Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
05 Nov, 2026 - 19:00

Ganha abaixo do mercado? O que os guias salariais revelam

Cláudia Pereira

Guias salariais, comparadores e dados do INE mostram se ganha abaixo do mercado. Veja como comparar o seu salário sem erros e o que fazer com o resultado.

Para saber se ganha abaixo do mercado, não precisa de perguntar o salário a um colega. Basta cruzar os guias salariais das consultoras de recrutamento, os comparadores online e as estatísticas oficiais.

O problema é que cada fonte mede uma coisa diferente. Segundo o INE, a remuneração bruta total média por trabalhador chegou aos 1.835 euros no 2.º trimestre de 2026, mas esse valor inclui subsídios e prémios e é puxado para cima pelos salários mais altos. Já a mediana do ganho mensal nos Quadros de Pessoal, o valor que divide os trabalhadores a tempo completo em duas metades, ficava nos 1.186,55 euros em 2024.

Comparar com a referência errada engana. E a diferença pesa: quem recebe menos 150 euros brutos por mês do que o mercado paga pela mesma função perde 2.100 euros por ano (150 euros × 14 pagamentos).

Que guias salariais e comparadores pode usar

FonteO que mostraLimitação
Guias salariais das consultoras de recrutamentoIntervalos por função e experiênciaTendem a privilegiar perfis qualificados e grandes cidades
Comparadores onlineEstimativa personalizada para o seu perfilDependem da base de dados de quem os criou
Plataformas colaborativasSalários partilhados anonimamenteDados autodeclarados, amostras pequenas
INE, Pordata e Quadros de PessoalMédias e medianas por setor, profissão e regiãoPouco detalhe por função e dados com atraso
Tabela salarial do contrato coletivoO mínimo obrigatório para a sua categoriaÉ o piso, não o mercado

Guias das consultoras de recrutamento

As principais consultoras a operar em Portugal publicam estudos salariais anuais, em regra gratuitos e muitas vezes mediante registo. O Guia Hays cobre profissionais qualificados em vários setores. A Michael Page centra o seu estudo nos quadros médios e superiores de grandes empresas. A Robert Walters tem a sua Pesquisa Salarial para Portugal, e o Salary Guide da Adecco analisa 14 setores.

Já o Estudo de Tendências Salariais da Randstad Research cruza a base de recrutamento da consultora com dados oficiais do INE e do Eurostat. Os valores destes guias são quase sempre anuais e brutos e é aí que começam os erros de leitura, como se verá mais abaixo.

Comparadores online

O comparador mais recente é o Comparador Salarial Hays, lançado em setembro de 2026 e gratuito. Pede a profissão, a experiência, a localização, o setor, as competências e o tipo de organização, e devolve uma referência baseada nos valores do Guia Hays. O Paylab funciona de outra forma: o utilizador preenche um questionário anónimo e recebe uma comparação com quem declarou a mesma função.

Plataformas colaborativas

No Glassdoor e, para a área das tecnologias de informação, no Teamlyzer, são os próprios trabalhadores que partilham o salário, muitas vezes por empresa. A regra é olhar para o número de registos antes do valor: há funções com um ou dois salários publicados, e uma média assim não diz nada sobre o mercado.

Dados oficiais e contrato coletivo

O INE, a Pordata e os Quadros de Pessoal do Ministério do Trabalho dão médias e medianas por setor, profissão, região e escolaridade. As tabelas salariais dos contratos coletivos são publicadas no Boletim do Trabalho e Emprego (BTE), no site da DGERT. O empregador tem de informar qual o instrumento de regulamentação coletiva de trabalho aplicável, quando exista; se não o encontrar, pergunte aos recursos humanos.

Como comparar o salário sem cair nos erros mais comuns

Antes de concluir que ganha mal, evite quatro armadilhas. Primeiro, bruto com bruto: guias e estatísticas usam quase sempre valores antes de IRS e Segurança Social, por isso o líquido que cai na conta não serve.

Segundo, atenção aos meses. Muitos guias apresentam o salário anual bruto e, em Portugal, esse valor divide-se por 14, por causa dos subsídios de férias e de Natal. Um guia que indique 28.000 euros por ano corresponde a 2.000 euros por mês. Se dividir por 12, obtém 2.333 euros e quem ganha 2.000 euros conclui, erradamente, que está 333 euros abaixo do mercado.

Terceiro, salário base ou remuneração total. Prémios, comissões e subsídios mudam o valor final. No 2.º trimestre de 2026, a remuneração base média ficou nos 1.342 euros, quase 500 euros abaixo da total.

Por fim, mediana em vez de média. Em 2024, o ganho médio mensal nos Quadros de Pessoal era de 1.576,03 euros, cerca de 390 euros acima da mediana. Para perceber onde está face à maioria, a mediana é a referência mais honesta.

Acertada a base, filtre pela função real, experiência, região e dimensão da empresa, que pesa muito. Em 2024, segundo o INE, a remuneração total média ia de 1.078 euros nas empresas com um a quatro trabalhadores a 1.925 euros nas de 500 ou mais. Para ver como o setor também muda o retrato, consulte os setores onde se ganha mais e menos em Portugal.

Reúna numa folha o seu salário bruto, a mediana do setor e o intervalo do guia para a sua função, e calcule a diferença em euros por ano.

Como saber se ganha abaixo do mercado?

Ganha abaixo do mercado quando pelo menos três fontes independentes colocam o seu salário bruto, convertido para 14 meses, abaixo da referência para a mesma função, experiência e região: a mediana oficial do setor, o intervalo de um guia salarial e o que os anúncios de emprego oferecem para funções equivalentes.

Há outros indícios. Colegas recém-contratados para a mesma função entram a ganhar mais. A equipa perde pessoas para a concorrência. Ou as responsabilidades cresceram e o salário ficou igual, talvez seja o momento certo para preparar um pedido de aumento de ordenado.

E há situações que já não são de mercado, são de lei. Nenhum trabalhador a tempo completo pode receber menos do que o salário mínimo nacional em vigor, nem menos do que a tabela do contrato coletivo para a sua categoria. Nesses casos, a queixa pode ser apresentada à Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT).

Se a diferença for face a colegas do outro sexo com trabalho igual ou de igual valor, a Lei n.º 60/2018 permite pedir à CITE, por escrito, um parecer sobre discriminação remuneratória, identificando esses colegas. O empregador tem então de justificar a diferença com critérios objetivos.

O que muda com a transparência salarial

Com a transposição da Diretiva (UE) 2023/970, os candidatos passam a ter direito a saber a remuneração inicial ou o intervalo salarial antes de assinar contrato, e as empresas deixam de poder perguntar quanto ganhavam no emprego anterior, uma pergunta que hoje exige cuidado, como se explica nos erros a evitar na negociação salarial.

Para quem já está na empresa, a diretiva prevê o direito de pedir informação sobre os níveis médios de remuneração, por sexo, de quem faz trabalho igual ou de igual valor. A proposta portuguesa vai no mesmo sentido e declara nulas as cláusulas que proíbam o trabalhador de divulgar o próprio salário. Os guias salariais deixam de ser a única pista: passa a haver dados da própria empresa.

Faça as contas antes da próxima avaliação

Ficar 150 euros abaixo do mercado parece pouco. São 2.100 euros brutos por ano e 10.500 euros em cinco anos, sem contar com os aumentos futuros, calculados sobre uma base mais baixa.

Reserve uma hora, escolha três fontes e anote a diferença. Com esses números, o pedido de aumento deixa de ser uma impressão e passa a ser um argumento. Quando chegar a altura, veja como negociar salário em Portugal e leve os dados consigo.

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Fontes

Decreto-Lei n.º 139/2025, de 29 de dezembro. Diário da República.

Diário de Notícias. (2025). Salário médio por trabalhador sobe 3,8% em termos reais para 1.602 euros em 2024. https://www.dn.pt/economia/salário-médio-por-trabalhador-sobe-38-em-termos-reais-para-1602-euros-em-2024

Diretiva (UE) 2023/970 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 10 de maio de 2023. https://eur-lex.europa.eu/eli/dir/2023/970/oj

Fieldfisher. (2026). Transparência remuneratória: Governo publica proposta de transposição da diretiva europeia sobre igualdade salarial. https://www.fieldfisher.com/pt-pt/locations/portugal/insights/transparencia-remuneratoria-governo-publica-proposta-de-transposicao-da-diretiva-europeia-sobre-igu

Grande Consumo. (2026). Adecco Portugal Salary Guide 2026. https://grandeconsumo.com/en/?p=243635

Human Resources Portugal. (2026a). Perfis mais procurados e salários: eis as tendências que vão marcar o mercado de trabalho em 2026 (em 16 sectores). https://hrportugal.sapo.pt/perfis-mais-procurados-e-salarios-eis-as-tendencias-que-vao-marcar-o-mercado-de-trabalho-em-2026-em-16-sectores/

Human Resources Portugal. (2026b). Salário médio (bruto) em Portugal aumenta no 2.º trimestre. Ultrapassa os 1800 euros mensais. https://hrportugal.sapo.pt/salario-medio-bruto-em-portugal-aumenta-no-2-o-trimestre-ultrapassa-os-1800-euros-mensais/

Lei n.º 60/2018, de 21 de agosto. Diário da República. https://dre.pt/application/conteudo/116130014

Robert Walters Portugal. (2026). Pesquisa Salarial Portugal 2026. https://www.robertwalters.pt/os-nossos-servicos/pesquisa-salarial.html

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