Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
01 Jun, 2026 - 17:00

Quanto custa educar financeiramente os filhos em Portugal

Cláudia Pereira

Ter filhos custa mais de 800 € por mês em Portugal. Saiba quanto custa educar financeiramente os filhos e por que a mesada é a melhor ferramenta.

Ter filhos em Portugal custa mais do que muitos pais calculam e não estamos a falar apenas das fraldas ou das propinas. Estamos a falar do custo invisível de chegar aos 18 anos sem saber gerir dinheiro. Os números mostram que ainda há muito trabalho a fazer.

Ter um filho custa mais 800 euros por mês

As famílias portuguesas com crianças dependentes gastam, em média, mais 811 euros por mês do que as famílias sem filhos, segundo o inquérito às despesas publicado pelo INE em 2024 com dados de 2022/2023. Este valor engloba alimentação, habitação, transportes, saúde e educação e tende a crescer com a idade da criança. A longo prazo, estimativas apontam para gastos totais entre 76.000 e 185.000 euros ao longo de 25 anos, dependendo das escolhas educativas e do estilo de vida da família.

E o Estado ajuda, mas com limites. Em 2026, o abono de família no primeiro escalão atinge os 190,98 euros mensais para crianças com até 36 meses, com efeitos retroativos a janeiro. As famílias monoparentais têm um acréscimo de 50% sobre estes valores. Mas o apoio diminui à medida que a criança cresce e o rendimento do agregado sobe e desaparece completamente a partir do quinto escalão. O peso financeiro aumenta com a idade e a preparação financeira dos filhos raramente acompanha esse crescimento.

famílias monoparentais
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O que dizem os dados sobre a literacia financeira em Portugal

Portugal não está entre os piores da Europa na literacia financeira dos jovens, mas tampouco está entre os melhores. Um estudo publicado em fevereiro de 2024 pelo grupo de reflexão Bruegel coloca Portugal no segundo pior desempenho da União Europeia entre adultos: apenas 42% dos portugueses respondem corretamente a três de cinco questões básicas de literacia financeira, contra uma média europeia de 52%.

Nos jovens, o quadro é menos grave mas igualmente preocupante. No PISA 2022, os alunos portugueses obtiveram 494 pontos em literacia financeira, estatisticamente em linha com a média da OCDE de 498 pontos, ocupando o 9.º lugar no ranking dos 20 países participantes.

Mas há um dado que deve alertar os pais: apenas 38% dos estudantes portugueses tinham conta bancária, contra 63% na média da OCDE; e apenas 27% possuíam cartão de débito ou crédito, face a 62% na OCDE. Ou seja, os jovens portugueses chegam à vida adulta com menos contacto prático com o dinheiro do que os seus pares europeus.

O Conselho da UE reconheceu, na sua reunião de maio de 2024, a urgência de melhorar a literacia financeira e uma das medidas sugeridas é precisamente a integração da educação financeira nos currículos escolares desde cedo. Enquanto isso não acontece de forma sistemática, a responsabilidade recai sobre as famílias.

A mesada como primeira aula de finanças

Dar mesada é, provavelmente, a ferramenta mais eficaz e mais subutilizada na educação financeira infantil. Em Portugal, a prática ainda está aquém da média europeia e a investigação é clara: crianças que gerem dinheiro próprio desde cedo desenvolvem melhor capacidade de adiar gratificações, comparar preços e distinguir necessidades de desejos.

Quanto dar? Não há uma regra única, mas uma referência amplamente usada por educadores financeiros é 1 euro por ano de idade por semana, por exemplo, 6 euros semanais para uma criança de 6 anos, 10 euros para uma de 10. O valor importa menos do que a regularidade e as regras associadas: o que é coberto pela mesada, o que os pais continuam a pagar, e o que acontece quando o dinheiro acaba antes do fim da semana.

A semanada tem uma vantagem pedagógica sobre a mesada mensal: o ciclo é mais curto, o erro tem consequências menores e a aprendizagem é mais rápida. Para crianças com menos de 8 anos, semanas funcionam melhor do que meses e os primeiros erros com 5 euros custam muito menos do que os primeiros erros com 5.000.

Mesada para os filhos
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Poupar desde cedo: o impacto que os pais subestimam

Há um argumento matemático simples para começar cedo. Uma criança que poupe 20 euros por mês dos 8 aos 18 anos acumula 2.400 euros em capital próprio. Com uma taxa de juro anual de 3% numa conta poupança ou produto de capitalização, esse valor ultrapassa os 2.800 euros à entrada da universidade. Não paga a propina inteira, mas paga livros, material e parte de um semestre. E, acima de tudo, cria o hábito.

Um jovem que chega aos 18 anos sem ter gerido dinheiro próprio vai ter de aprender tudo de uma vez, muitas vezes com crédito fácil à disposição. O relatório de supervisão comportamental do Banco de Portugal revelou que, em 2024, foram iniciados quase 853 mil processos de incumprimento no crédito ao consumo em Portugal, um aumento de 6,4% face ao ano anterior. O custo desse atraso na educação financeira não é apenas pedagógico, mede-se em juros, dívidas e processos.

Como começar hoje a educação financeira dos filhos

Não é preciso esperar pelo momento certo. Pergunte aos filhos quanto acham que custam as coisas do dia a dia. Explique o que é um salário, uma conta bancária, uma poupança. Use exemplos concretos com valores reais e adapte a linguagem à idade.

Se ainda não começou a dar mesada, qualquer semana é uma boa semana para começar: com regras claras, montante adequado à idade e paciência para os primeiros erros. Porque a educação financeira não começa na faculdade, começa na semana em que a criança percebe que o dinheiro se esgota se não for bem gerido.

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