Há um canto de Portugal onde cada novo dia começa antes de todas as pessoas. No extremo nordeste de Trás-os-Montes, na pequena aldeia de Paradela, a cerca de 16 km de Miranda do Douro, ergue-se o Miradouro da Penha das Torres, o ponto mais oriental de Portugal Continental e, por isso mesmo, o primeiro sítio do país onde o sol nasce. Se ainda não ouviu falar deste lugar, está na altura de mudar isso.
Miradouro da Penha das Torres
Porque é que o sol nasce primeiro na Penha das Torres? A resposta está na posição geográfica. O sol nasce a oriente e percorre o céu de leste para oeste. Quanto mais a oriente se encontrar um lugar, mais cedo os primeiros raios de luz solar lá chegam.
A Penha das Torres, situada nas coordenadas 41°34’33″N, 6°11’27″W, encontra-se no extremo nordeste do território português, o ponto mais a leste de Portugal Continental. Isto significa que, antes de iluminar Lisboa, o Porto, Bragança ou qualquer outra cidade portuguesa, o sol banha primeiro estas arribas xistosas e graníticas sobre o Rio Douro.
Há, contudo, uma curiosidade que os habitantes mais velhos de Paradela gostam de partilhar. O primeiro sol não se vê exatamente na direcção donde ele nasce. Como explicam os locais, os raios solares chegam primeiro à Serra de Alta, do lado espanhol, e só depois descem até ao vale do Douro.
Ou seja, quem quer ver o amanhecer mais matutino de Portugal tem de olhar não para leste, mas ligeiramente para trás, para a encosta que recebe primeiro essa luz. Uma pequena lição de como a orografia modela o que os olhos veem.
A altitude do miradouro ronda os 675 metros, e dali a vista sobre as Arribas do Douro Internacional é de cortar a respiração: em alguns pontos, as paredes rochosas descem abruptamente mais de 200 metros até ao leito do rio.
O que ver no miradouro da Penha das Torres

O miradouro ganhou recentemente novas infra-estruturas, parte de um investimento de cerca de 300 mil euros pelo município de Miranda do Douro em dois novos miradouros sobre as arribas do Parque Natural do Douro Internacional. O resultado é uma plataforma moderna, integrada na paisagem, que não compromete a autenticidade do sítio. E da Penha das Torres é possível observar uma paisagem esmagadora:
- O Rio Douro a entrar em Portugal. Este é literalmente o ponto de entrada do Douro em território nacional, vindo de Espanha
- A barragem espanhola do Castro, construída em 1953
- As arribas graníticas e xistosas do Parque Natural do Douro Internacional
- Aves de rapina em voo, como o grifo-comum, o abutre-do-Egipto, a águia-real, a águia-de-Bonelli (em perigo de extinção), a cegonha-preta ou o falcão-peregrino.
O acesso ao miradouro faz-se a partir da aldeia de Paradela, parte do caminho por via vicinal, e existe parque de estacionamento próximo.
Paradela: a aldeia onde o dia começa primeiro

A aldeia de Paradela integra a União de Freguesias de Ifanes e Paradela, no concelho de Miranda do Douro e conta atualmente com menos de 200 habitantes. Apesar da sua dimensão, a memória coletiva aqui é viva. Os mais velhos falam das histórias de contrabando com Espanha, da pastorícia nas encostas agrestes, das minas de estanho que outrora deram trabalho à região.
Nas imediações do miradouro encontram-se outros pontos de interesse e que não deve perder numa visita ao local:
- Igreja Matriz de Paradela;
- Capela de S. Martinho e Capela do Cemitério;
- Fonte da Preguiça e Casa do Dízima;
- Vestígios de um castro da Idade do Ferro;
- O maior castanheiro do Parque Natural do Douro Internacional, um impressionante exemplar de Castanea sativa Miller classificado como a maior árvore desta espécie na área protegida
A aldeia pertence à Zona de Protecção Especial do Douro Internacional e Vale do Rio Angueira (Directiva Aves) e ao Sítio Douro Internacional da Lista Nacional de Sítios, o que lhe confere uma protecção ambiental reforçada.
Miranda do Douro: cidade museu que vale a viagem

A Penha das Torres é o ponto de partida para descobrir um território muito mais vasto. Miranda do Douro, a sede de concelho, fica a apenas 16 km e é, por si só, um destino obrigatório no nordeste transmontano.
Sé Catedral de Miranda do Douro
Iniciada em 1552 e concluída no final do século XVI, a Sé Catedral é o ex-libris da cidade. Com estilo maneirista e elementos renascentistas, a sua planta cruciforme de três naves impressiona. No interior, destaca-se o retábulo da capela-mor e o cadeiral do coro do século XVII.
A grande curiosidade é o Menino Jesus da Cartolinha, uma imagem setecentista que possui um guarda-roupa próprio, mudando de traje conforme o calendário religioso. Um ícone da religiosidade popular mirandesa.
Centro histórico e castelo
Percorrer o centro histórico de Miranda do Douro a pé é como atravessar séculos de história. O Castelo, mandado erguer por D. Dinis em 1286 e parcialmente destruído em 1762, as muralhas pré-românicas, as ruínas do Paço Episcopal e a Rua de Costanilha, ladeada de edifícios quinhentistas, compõem um cenário medieval de rara autenticidade.
Museu da Terra de Miranda
Instalado no antigo Paço Municipal do século XVII, este museu é a porta de entrada para a cultura mirandesa. Coleções de artefactos arqueológicos, trajes tradicionais (incluindo a famosa Capa de Honras), alfaias agrícolas, teares e máscaras ajudam a compreender a identidade singular desta região.
A língua mirandesa
Miranda do Douro é a única terra de Portugal onde se fala oficialmente uma segunda língua, o mirandês (ou lhéngua mirandesa).
Reconhecida oficialmente em 1999, esta língua de raiz latina, próxima do asturiano-leonês, sobreviveu séculos de isolamento geográfico e hoje é ensinada nas escolas, está nas placas das ruas e é falada com orgulho nas aldeias do planalto. Uma visita a Miranda sem ouvir algumas palavras em mirandês fica incompleta.
Parque Natural do Douro Internacional e Miradouros
O território de Miranda do Douro integra o Parque Natural do Douro Internacional, uma área protegida de 85.150 hectares que abrange o troço fronteiriço do Rio Douro. E para além da Penha das Torres, não faltam miradouros espetaculares.
- Miradouro de São João das Arribas, um dos mais impressionantes do planalto mirandês, junto ao Castro de Aldeia Nova
- Miradouro da Fraga do Puio (Picote), recentemente renovado, com plataforma de chão de vidro
- Miradouro da Sra. da Luz
Os passeios de barco pelas Arribas do Douro são outra forma de vivenciar a grandiosidade da paisagem, entre paredes rochosas de mais de 200 metros de altura.
Gastronomia transmontana
Nenhuma visita a Miranda do Douro se completa sem prova da Posta Mirandesa, um generoso bife de vitela de raça mirandesa, tipicamente mal-passado, tenro e cheio de sabor.
Há também o cordeiro mirandês, o fumeiro (alheira, butelo, salpicão), a bola doce mirandesa e o folar transmontano. Tudo regado com bons vinhos da região.
Como chegar à Penha das Torres
A Penha das Torres localiza-se em Paradela, Miranda do Douro, distrito de Bragança. O acesso faz-se por caminho vicinal a partir da aldeia, com parque de estacionamento junto ao miradouro. De carro, a partir de Miranda do Douro são cerca de 16 km pela EN218. Coordenadas GPS: 41.575144, -6.190917