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Teresa Campos
Teresa Campos
25 Mai, 2020 - 17:09

Por que podemos não vir a ter uma vacina para a COVID-19?

Teresa Campos

Políticos de todo o mundo têm sido mais cautelosos acerca da descoberta de uma vacina para a COVID-19. E há razões para isso…

Mulher a tomar a vacina da gripe

É difícil subestimar a importância de uma vacina para a COVID-19. Afinal, ela seria o meio mais rápido de voltar a uma vida normal. Por isso, investigadores e governos de todo o mundo têm-se empenhado nessa missão.

Porém, enquanto os testes têm avançado e há acordos a serem assinados com milhares de voluntários para avaliar os efeitos de diversas vacinas, até ao momento descobertas, os ministros e conselheiros de todo o mundo têm-se tornado mais cautelosos, acerca deste tema. Mas porquê?

Por que é que a vacina para a COVID-19 pode falhar?

Médico mostra ensaio de vacina para a Covid-19

Recentemente, Jonathan Van-Tam, vice-diretor dos serviços britânicos na área da saúde, disse aquilo que ninguém queria ouvir. Segundo as suas palavras, não podemos ter a certeza de que vai existir uma vacina para a COVID-19.

Contudo, ele poderá ter razão. As vacinas são algo simples na teoria, mas complexas na prática. A vacina ideal protege de infeções, previne a propagação de uma doença e faz tudo isto de forma segura. Mas nada disto é facilmente alcançável, como a história das vacinas prova.

Trinta anos depois dos cientistas terem isolado o VIH, o vírus que causa a SIDA, ainda não existe uma vacina. A febre provocada pelo dengue, vírus identificado em 1943, só teve a sua primeira vacina aprovada em 2019 (76 anos depois!) e, mesmo assim, piora a infeção em algumas pessoas. A vacina que foi desenvolvida no menor espaço de tempo foi contra a papeira. Demorou 4 anos a ser aprovada!

A família dos coronavírus

Os cientistas já trabalharam em vacinas para outros coronavírus. Portanto, não estão a “começar do zero”. Já dois coronavírus causaram surtos letais no passado, nomeadamente o Sars e o Mers. Porém, nenhuma vacina obteve licença, em parte porque o Sars desapareceu e o Mers tornou-se local, concentrando-se na região do Médio Oriente. Claro que todas estas experiências e aprendizagens podem ajudar a criar uma vacina para a COVID-19, mas ainda há muito para saber sobre este vírus em concreto…

Uma das preocupações é que os coronavírus tendem a não “oferecer” uma imunidade de longa duração. Cerca de um quarto das constipações comuns, que todos temos anualmente, são causadas por coronavírus humanos. Porém, a resposta imunitária desaparece tão rapidamente que as pessoas podem ficar novamente infetadas, logo no ano seguinte.

O que dizem e o que estão a fazer os cientistas?

Investigadores da Universidade de Oxford analisaram recentemente sangue de um indivíduo recuperado da COVID-19 e descobriram que os níveis de anticorpos IgG (responsáveis por uma imunidade de longa duração) sobem consideravelmente no primeiro mês após a infeção, mas depois começam logo a decair.

Também cientistas da Rockefeller University, em Nova Iorque, concluíram que a maioria dos recuperados da COVID-19 que não foram hospitalizados não “ganharam” um número significativo de anticorpos, em relação ao novo coronavírus.

Stanley Perlman, investigador “veterano” em coronavírus da Universidade do Iowa, diz que estas particularidades do vírus (descritas anteriormente) é que o tornam especialmente desafiante. Se a infeção não dá imunidade suficiente, o que é que a vacina vai fazer? Se a vacina só proteger por um ano, o vírus permanecerá na mesma entre nós durante algum tempo.

Estabilidade do vírus

A estabilidade do virus também importa. Alguns vírus, como o Influenza, mudam tão rapidamente que quem desenvolve uma vacina para eles tem de criar novas fórmulas todos os anos. Por exemplo, a rápida evolução do vírus VIH é uma das principais razões para ainda não existir uma vacina para esta doença.

Para já, o Sars-CoV-2 parece ser relativamente estável, embora sofra mutações, como acontece com todos os vírus. Algumas alterações genéticas foram identificadas na proteína do vírus, a qual serve de base para a maioria das vacinas. Se essa proteína sofrer muitas mutações, os anticorpos “fornecidos” por uma vacina serão, rapidamente, inócuos e não irão prevenir a infeção.

Martin Hibberd, Professor de Doenças Infeciosas Emergentes da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, ajudou a identificar algumas mutações no vírus, a que chama de “aviso prévio”.

Outro desafio: fazer uma vacina segura

Na “corrida” para desenvolver uma vacina para a COVID-19 (há mais de 100 em estudo ou preparação), a segurança tem de continuar a ser uma prioridade. Ao contrário dos fármacos experimentais para os doentes mais graves, a vacina vai ser administrada a biliões de pessoas saudáveis.

Isto significa que os cientistas têm de procurar com extremo cuidado por efeitos secundários perigosos. Em 2004, durante a busca por uma vacina para a Sars, os cientistas descobriram que uma das vacinas “candidatas” causava hepatite nos furões.

Outra grande preocupação é se a indução de anticorpos, produzidos pela vacina, vai piorar o prognóstico de futuras infeções. Isso aconteceu em animais que receberam vacinas experimentais para o Sars e para o Mers, causando graves lesões pulmonares.

John McCauley, Diretor do Worldwide Influenza Centre no Francis Crick Institute, diz que demora tempo a perceber os desafios específicos que cada vacina coloca. Além disso, McCauley sublinha que ainda não há experiência suficiente para lidar com este vírus ou os seus componentes.

Doente crónico a ser vacinado contra a gripe

Será descoberta uma vacina para a COVID-19. Mas, e depois?

De um modo geral, todos os cientistas concordam que as diversas pesquisas em curso vão surtir frutos e permitir o acesso a algo melhor do que aquilo que para já temos, seja um medicamento, seja uma vacina.

Porém, convém ter também em conta que a vacina para a COVID-19 não será 100% eficaz. Os projetos até agora em desenvolvimento, traçam oito abordagens diferentes, desde enfraquecer ou inativar o vírus, até tecnologias que mexem com o código genético das células do destinatário, de modo a que o sistema imunitário consiga produzir anticorpos.

Idealmente, uma vacina vai gerar resistência, elevados níveis de anticorpos para destruir o vírus e as células “T”, capazes de destruírem as células infetadas. Mas cada vacina é diferente e, atualmente, ninguém sabe que tipo de resposta imunitária é suficientemente boa.

David Heymann, que liderou a equipa de resposta da Organização Mundial de Saúde (OMS) à epidemia de Sars, diz mesmo que ainda não sabemos se uma vacina consegue produzir uma resposta imunitária que nos proteja de uma infeção futura.

O que foi testado, até agora?

Resultados recentes de duas vacinas pioneiras indicam que elas podem ter alguma utilidade. A empresa de biotecnologia americana Moderna, identificou em 25 pessoas que tinham recebido a vacina níveis de anticorpos semelhantes àqueles encontrados em pacientes recuperados da COVID-19.

Outra vacina, esta da Universidade de Oxford, não impediu os macacos de contraírem o vírus, mas aparentemente preveniu a evolução da doença para pneumonia, a principal causa de morte dos pacientes com COVID-19. Se os humanos reagirem da mesma forma, as pessoas vacinadas continuarão a contrair e a propagar o vírus, mas será menos provável morrerem dele.

O modo como a vacina funciona determina o seu uso. Com uma vacina altamente eficaz, que protege durante alguns anos, os países podem apostar numa imunidade de grupo, protegendo pelo menos dois terços da população.

Parcialmente eficazes

Em média, os pacientes com COVID-19 transmitem o vírus a 3 pessoas mas, se duas ou mais estiverem imunes, o surto pára. Este é o cenário ideal. Muito provavelmente, de acordo com os especialistas, a pandemia irá terminar com uma ou mais vacinas que irão ser parcialmente eficazes.

Por exemplo, vacinas que têm estirpes enfraquecidas do vírus podem ser perigosas para os idosos, mas podem ser administradas aos mais jovens, com sistemas imunitários mais robustos, de maneira a reduzir a propagação da infeção. Entretanto, as pessoas mais velhas podem receber vacinas que, simplesmente, previnam a evolução da doença para situações de risco como a pneumonia.

John McCauley, Diretor do Worldwide Influenza Centre no Francis Crick Institute, afirma que se não se conseguir induzir a imunidade, é necessário desenvolver uma outra estratégia, capaz de reduzir ou controlar as consequências mais graves da infeção.

Ainda assim, mesmo as vacinas parcialmente eficazes têm os seus próprios problemas. Por exemplo, uma vacina incapaz de impedir o vírus de se multiplicar pode potenciar a evolução e resistência de outras estirpes, tornando a sua toma redundante.

vacina COVID19

Então, o vírus veio para ficar?…

A resposta é sim. A esperança de eliminar um vírus começa na vacina, mas não acaba nela. Larry Brilliant, CEO da Pandefense Advisory, declara que se tivermos uma vacina que dê apenas um ano de proteção, então estamos “condenados” a que a COVID-19 se torne uma doença endémica, uma infeção que esteja sempre connosco. Mesmo com uma vacina, cujos efeitos durassem anos, o vírus seria difícil de conquistar, ou seja, de eliminar.

Brilliant também liderou o programa de erradicação da varíola (OMS). Porém, segundo ele, será mais difícil “vermo-nos livres” da COVID-19 do que da varíola. Isto porque com a varíola era pelo menos claro quem estava infetado, enquanto que com o novo coronavírus as pessoas podem estar a transmitir o vírus sem o saber.

Outra questão é que enquanto uma infeção se expande num país, todas as outras nações também estão em risco. Para Brilliant, o vírus irá comportar-se como uma bola de ping-pong e “andar para trás e para a frente”, no que respeita ao tempo, mas também à localização.

A proposta da organização internacional Gavi, the Vaccine Alliance, é aumentar ao máximo a disponibilização de vacinas em todo o mundo, através de um compromisso de mercado.

Brilliant acredita que algum tipo de acordo deveria ser feito agora, ou seja, uma espécie de conferência global, onde se decidisse o que se iria fazer quando se conseguisse uma vacina.

Se conseguir a vacina, testá-la, prová-la, produzi-la, planear a sua distribuição e contruir um programa de vacinação mundial demora tempo, então devemos começar a prepará-lo agora, segundo o especialista.

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Como vamos (con)viver com o vírus?

Tendo em conta tudo o que já foi dito, esta é a questão que se impõe. As pessoas vão ter de se adaptar e a vida vai mudar.

David Heymann, que liderou a equipa de resposta da Organização Mundial de Saúde (OMS) à epidemia de Sars, afirma que todos nos vamos ter de habituar a monitorizar as infeções, através de períodos de confinamento e contenção do surto. Além disso, a população em geral tem de continuar a fazer a sua parte, lavando as mãos, mantendo o distanciamento físico e evitando ajuntamentos, especialmente em espaços fechados.

De acordo com Heymann, medicamentos já usados são mais rápidos de testar do que as vacinas. Por isso, pode haver um tratamento antiviral ou um anticorpo que seja disponibilizado, antes da vacina. Além disso, iniciar o tratamento dos sintomas, assim que eles surgem, pode pelo menos ser uma forma de reduzir a taxa de mortalidade.

Regras para ficar

Yuen Kwok-yung, Professor de Doenças Infeciosas na Universidade de Hong Kong, aconselhou o governo chinês a “descontrair” no que toca ao distanciamento social, desde que as pessoas usem máscaras em espaços fechados como nos comboios ou nos locais de trabalho. Além disso, recomendou que não fosse consumida comida ou bebidas nos espetáculos e cinemas.

Nos restaurantes, as mesas têm de estar protegidas e os empregados devem seguir normas rigorosas de segurança e higiene, de forma a evitar a propagação do vírus. De acordo com Yuen Kwok-yung, na perspetiva de Hong-Kong, o uso correto e frequente de máscaras reutilizáveis é a medida mais importante.

Sarita Jane Robinson, psicóloga que estuda as respostas humanas às ameaças na University of Central Lancashire, adianta que as pessoas ainda se estão a adaptar a este “novo normal” e que, sem outras medidas (como multas por não usarem máscara, por exemplo), as pessoas podem retornar a “antigos” hábitos e comportamentos.

Segundo Robinson, podemos ficar mais relaxados, mesmo em relação às mortes por COVID-19, assim que se retomem algumas rotinas e os media avancem para outros temas e notícias. Ainda assim, a gravidade da doença será difícil de ignorar.

Conclusão

Há, ainda, uma outra possibilidade, que nos pode “poupar” muito trabalho e preocupação. Alguns cientistas referem que outros coronavírus (atualmente, causadores de constipações comuns) também provocaram, no passado, doenças igualmente graves, até “assentarem”.

Claro que segundo Stanley Perlman, investigador “veterano” em coronavírus da Universidade do Iowa, se o vírus não mudar nos próximos 5 anos, não há razão para achar que, miraculosamente, ele vá deixar de causar pneumonia, em algumas pessoas. Todavia, ainda há esperança de que a sua evolução seja para uma doença com sintomas mais leves, como uma gripe ou constipação.

Heymann conclui que ainda é muito cedo para saber como a pandemia vai acabar. Os especialistas ainda não conseguem traçar o destino deste vírus. Ele irá continuar a circular, depois desta primeira pandemia? Ou, como outras pandemias virais, ele vai desaparecer ou tornar-se menos virulento? Isso é o que ainda ninguém sabe…

Fontes: The Guardian/The Observer/OMS

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