategy (C(2026) 8250 final). https://civil-protection-humanitarian-aid.ec.europa.eu/document/download/2782dadb-cb62-40d9-9999-4b891c35e5e6_en?filename=guidelines_population_preparedness_en.pdf
Comissão Europeia. (2026b, 3 de novembro). Commission takes new steps to prepare Europeans for growing crisis risks [Comunicado de imprensa]. https://civil-protection-humanitarian-aid.ec.europa.eu/news-stories/news/commission-takes-new-steps-prepare-europeans-growing-crisis-risks-2026-11-03_en
Comissão Europeia. (s.d.). Preparar-se para dar resposta às crises. https://commission.europa.eu/topics/preparedness_en