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David Afonso
David Afonso
13 Ago, 2020 - 14:23

Em Portugal, 1 a cada 6 carros tem mais de 20 anos

David Afonso

Estudo da ACAP revela o estado do parque automóvel em Portugal. Preços dos impostos são a principal razão para carros tão velhos continuarem a circular.

Carros estacionados em zona residencial

Recentemente, um estudo da ACAP – Associação Automóvel de Portugal sobre o parque automóvel em Portugal, revelou que a cada 6 automóveis em circulação, 1 tem mais de 20 anos.

A idade média dos carros a circular em Portugal também subiu dos 12,6 para os 12,7 anos, fazendo do nosso parque automóvel o mais envelhecido da Europa Ocidental, e um dos mais velhos de todo o continente, ficando apenas à frente dos países de leste.

Tendo em conta que o parque automóvel em Portugal tem aproximadamente 6,5 milhões de veículos registados, isto significa que 15,4%, ou seja, mais de um milhão, são automóveis com mais de 20 anos (e entre eles, muito poucos são clássicos).

Números impressionantes se tivermos em conta a soma global de todos os veículos em território português.

Com efeito, é então essencial perceber o motivo para em Portugal continuarem a existir carros tão antigos a circular, sobretudo numa altura em que todos os demais países tentam renovar os seus parques automóveis para diminuir os gases poluentes.

parque automóvel em Portugal é dos mais velhos da europa. Entenda porquê

rotunda marques de pombal

São vários os fatores que estão a contribuir para que esta condição se mantenha e cresça de ano para ano. A elevada carga de impostos e os salários relativamente baixos em comparação com a restante Europa ajudam a perceber a nossa posição.

Entenda então a importância de cada ponto na idade do parque automóvel em Portugal.

1. IUC – Imposto Único de Circulação

Um dos primeiros pontos que está a prejudicar a renovação do parque automóvel, e por consequência alimenta estes números, é o IUC – Imposto Único de Circulação.

Se lhe dissermos que a maioria dos carros usados e matriculados, em Portugal, são anteriores a julho de 2007, não se espante. Esta foi a data em que o Governo Português introduziu uma nova variável na fórmula de cálculo do IUC.

A partir deste momento, o valor do IUC de um veículo, matriculado depois de julho de 2007 e igual a outro matriculado anteriormente a esta data, pagaria um IUC muito mais elevado. Em alguns casos, várias vezes mais caro.

É fácil por isso perceber o porquê de os consumidores preferirem então comprar carros usados e por consequência o parque automóvel estar a ficar muito envelhecido.

2. Impostos na aquisição de um carro novo

Sempre que compra um carro novo, em Portugal, para além do valor do automóvel, são-lhe cobradas despesas administrativas (mais concretamente as despesas com transporte, legalização, preparação e averbamento de documentos, por exemplo), e despesas fiscais (IVA e ISV).

Ao passo que as despesas administrativas representam um encargo de aproximadamente 1000€ num automóvel de gama média, o ISV, Imposto Sobre Veículos, é taxado sobre a cilindrada e o valor de gases CO2 emitidos pelo automóvel. Quanto maiores forem estes componentes, maior será o valor do ISV.

Além disto, o IVA, Imposto Sobre o Valor Acrescentado, insere também sobre o ISV e sobre o valor do automóvel. IVA que como sabemos, em Portugal, é de 23%.

Todos estes impostos somados representam no total quase 40% do valor de um veículo novo.

Tenha como exemplo um SUV Mercedes GLC 300d. Em Portugal, o preço deste automóvel é de 41 250€, e após somados todos os impostos 72 500€, um acréscimo de quase 31 000€.

3. Salários baixos

O salário médio em Portugal é de atualmente 970€, sendo o salário mínimo definido por lei de 635€.

Isto coloca-nos como o 12º país europeu com o salário mais baixo, apenas à frente de países como a Lituânia, Estónia, Polónia ou Bulgária.

Aliando estes salários ao facto da carga fiscal sobre automóveis ser uma das mais elevadas na Europa, a junção de todos estes fatores significa que a grande maioria dos portugueses não tem possibilidade de investir num carro novo.

A necessidade de renovar o parque automóvel português

Carros a circular numa ponte

Apesar dos valores dos automóveis serem quase proibitivos, a conjuntura mundial indica que é quase “obrigatório” Portugal renovar o seu parque automóvel nos próximos anos.

Estas são as razões:

1. Emissões gases poluentes

Quanto mais envelhecido fica o parque automóvel, mais agravamos a pegada ambiental em Portugal. Isto porque, quanto mais velhos os carros forem, mais poluidores são.

Os números que sustentam esta necessidade de mudança são apresentados pela ACAP na voz do seu presidente do conselho estratégico, Pablo Puey.

Segundo este, “Metade dos veículos a circular em Portugal é movida a gasolina; 48% são abastecidas a gasóleo; 2% são movidos a energias alternativas. Os carros antigos a gasóleo emitem mais 85% de NOx, mais 30% de CO2 e têm mais 25% do consumo do que os atuais automóveis”.

2. Sinistralidade Rodoviária

Grande culpa da sinistralidade rodoviária atual resulta das péssimas condições de segurança que os veículos mais antigos oferecem.

É comum durante um acidente rodoviário entre um carro antigo e um carro mais recente vermos o carro mais recente totalmente destruído e o carro antigo quase “intacto”. Acontece que os carros recentes são projetados para se destruírem num acidente, dissipando desta forma toda a energia do embate, ao passo que um carro mais antigo absorve toda a energia do impacto, podendo resultar em lesões graves para o condutor e ocupantes.

3. Compra de carros importados

Comprar um carro importado e legalizá-lo, até pode compensar ao longo prazo no que toca à oportunidade de negócio.

Contudo, tendo em conta que, em média, cada automóvel que se vai buscar ao estrangeiro tem 5,5 anos, este facto penaliza a idade do parque automóvel português. Prova disso, é o facto dos carros usados importados(79 459 unidades) já representarem 35,5% dos registos automóveis em Portugal.

Medidas para salvar o parque automóvel português

parque de estacionamento com carros

Diligências e propostas estão então a chegar ao estado português através da ACAP para mudar este cenário. A ideia da ACAP é criar um pacote de incentivos para uma maior consciencialização com a questão. Algumas dessas medidas são:

1. Incentivo ao abate de veículos antigos

De acordo com a ACAP, se a curto prazo, 25 mil automóveis (com 23/24 anos) fossem abatidos, podiam originar uma receita fiscal líquida de 83,5 milhões de euros para o estado.

A longo prazo, e para começar a diminuir a idade do parque automóvel português, seria preciso abater 330 mil viaturas para este diminua um ano.

Quer isto dizer que, o regresso do incentivo ao abate de veículos seria uma excelente opção, tanto para os proprietários como para o governo.

Apesar de não estar em vigor, quem tem carros com mais de 20 anos, pode começar a pensar nesta solução. Por vezes, esta é mesmo a solução para quem não sabe o que fazer com eles.

2. Plano de Descarbonização

Ainda relacionado com a pegada ambiental, a ACAP, propõe igualmente a criação de um fundo ambiental, com fundos próprios ou diretamente relacionados com o abate de veículos, para reduzir o consumo automóvel.

Uma maneira imediata de o conseguir, seria a substituição de veículos antigos por carros elétricos ou novos. Nestas duas situações, o governo daria um apoio financeiro para aliviar a compra desses mesmos veículos.

3. Revisão do Imposto Automóvel

A ACAP defende também o reajuste das tabelas do imposto sobre veículos, com vista à neutralidade fiscal. Desta forma, poderia ser pensado um aumento da carga fiscal sobre os veículos mais antigos.

É urgente então procurar soluções para resolver esta situação. Apesar desta vontade de mudança, convém também existir alertas para os condutores.

Porque, na verdade, faz tudo parte da consciencialização e educação rodoviária.

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