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Teresa Campos
Teresa Campos
20 Ago, 2020 - 15:06

Covid-19: o que os especialistas dizem sobre uma segunda vaga

Teresa Campos

O que dizem os especialistas sobre a segunda vaga COVID-19? E quais as consequências de uma eventual nova vaga da doença? Fique a saber!

Mulher de quarentena

Após a pandemia de COVID-19 se ter abatido sobre todo o mundo e ter obrigado a um confinamento que foi sendo levantado, gradualmente, nos últimos meses, nos vários países, o mundo enfrenta agora um outro “fantasma”, o “fantasma” da segunda vaga COVID-19.

Fantasma, porque ninguém consegue ainda afirmar com total certeza se vai realmente existir ou não uma segunda vaga COVID-19. No entanto, muito se tem escrito sobre essa possibilidade e muitas são as questões que se colocam: haverá uma segunda vaga COVID-19? A existir, quando é previsto ela chegar ao nosso país? No caso dela acontecer, Portugal está preparado?

Com base na opinião avisada e fundamentada dos especialistas, vamos procurar fazer um ponto de situação em relação à pergunta do momento: Portugal vai ou não ser atingido por uma segunda vaga COVID-19?

Segunda vaga COVID-19: o que se sabe e o que se prevê

Médicos com amostra de sangue

Já há algumas semanas que a Europa questiona mais frequente e seriamente a possibilidade de vir a ser afetada por uma segunda vaga COVID-19. Algumas entidades e especialistas equacionam mesmo a possibilidade dessa segunda vaga já ter chegado.

Esta convicção deve-se sobretudo ao aumento de surtos e de casos de COVID-19 em alguns países europeus, como é o caso de Espanha, França, Alemanha, Itália, Reino Unido, Holanda e Bélgica. Steven Van Gucht, responsável pela secção de doenças virais do departamento de Saúde Pública da Bélgica, já declarou mesmo que “estamos na segunda vaga de infeções e ninguém sabe quanto tempo vai durar, nem quão intensa será.”

O que dizem os especialistas?

Certo é que entre os especialistas não há unanimidade em relação ao tema da segunda vaga COVID-19. Há alguns que não reconhecem sequer este conceito de segunda vaga, enquanto outros já prevêem a data da sua chegada e enquanto outros ainda garantem que a tão temida segunda vaga já chegou! Saiba o que já disseram alguns especialistas.

Pasi Penttinen, especialista em imunização do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças, considera que “estamos no meio da primeira onda na Europa e globalmente. Só vimos declínios [no número de casos] na Europa, por causa das medidas de distanciamento físico. No momento em que relaxarmos essas medidas, vão criar-se oportunidades para o vírus se espalhar novamente.”

Miguel Castanho, líder do grupo de bioquímica física de fármacos no Instituto de Medicina Molecular (IMM), não reconhece a existência deste conceito de segunda vaga. Em declarações ao jornal online Observador, refere que “a essa nova expansão [de uma doença infeto-contagiosa] chamamos segunda vaga.” Ou seja, a um período de expansão, segue-se uma fase de retração, à qual se irá seguir um outro momento de expansão.

Gabriela Gomes, epidemiologista e investigadora da Escola de Medicina Tropical de Liverpool e do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, admite, na mesma publicação, que Portugal já pode estar numa “segunda onda”, embora considere que este é um conceito muito variável.

Filipe Froes, pneumologista, em declarações à SICNotícias, defendeu que o nosso país vai passar, brevemente, por uma segunda vaga COVID-19, a qual pode sobrecarregar o Serviço Nacional de Saúde.

Fim da primeira vaga

Já Manuel Carmo Gomes, professor de epidemiologia de doenças transmissíveis da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, admite que Portugal está “no fim da primeira vaga” e que a segunda vaga pode mesmo chegar no mês de setembro, sobretudo devido ao regresso das crianças às escolas, à retoma, para muitos, do trabalho presencial e à aproximação do outono e do tempo mais frio.

Pelo mesmo diapasão afina Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, também já alertou para a possibilidade de vir a existir uma segunda vaga COVID-19 no inverno considerando, por isso, essencial reforçar a administração da vacina da gripe, assim como a capacidade de internamento hospitalar, nomeadamente em Lisboa e no Porto.

Mulher na rua com máscara de proteção
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E o que dizem as entidades oficiais?

A Organização Mundial da Saúde acredita que a pandemia de COVID-19 está a mudar e que “O que estamos a observar não é simplesmente um ressurgimento. Acreditamos que seja um sinal de que entrámos numa nova fase da pandemia na Ásia-Pacífico.”

As palavras são de Takeshi Kasai, diretor regional da OMS para o Pacífico Ocidental, que adianta, ainda, que uma dessas mudanças na pandemia poderá estar relacionada com o facto de serem cada vez mais as pessoas na faixa dos 20, 30 e 40 anos as responsáveis por impulsionar  a disseminação da doença. Isto, porque os casos assintomáticos também são mais prevalentes nestas idades.

O Ministério da Saúde, pela voz do Secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales,  admitiu já em julho que Portugal está preparado para uma eventual segunda vaga COVID-19. Para isso, o Ministério está a equacionar tomar algumas medidas preventivas, como administrar a vacina da gripe mais cedo do que é habitual e reforçar a toma desta vacina, disponibilizando 600 mil doses adicionais da mesma.

Além disso, está a ser planeado um reforço, com ventiladores e/ou recursos humanos, dos centros de saúde, dos hospitais e das unidades de cuidados intensivos, assim como um aumento da sua capacidade de internamento.

Grupos prioritários

A Diretora-Geral da Saúde, Graça Freitas, também adiantou que, este ano, é preciso começar a vacinar mais cedo contra a gripe, dando prioridade a grupos como os profissionais de saúde, os prestadores de cuidados de saúde e os idosos residentes em lares. A Direção-Geral da Saúde tem, ainda, usado o caso australiano como um observatório para aquilo que pode vir a acontecer em Portugal, no inverno.

A verdade é que as infeções estão a recrudescer. No início do mês de agosto, por exemplo, o estado australiano de Victoria declarou estado de calamidade e a segunda maior cidade da Austrália, Melbourne, decretou uma quarentena de 6 semanas, com recolher obrigatório, restrições de circulação, encerramento de lojas, fábricas e construção civil e aulas por videoconferência.

De referir que estas medidas foram tomadas numa altura em que chegou o inverno ao país e houve um aumento exponencial de casos de infeção pelo novo coronavírus.

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Consequências económicas e sociais de uma segunda vaga COVID-19

Fronteiras

Em entrevista à agência Lusa, a comissária europeia para os Assuntos Internos, Ylva Johansson, disse acreditar que, caso exista uma segunda vaga COVID-19, as restrições nas fronteiras dos países europeus já não vão voltar a ser necessárias, pois essa já não se revela uma forma eficaz de conter o vírus.

A comissária espera, ainda, que a segunda vaga não seja tão difícil como foi a primeira, até porque, de acordo com Ylva Johansson, a Europa está mais preparada, pois já todos sabemos como nos proteger e como testar e rastrear os casos suspeitos de infeção pelo novo coronavírus.

Desemprego

A chegada de uma segunda vaga COVID-19 terá, também, consequências sociais, nomeadamente no que diz respeito ao aumento da taxa de desemprego. A consultora EY estima que, se Portugal for atingido por segunda vaga COVID-19, a taxa de desemprego no nosso país pode subir até aos 17,6%, já no final de 2020. A consultora prevê, ainda, que o impacto dessa hipotética segunda vaga será mais sentido nas economias que têm por base o emprego temporário e por conta própria.

Em termos europeus, acredita-se que Portugal será um dos países mais prejudicados pela segunda vaga, no que respeita à subida da taxa de desemprego, pois é um dos países com uma percentagem mais elevada de emprego temporário (17,9%) e, também, com uma taxa considerável de emprego por conta própria (13,6%). Ainda assim, o nosso país é superado por Espanha, no que concerne à taxa de emprego temporário que, no país vizinho, chega aos 22,3%.

As previsões continuam e estima-se que os trabalhadores dos setores do comércio e do alojamento e da restauração sejam os mais afetados por esta subida do desemprego, pois estas serão as áreas mais afetadas e os seus trabalhadores têm menos qualificações estando, por tudo isto, mais vulneráveis.

Para já, da parte do Governo Português, as previsões são de que a taxa de desemprego deve atingir os 9,6% este ano, descendo para os 8,7% em 2021.

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