Share the post "Sabe quando se começou a conduzir pela direita em Portugal?"
Pois é verdade. Até ao início do verão de 1928, os portugueses conduziam pelo lado esquerdo da estrada, tal como hoje fazem os britânicos. A 1 de junho desse ano, tudo mudou e passou tudo a conduzir pela direita. Numa madrugada histórica, Portugal virou o volante, literalmente, e adotou também o seu primeiro Código da Estrada.
Por que é que Portugal conduzia pela esquerda? A resposta está na história e, em particular, na íntima relação entre Portugal e a Inglaterra.
Quando os franceses de Napoleão invadiram a Europa no início do século XIX, trouxeram consigo, além das armas, o costume da circulação pela direita, uma prática que remonta à Revolução Francesa de 1794.
Os países que resistiram com mais determinação à ocupação francesa (o Reino Unido, o Império Austro-Húngaro e Portugal) mantiveram a tradição de circular pela esquerda.
No caso português, a influência britânica foi determinante. A aliança histórica luso-britânica, reforçada pela presença inglesa durante as Guerras Napoleónicas sedimentou o costume de circular “à maneira inglesa”. E o hábito ficou.
Conduzir pela direita: o decreto que mudou tudo
Mal caiu a Primeira República e se instalou a Ditadura Militar, um conjunto de transformações radicais varreram o país, entre elas, uma muito prática e visível nas estradas.
Em 1927, foi criada a Junta Autónoma de Estradas. Um ano depois, o Governo publicou o Decreto n.º 18.406, de 31 de maio de 1928, que estabelecia duas novidades de enorme alcance.
- O primeiro Código da Estrada português, substituindo o rudimentar Regulamento para a Circulação de Automóveis de 1911, que só se aplicava a veículos motorizados. O novo código era muito mais abrangente e regulava também peões, animais e todos os veículos que circulassem nas estradas, alinhando Portugal com a Convenção de Paris de 1926.
- A obrigatoriedade de circular pela direita, a grande e perturbadora novidade para os cerca de 31 000 condutores portugueses e os aproximadamente 28 000 automóveis que então existiam no país.
Na apresentação do Código, Oliveira Monteiro, presidente do Conselho Superior de Viação, não poupou nas palavras: “É preciso que se fiscalizem as estradas, especialmente as de turismo, a fim de se evitarem verdadeiros abusos porque as estradas são de todos e não só de meia dúzia de pretensos ases do volante.”
A noite em que Portugal mudou de lado

A data escolhida foi a madrugada de 31 de maio para 1 de junho de 1928. Mas nem toda a gente mudou ao mesmo tempo.
- No resto de Portugal continental e ilhas adjacentes a mudança aconteceu à meia-noite, quando o relógio deu as doze badaladas e os condutores que ainda estavam na estrada tiveram de mudar de faixa.
- Em Lisboa, a capital teve um tratamento especial. A transição ocorreu às 5 horas da manhã, quando o movimento era menor e o risco de confusão mais controlado.
Para preparar a população, o ACP (Automóvel Club de Portugal) publicou antecipadamente nos principais jornais diários avisos detalhados, lembrando a todos os condutores que a partir dessa hora passariam a rodar pela direita, dando a esquerda ao centro das estradas, e que as ultrapassagens passariam a ser feitas pelo lado esquerdo do veículo a ultrapassar.
Por todo o país foram afixados dísticos com a inscrição “Pela Direita”, a lembrar aos condutores o novo sentido de marcha. Apesar das precauções, os primeiros acidentes não tardaram a acontecer.
Uma mudança com duplo sentido
Não passou despercebida à imprensa da época uma certa ironia política nesta transformação. Portugal tinha acabado de sair de uma República e entrava numa Ditadura. E, nas estradas, a esquerda era passado. A ordem do dia era, literalmente, “Pela Direita”. Alguns jornais não resistiram a comentar a coincidência entre a viragem nas estradas e a viragem política do país.
Do ponto de vista técnico, havia também pressões da indústria automóvel. Nos anos 20, os fabricantes europeus começaram a produzir carros fechados com o volante do lado esquerdo, o que tornava cada vez mais incómoda e perigosa a circulação pela esquerda da via. Portugal era, então, um dos poucos países europeus que ainda mantinha essa prática.
Portugal alinha com a Europa (quase) toda

Com esta mudança, Portugal juntou-se à maioria dos países europeus continentais que, a partir dos anos 20, foram publicando os seus primeiros códigos da estrada e harmonizando-os com os regulamentos internacionais.
Na Europa, apenas a Suécia, que só fez a transição em 1967, e as Ilhas Britânicas mantiveram a circulação pela esquerda.
Curiosamente, as antigas colónias portuguesas não acompanharam de imediato a metrópole. Em Moçambique, por exemplo, continuou a conduzir-se pela esquerda durante décadas.
O legado do primeiro Código da Estrada
O Código da Estrada de 1928 foi um marco civilizacional na mobilidade portuguesa. Pela primeira vez, existia um conjunto de regras claras, abrangentes e sistematizadas para todos os utilizadores da via pública. E tinha algumas disposições notáveis para a época.
- Responsabilidade criminal: foram estabelecidas coimas e, para infrações graves como conduzir sem carta, penas de prisão.
- Obrigação de parar em caso de acidente: quem causasse um acidente e não parasse para prestar socorro arriscava a cassação imediata da licença de condução.
- Aplicação universal: ao contrário da legislação anterior, as regras valiam para todos, peões, cavaleiros, carroceiros e automobilistas.
O documento sofreu inúmeras atualizações ao longo do século XX, com uma das maiores revisões a ocorrer em 1954. Hoje, quase 100 anos depois, um novo Código da Estrada está em preparação para responder aos desafios da mobilidade elétrica, dos veículos autónomos e da micromobilidade.
Curiosidades sobre o lado em que se conduz
- Atualmente, cerca de 65% da população mundial conduz pela direita;
- Os países que conduzem pela esquerda são, maioritariamente, antigas colónias britânicas: Reino Unido, Irlanda, Austrália, Índia, África do Sul, Japão, entre outros;
- A última grande mudança europeia foi a da Suécia, em 1967, conhecida como o “Dagen H” (Dia H), uma operação logística monumental que durou meses a preparar.