A Black Friday chega no fim de novembro e o Natal menos de um mês depois. São duas ondas de compras seguidas, e quem começa a planear já em novembro consegue poupar no Natal sem chegar a janeiro com a conta a zeros.
Os números ajudam a perceber a pressa. No Natal de 2025, as famílias portuguesas contavam gastar em média 398 euros em compras de Natal, segundo a 17.ª edição do estudo Compras de Natal do IPAM. Na Black Friday desse ano, a intenção de gasto médio chegou aos 210 euros. Somados, dão 608 euros em pouco mais de quatro semanas, com a ressalva de que vêm de inquéritos diferentes.
Faça o orçamento de Natal antes da Black Friday
Para poupar no Natal, a ordem conta. Primeiro decide-se o que o Natal vai custar; só depois a Black Friday entra em cena, para comprar mais barato o que já estava previsto. Ao contrário, são os descontos que definem o orçamento. Para fazer as contas, bastam três passos:
- Liste as pessoas a quem vai oferecer prendas e defina um teto por prenda;
- Junte a ceia, a decoração, as deslocações e os jantares de grupo de dezembro;
- Some tudo e divida pelas semanas que faltam até 24 de dezembro.
Um exemplo concreto: oito prendas a 25 euros dão 200 euros. A ceia, pela média do IPAM para quem compra produtos típicos, ronda os 150 euros. Com mais 80 euros para jantares e deslocações, o total chega aos 430 euros. A partir do início de novembro, há cerca de sete semanas até à véspera de Natal: 430 ÷ 7 = cerca de 61 euros por semana.
A lista de prendas é o filtro da Black Friday. O que não está na lista não é poupança, é despesa extra. Para afinar os valores, veja como criar e gerir um orçamento para o Natal.
Onde ir buscar o dinheiro sem usar o cartão de crédito
Há um desencontro de calendário que apanha muitas famílias. A Black Friday acontece no fim de novembro, mas o subsídio de Natal só tem de ser pago até 15 de dezembro, nos termos do artigo 263.º do Código do Trabalho. Quem quer comprar nos descontos sem o subsídio na conta acaba tentado pelo crédito.
A saída mais simples é separar já, do ordenado de novembro, a parte do orçamento que vai para a Black Friday. Se não chegar, compre na Black Friday só o que é mais caro e tem desconto real, e deixe o resto para quando o subsídio entrar. Para saber com o que conta, consulte até quando é pago o subsídio de Natal e como se calcula.
Já o cartão de crédito pede cuidado. Um desconto de 20% num artigo de 300 euros poupa 60 euros. Se a compra for paga em prestações ou ficar a rolar no cartão, os juros podem comer essa poupança em poucos meses. Se não consegue pagar a fatura do cartão por inteiro no mês seguinte, o desconto deixa de compensar.
De onde vem a Black Friday
O nome nasceu longe das lojas. Nos anos 50 e 60, a polícia de Filadélfia, nos Estados Unidos, chamava “Black Friday” à sexta-feira a seguir ao Dia de Ação de Graças. Nesse dia, milhares de pessoas enchiam o centro da cidade para as compras de Natal e para o jogo anual de futebol americano entre o Exército e a Marinha. Os agentes não tinham folga e passavam o dia entre trânsito, multidões e furtos.
Os comerciantes tentaram mudar o nome para “Big Friday”, sem sucesso. Mais tarde, popularizou-se outra explicação: seria o dia em que as lojas passavam do vermelho dos prejuízos para o preto dos lucros. É uma história simpática, mas não é a original. Só nos anos 80 o termo se espalhou pelos Estados Unidos como dia de descontos, chegando depois à Europa e a Portugal.
Como confirmar se o desconto da Black Friday é real
Desde maio de 2022, as lojas têm de indicar, junto ao novo preço, o preço mais baixo praticado nos 30 dias consecutivos anteriores à redução, e o desconto tem de ser calculado sobre esse valor. A regra resulta do Decreto-Lei n.º 70/2007, na redação dada pelo Decreto-Lei n.º 109-G/2021, e aplica-se nas lojas físicas e online.
Na prática, funciona assim: um artigo que custava 100 euros esteve a 80 euros há duas semanas. Se a loja anunciar “-20%” e o vender a 80 euros, a poupança real é zero, e o preço de referência correto seria 80, não 100.
Outro truque comum é usar o preço de venda ao público recomendado (PVPR) como base do desconto. A DECO PROteste avisa que o PVPR nem sempre corresponde ao preço mais baixo dos últimos 30 dias, o que pode inflacionar a percentagem anunciada.
Comece hoje: escolha os três produtos mais caros da sua lista e anote o preço de cada um em três lojas. Repita na semana da Black Friday. Os comparadores de preços com histórico ajudam, mas uma captura de ecrã com data também serve de prova. Se o desconto não bater certo, peça o livro de reclamações ou use o eletrónico. Há mais estratégias para poupar realmente na Black Friday.
Trocas, devoluções e entregas: o que muda quando compra cedo
Comprar prendas um mês antes ajuda a poupar no Natal, mas tem um efeito que pouca gente calcula: o prazo de troca pode acabar antes de a prenda ser aberta. E as regras não são iguais em todo o lado.
Nas compras online, há 14 dias seguidos para devolver sem dar justificação, a contar da receção da encomenda, ao abrigo do Decreto-Lei n.º 24/2014. Ficam de fora, por exemplo, os produtos personalizados. Nas lojas físicas, a lei não obriga a aceitar trocas de artigos sem defeito; depende da política de cada loja.
Antes de pagar, pergunte qual é o prazo de troca e se a loja o alarga para compras feitas na Black Friday. Peça sempre talão de oferta. Se o artigo tiver defeito, a situação muda: a garantia legal de bens novos é de três anos, quer a compra seja online quer seja em loja.
Nas encomendas online, conte também com atrasos. Entre a Black Friday e o Natal, o volume de encomendas dispara, por isso confirme o prazo de entrega antes de pagar e deixe margem de uma ou duas semanas. Se a encomenda não chegar, saiba como reaver o dinheiro quando a loja online não entrega.
Novembro decide como começa janeiro
Faça as contas: 61 euros por semana desde já, ou 430 euros de uma vez em dezembro, provavelmente no cartão. O valor das prendas é o mesmo. O que muda é quem fica com a diferença: a sua conta ou o banco, em juros.
Prepare o Natal sem desequilibrar o orçamento. Subscreva a newsletter do Ekonomista: todas as semanas, as mudanças que afetam o seu orçamento e as estratégias para poupar mais.
Britannica. (s.d.). Why is it called Black Friday? Encyclopaedia Britannica. https://www.britannica.com/story/why-is-it-called-black-friday
DECO PROteste. (2026, abril 10). Trocas e devoluções: direitos do consumidor explicados. https://www.deco.proteste.pt/familia-consumo/direitos-consumidor/noticias/devolucoes-trocas-produtos
DECO PROteste. (s.d.). Melhores oportunidades de compra hoje. https://www.deco.proteste.pt/oportunidades
Despacho n.º 12523-A/2026, de 14 de outubro. (2026). Diário da República n.º 199/2026, Suplemento, Série II. https://info.portaldasfinancas.gov.pt/pt/informacao_fiscal/legislacao/diplomas_legislativos/Documents/despacho-12523-a-2026.pdf
Despacho n.º 12610-A/2026, de 15 de outubro. (2026). Diário da República, Série II. https://info.portaldasfinancas.gov.pt/pt/informacao_fiscal/legislacao/diplomas_legislativos/Documents/despacho-12610-a-2026.pdf
Pruitt, S. (2025, novembro 24). What’s the real history of Black Friday? History. https://www.history.com/articles/black-friday-thanksgiving-origins-history