Ekonomista
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23 Set, 2026 - 09:00

L’Oréal e FCT distinguem 4 cientistas com 60 mil euros

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A L’Oréal e a FCT atribuíram 60 mil euros a quatro cientistas portuguesas em 2026. Veja quem são, o que estudam e o que este dinheiro representa na prática.

A L’Oréal Portugal e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) entregaram, a 16 de setembro, no Teatro da Luz, em Lisboa, a 22.ª edição das Medalhas de Honra para as Mulheres na Ciência. As vencedoras: Ana Esteves, Cláudia Martins, Fátima Santos e Inês Alves recebem, cada uma, 15 mil euros para os seus projetos de investigação.

O total distribuído é de 60 mil euros. A iniciativa nasceu em 1998, criada globalmente pela L’Oréal e pela UNESCO, e chegou a Portugal em 2004, através da parceria com a FCT. Desde então, já apoiou mais de 70 jovens cientistas doutoradas no país.

Para além do reconhecimento, este tipo de prémio tem um propósito financeiro concreto: cobrir despesas que as bolsas normais de investigação não pagam. Quanto vale, na prática, este apoio, e como se compara ao resto do financiamento da ciência em Portugal?

Quem são as investigadoras e os projetos premiados

Ana Esteves, da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, estuda formas de tornar a produção de microalgas mais eficiente e sustentável, combinando luz e som para facilitar a separação das algas da água sem aditivos químicos.

Cláudia Martins, do i3S, desenvolve um implante para combater células residuais de glioblastoma após cirurgia, capaz de libertar quimioterapia de forma faseada no local exato do tumor.

Fátima Santos, também da FEUP, trabalha em células fotovoltaicas capazes de captar luz de interiores de casas e escritórios para alimentar sensores e dispositivos sem depender de baterias.

Inês Alves, do i3S, investiga alterações nos açúcares da superfície celular associadas ao lúpus eritematoso sistémico, com o objetivo de permitir um diagnóstico mais precoce da doença.

O prémio individual é igual para todas: 15 mil euros, sem distinção por área científica ou fase do projeto.

O que compram, de facto, 15 mil euros de investigação

Este valor não é um salário — é financiamento direto ao projeto. Cobre tipicamente reagentes, equipamento específico, análises laboratoriais ou deslocações a congressos internacionais, despesas que a bolsa mensal de um investigador normalmente não inclui.

É aqui que o prémio ganha relevância financeira real: para uma investigadora, 15 mil euros extra podem significar a diferença entre concluir ou adiar um projeto por falta de acesso a uma plataforma de análise ou a um equipamento específico. Numa área onde os orçamentos de investigação raramente ultrapassam algumas dezenas de milhares de euros por ano, o valor pesa.

Compare este tipo de apoio pontual com o financiamento regular. Descubra como funcionam as bolsas de investigação e o que cobrem, mês a mês, ao longo de um doutoramento.

Como se financia a ciência em Portugal, para além dos prémios

O grosso do financiamento da investigação científica em Portugal continua a vir da FCT, através de bolsas. Para 2026, a instituição anunciou 1.600 bolsas de doutoramento, num investimento total de 145 milhões de euros — mais 50 bolsas e mais 12 milhões de euros do que em 2025.

A distribuição divide-se em duas linhas: 1.000 bolsas na linha geral (90,6 milhões de euros) e 600 bolsas para investigação em ambiente não académico, ou seja, dentro de empresas (54,4 milhões de euros). Há ainda um reforço automático: desde 1 de janeiro de 2026, os subsídios mensais de manutenção das bolsas subiram 50 euros, alinhados com o aumento do salário mínimo nacional.

Mesmo assim, é este um financiamento essencialmente de subsistência — cobre o rendimento do investigador, não o projeto em si. Atenção: nem toda a bolsa está isenta de IRS, o que pode reduzir ainda mais a margem disponível. Consulte o guia sobre o IRS das bolsas de estudo e investigação para perceber quando há lugar a retenção.

O contexto: mulheres, ciência e um fosso que persiste

O programa nasceu para combater a sub-representação feminina na investigação. Em Portugal, os dados mostram hoje paridade no número de mulheres doutoradas e no acesso inicial à carreira científica, mas a disparidade mantém-se no acesso a posições de topo, na liderança de instituições e, sobretudo, no financiamento de longo prazo para projetos independentes.

É esse fosso final, o do financiamento a projetos liderados por mulheres, que prémios como este tentam encurtar. Não resolve a estrutura, mas destrava projetos concretos que, de outra forma, ficariam parados à espera de orçamento.

O que fica desta edição

Os 60 mil euros da 22.ª edição não mudam o financiamento estrutural da ciência portuguesa, que continua a depender de 145 milhões de euros em bolsas públicas todos os anos. Mudam, sim, quatro projetos concretos, que passam a ter reagentes, equipamento ou análises pagas nos próximos meses.

Para quem acompanha o setor por curiosidade ou por proximidade profissional, fica a fórmula simples: o prémio paga o projeto, a bolsa paga a pessoa e ambos continuam a ser, em Portugal, mais escassos do que a ciência precisava.

Fontes

Fundação para a Ciência e a Tecnologia. (2026, março 26). FCT atualizou o valor das bolsas para 2026. https://www.fct.pt/en/fct-atualizou-o-valor-das-bolsas-para-2026/

L’Oréal Portugal. (2026). For Women in Science na L’Oréal. https://www.loreal.com/pt-pt/portugal/blog/pessoas/for-women-in-science-na-loreal/

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