Share the post "Um voo para Faro acabou em Madrid: sequestro de avião da TAP contado em filme da Netflix"
Um adolescente de apenas 16 anos, uma pistola, dezenas de passageiros feitos reféns e um avião obrigado a mudar de rota. O episódio parece saído de um argumento de cinema, mas aconteceu mesmo. E a Netflix quer contar a história.
Em maio de 1980, um jovem sequestrou um avião da TAP e obrigou a tripulação a seguir para Madrid, num dos acontecimentos mais invulgares da história da aviação portuguesa.
A história vai chegar agora ao pequeno ecrã. Chama-se Operação TAP e será o primeiro filme da Netflix produzido em Portugal.
As gravações já arrancaram, numa aposta que recupera um episódio real e pouco conhecido do passado português, cruzando suspense, drama e uma dimensão humana que promete ir além do próprio sequestro.
Sequestro do voo TP 131: o «Piratinha do Ar»
O protagonista desta história chama-se Rui Rodrigues. Ficou conhecido na imprensa como o «Piratinha do Ar», uma alcunha que dificilmente poderia ser mais improvável para um episódio que envolveu uma ameaça com arma de fogo e dezenas de pessoas em perigo.
A 6 de maio de 1980, Rui tinha 16 anos e vivia no Feijó, na margem sul do Tejo. Comprou um bilhete para o voo TP 131 da TAP, que fazia a ligação entre Lisboa e Faro.
O avião era um Boeing 727-100, chamado «Bissau», e transportava 83 passageiros e sete tripulantes.
O jovem não embarcou, porém, com a intenção de chegar ao Algarve. Levava consigo uma pistola do pai, escondida no interior de um rádio portátil, e tinha preparado um plano para obrigar o avião a mudar de destino. Queria chegar a Madrid.
Na altura, os procedimentos de segurança aeroportuária eram bastante diferentes dos atuais.
Os passageiros e a bagagem de mão não estavam sujeitos aos mesmos controlos de raio-X que hoje fazem parte da rotina de qualquer viagem aérea. Rui conseguiu, por isso, passar com a arma sem levantar suspeitas.
Rumo à capital espanhola

Já depois da descolagem, dirigiu-se à casa de banho, retirou a pistola do rádio e entrou na cabine de pilotagem. Apontou a arma aos pilotos e exigiu que o avião seguisse para Madrid.
A situação apanhou a tripulação completamente desprevenida. José Correia Guedes, então copiloto do Boeing 727, recordou mais tarde o momento em que ouviu o adolescente gritar que queria ir para a capital espanhola.
O comandante Armando Coutinho Ramos e os restantes elementos da tripulação tiveram de cumprir a ordem.
Para evitar o pânico a bordo, os pilotos informaram os passageiros de que a alteração de rota se devia a razões meteorológicas. Uma explicação pouco convincente, sobretudo para quem olhava pela janela…
O avião acabou por aterrar no aeroporto de Barajas, em Madrid, onde as autoridades espanholas já aguardavam a aeronave.
Um resgate milionário e uma fuga para a Suíça
O objetivo de Rui Rodrigues não era simplesmente obrigar a TAP a alterar o percurso. O adolescente tinha exigências concretas e pretendia receber 10 milhões de dólares e conseguir um salvo-conduto que lhe permitisse viajar em segurança para a Suíça.
Algumas notícias da época e relatos posteriores apontaram para um pedido que poderia chegar aos 20 milhões de dólares.
A exigência de dinheiro fazia parte de um plano que o jovem terá preparado durante algum tempo, com o propósito de abandonar a casa dos pais.
Em Madrid, as negociações prolongaram-se durante horas. O embaixador português em Espanha, João de Sá Coutinho, participou na mediação, enquanto as autoridades procuravam uma solução que permitisse libertar os passageiros sem colocar vidas em risco.
A situação era delicada. O avião estava rodeado por forças de segurança espanholas, preparadas para intervir caso as conversações falhassem. Entretanto, começaram a sair os primeiros passageiros, incluindo mulheres e crianças. Os restantes foram sendo libertados à medida que as negociações avançavam.
Relação com o copiloto
Um dos aspetos mais surpreendentes deste episódio foi a relação que se estabeleceu entre o sequestrador e José Correia Guedes.
O copiloto procurou manter o jovem tranquilo e encontrar uma forma de resolver a situação sem recurso à força. A confiança acabou por crescer ao longo da noite, num contexto em que qualquer gesto podia fazer a diferença.
O próprio Rui chegou a pedir desculpa aos pilotos pelo trabalho adicional que lhes estava a dar com a mudança do plano de voo. Uma frase insólita, tendo em conta que estavam todos no interior de um avião sequestrado.
No final, a tripulação também teve oportunidade de abandonar a aeronave, mas decidiu permanecer a bordo até ao desfecho da situação.
Rui acabou por entregar a arma, embora tenha mantido uma das balas, num momento particularmente tenso que o copiloto recordaria anos mais tarde.
O avião voltou a descolar de Madrid com destino a Lisboa e o jovem acabou por se entregar às autoridades. Não houve vítimas mortais nem feridos entre os passageiros e os tripulantes.
O que aconteceu após o sequestro?

A história não terminou quando o avião aterrou em Portugal. Rui Rodrigues foi detido e ficou em prisão preventiva, mas o comportamento demonstrado durante o sequestro e a ausência de vítimas acabaram por marcar a forma como o caso foi acompanhado pela opinião pública.
José Correia Guedes manteve contacto com o jovem depois do episódio. Chegou mesmo a recebê-lo em casa, depois de este sair da prisão, e testemunhou a seu favor durante o julgamento.
Rui Rodrigues acabou condenado a uma pena suspensa. O copiloto, por sua vez, recordou o caso como uma experiência profundamente invulgar, que ultrapassou a relação convencional entre sequestrador e reféns.
Apesar da aproximação entre os dois, o antigo piloto contou mais tarde que Rui não gostava particularmente de recordar o sucedido.
«Operação TAP»: Netflix produz em Portugal
É precisamente este episódio que serve de inspiração ao filme Operação TAP, a nova aposta da Netflix na ficção portuguesa.
O projeto será o primeiro filme da Netflix produzido em Portugal, depois de a plataforma ter investido em séries nacionais como Glória e Rabo de Peixe, que alcançaram visibilidade internacional.
A realização está a cargo de João Nuno Pinto, cineasta que assinou filmes como Mosquito e 18 Buracos para o Paraíso. O argumento é da responsabilidade de Pedro Lopes, Miguel Rico e Marina Preguiça Ribeiro.
No elenco principal encontram-se os atores Rui Pedro Silva, Afonso Pimentel e Victoria Guerra. A produção pertence à SPi, marca internacional do Grupo SP Televisão, que esteve também por detrás de Glória, a primeira série portuguesa original da Netflix. Para já, a Netflix ainda não revelou uma data de estreia.