Miguel Pinto
Miguel Pinto
16 Mar, 2020 - 16:58

Coronavírus: o longo caminho para a vacina contra o Covid-19

Miguel Pinto

Os testes em humanos da vacina Covid-19 deverão começar em abril. Mas ainda há muitas fases a ultrapassar até se conseguir uma imunidade global.

vacina COVID19

Há alguns dias, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou o surto de Covid-19 como uma pandemia, o que significa que esta é uma epidemia que afeta e afetará todo o planeta. Desde aí, vários países têm vindo a adotar estratégias de contenção da doença que reduzem a sua propagação. Porém, só uma vacina Covid-19 será capaz de evitar que as pessoas contraiam o vírus e adoeçam. Saiba em que ponto estamos neste momento.

Vacina COVID-19. Uma corrida contra o tempo

De acordo com um informações publicadas pelo jornal britânico The Guardian, cerca de 35 instituições já estão a trabalhar numa vacina Covid-19, sendo que 4 delas já têm estado a fazer testes em animais. Uma delas irá mesmo começar os testes em humanos no próximo mês de abril.

Estes avanços têm por base a sequenciação do material genético do vírus Sars-CoV-2, responsável pelo Covid-19. Cedida pelos cientistas chineses, esta informação possibilita que especialistas de todo o mundo estejam, simultaneamente, a pesquisar e a tentar encontrar a cura para esta doença, enquanto analisam a forma como o vírus invade as células humanas.

Neste momento, o esforço e o investimento também estão direcionados para o desenvolvimento de vacinas para outros coronavírus, uma vez que eles já foram responsáveis por outras epidemias, como o Sars (severe acute respiratory syndrome) que afetou a China entre 2002 e 2004 e o Mers (Middle East respiratory syndrome) que teve início na Arábia Saudita, em 2012.

Outra possibilidade em cima da mesa é a de testar as vacinas usadas para prevenir esses outros coronavírus e perceber se poderão ter alguma utilidade na prevenção do COVID-19. Isto, porque este virus Sars-CoV-2 partilha cerca de 80% a 90% de material genético com o vírus que causou o Sars na China, há cerca de 16/18 anos.

investigação vacina

Como será esta vacina?

Habitualmente, as vacinas injetam no organismo uma pequena dose de vírus (vivo, mas enfraquecido), de maneira a que o sistema imunitário crie anti-corpos contra esse “agente invasor” e os “memorize”, de forma a que volte a produzir esses anti-corpos, caso contraiam o vírus.

Em relação a este aspeto, pode dizer-se que os centros de investigação estão a explorar várias possibilidades, desde as mais tradicionais (como a explicada acima), às mais inovadoras e experimentais.

Testes clínicos em 3 fases

Antes de uma eventual aprovação e regulamentação, as vacinas estão sujeitas a testes clínicos que obedecem a 3 fases.

1ª – A vacina é testada em algumas dezenas de voluntários saudáveis, no sentido de avaliar a sua segurança, assim como os efeitos adversos.

2ª – Nesta fase, a vacina é testada em centenas de pessoas, geralmente numa região do globo particularmente afetada pela doença em causa. Aqui, o objetivo é avaliar a sua eficácia.

3ª – A última etapa corresponde ao teste da vacina em milhares de pessoas.

Isto significa que estas fases não podem ser omitidas, nem aceleradas, sobretudo se nunca tiverem sido aprovadas vacinas similares que é o caso do Sars-CoV-2. Além de se tratar de uma patologia nova, as vacinas que estão a ser preparadas recorrem a tecnologias que também ainda não foram testadas.

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O desafio do tempo e da quantidade

Por todas estas razões, habitualmente as vacinas demoram uma década ou mais a serem aprovadas e reguladas. Annelies Wilder-Smith, professora na London School of Hygiene and Tropical Medicine, disse ao The Guardian que duvida que esta vacina esteja pronta em menos de 18 meses.

Para lá da questão do tempo, há outro problema que se coloca: o da quantidade. Mesmo quando a vacina for aprovada, ela será precisa em grandes quantidades, superiores à capacidade de produção. Além disso, de acordo com Jonathan Quick, especialista em saúde mundial da Duke University na Carolina do Norte, conseguir uma vacina segura e eficaz é apenas um dos primeiros passos para a imunização global.

Depois, há barreiras políticas e económicas que podem interferir neste processo. Além de ser necessário estabelecer prioridades relativamente aos grupos a imunizar primeiro (o que até pode ser relativamente simples na maioria dos casos), num cenário de pandemia como este, a competição entre países pela vacina será o cenário mais provável.

É que se as pandemias afetam sempre mais os países frágeis e pobres, com sistemas de saúde mais carentes, também são esses os territórios com mais dificuldade em conseguir disputar e obter as vacinas. Foi, aliás, isso mesmo que aconteceu em 2009, durante a pandemia da gripe H1N1, como lembra o The Guardian.

vacinação coronavírus

Conclusão

Ainda há muito por saber e muitos cenários em aberto sobre esta matéria. Contudo, muitos especialistas acreditam que a pandemia irá atingir o seu pico e declínio, antes mesmo de estar disponível uma vacina.

É certo que a vacina COVID-19 pode ajudar a salvar muitas vidas, especialmente se o vírus se tornar endémico ou sazonal. Porém, para já, o desafio é apostar na sua contenção, praticando sempre que possível o isolamento, e lavando as mãos bem e frequentemente.

Fonte: The Guardian

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