Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
03 Nov, 2026 - 13:00

Código QR falso no parquímetro: 5 sinais antes de pagar

Cláudia Pereira

Um código QR falso no parquímetro leva a uma página que rouba os dados do cartão. Veja os 5 sinais de alerta e o que fazer se já pagou o estacionamento.

Estacionou, não tem moedas e o parquímetro tem um código QR colado. Aponta a câmara, abre-se uma página com ar oficial e pede os dados do cartão. É neste gesto de dez segundos que funciona a burla do código QR falso no parquímetro.

O esquema é simples: alguém cola um autocolante com um código fraudulento por cima do verdadeiro, ou num parquímetro que nunca teve código nenhum. O condutor julga que está a pagar o estacionamento, mas está a entregar o número do cartão, a validade e o código de segurança a um burlão.

O prejuízo raramente fica pelo valor do estacionamento. Com os dados do cartão na mão, o burlão pode usá-los para outras compras, e recuperar esse dinheiro depende da rapidez com que avisa o banco.

Como funciona a burla do QR falso no parquímetro

Um código QR falso num parquímetro (ou QR code falso) é um autocolante que encaminha o condutor para uma página fraudulenta, criada para imitar o operador de estacionamento. Em regra, a página pede os dados do cartão bancário, com o objetivo de roubar dinheiro e dados, não cobrar o estacionamento.

A técnica tem nome: quishing, a junção de QR com phishing. Funciona porque um código QR, ao contrário de um link escrito, não deixa ver para onde leva antes de ser lido. Para conhecer a técnica em geral, veja como funciona o quishing e onde aparece.

O parquímetro é apenas um dos locais escolhidos. A ESET Portugal refere casos de códigos falsos em parquímetros, bicicletas partilhadas e outros serviços de pagamento, ou seja, onde as pessoas já esperam encontrar um código. As ementas dos restaurantes são outro alvo, e o Ekonomista explica como evitar o código QR falso na mesa do restaurante.

Segundo a ESET Portugal, as fraudes com códigos QR foram a sétima ameaça por email mais detetada no país entre dezembro de 2025 e maio de 2026, com 4,8% das deteções. Não são conhecidos números oficiais sobre casos em parquímetros em Portugal, mas há autoridades noutros países europeus que já emitiram alertas, como uma câmara municipal escocesa, depois de um condutor ter sido burlado num parquímetro em 2025.

5 sinais de que o código QR foi adulterado

A maioria dos códigos falsos deixa pistas. Antes de apontar a câmara, olhe para o parquímetro durante cinco segundos:

  1. O autocolante parece colado por cima de outro. Bordos levantados, bolhas de ar, um código desalinhado ou uma moldura com outra cor indicam que alguém acrescentou um código ao equipamento;
  2. O parquímetro não tinha código nenhum. Nem todos os operadores usam códigos QR. Se nas zonas habituais nunca viu um código impresso, desconfie do que apareceu agora;
  3. O endereço não é o do operador. Na maioria dos telemóveis, a câmara mostra o endereço antes de o abrir. Um nome parecido com o oficial, com uma letra trocada ou uma terminação estranha, é razão para parar;
  4. A página pede logo os dados do cartão. Um formulário que pede número, validade e código de segurança merece desconfiança redobrada. Confirme no site oficial do operador se esse meio de pagamento existe;
  5. Há pressa ou ameaça de multa. Mensagens como “pague já para evitar o reboque” servem para impedir que pense duas vezes.

Como pagar o estacionamento sem correr riscos

A forma mais segura de pagar é não depender de um código colado. Há três alternativas, todas sem surpresas.

A primeira é pagar no próprio parquímetro, com moedas ou cartão, quando o equipamento o permite. A segunda é usar a aplicação de estacionamento que já tem instalada, descarregada da loja oficial do telemóvel. Alguns operadores colam códigos oficiais para descarregar a aplicação, mas procurá-la diretamente na loja reduz o risco de cair num código falso. Se ainda não usa nenhuma, compare as aplicações para pagar o parquímetro com o telemóvel disponíveis na sua cidade.

A terceira merece atenção. Alguns parquímetros com pagamento MB WAY mostram um código QR no ecrã depois de escolher o tempo de estacionamento. Esse código é gerado pelo próprio equipamento e não se lê com a câmara do telemóvel, mas dentro da aplicação: abre-se a aplicação, escolhe-se a opção “Pagar com MB WAY” e confirma-se o pagamento, tal como nos terminais Multibanco. É um processo diferente de ler com a câmara um autocolante impresso.

Já leu o código e pagou? O que fazer nas primeiras horas

Se introduziu os dados do cartão numa página suspeita, não espere pelo extrato. A ordem certa é esta:

  1. Ligue para o banco pela linha de apoio que está no verso do cartão ou na aplicação oficial, e peça o cancelamento do cartão;
  2. Verifique os movimentos da conta e identifique as operações que não reconhece;
  3. Conteste por escrito as operações não autorizadas e guarde o comprovativo;
  4. Apresente queixa na PSP, na GNR ou através da Queixa Eletrónica, que aceita queixas por burla, juntando a fotografia do autocolante, se a tiver.

A lei está do lado do consumidor, com limites. O Decreto-Lei n.º 91/2018 obriga o banco a devolver uma operação não autorizada logo que tem conhecimento dela, o mais tardar até ao fim do dia útil seguinte, salvo se tiver motivos razoáveis para suspeitar de fraude e os comunicar por escrito ao Banco de Portugal. A comunicação deve ser feita sem atraso injustificado e nunca depois de 13 meses a contar do débito.

O banco pode alegar negligência grosseira por ter introduzido os dados numa página falsa. Nesse caso, o cliente pode suportar as perdas, mas cabe ao banco provar essa negligência, e a alegação não é automática. E se foi o próprio a confirmar o pagamento na página falsa, a análise pode ser diferente: o banco pode considerar que a operação foi autorizada, o que torna a recuperação mais difícil. Por isso, quanto mais cedo avisar, melhor.

Se o banco recusar devolver o dinheiro, peça a justificação por escrito e reclame junto do Banco de Portugal, no Portal do Cliente Bancário. E se os dados que entregou foram além do cartão, siga também os passos sobre o que fazer nas primeiras 24 horas após um roubo de identidade online.

Na dúvida, o código fica por ler

O código QR é cómodo, mas nada obriga a usá-lo no parquímetro. Há quase sempre outra forma de pagar: no próprio parquímetro, na aplicação que já conhece ou no ecrã do equipamento através do MB WAY.

Um autocolante desalinhado ou um endereço estranho bastam para não avançar. Perder trinta segundos a procurar outra forma de pagar custa muito menos do que passar semanas a reclamar ao banco. E, se o código lhe parecer suspeito, comunique-o: quem estaciona a seguir agradece. Para conhecer os outros esquemas que circulam nestes locais, veja as burlas mais comuns nos parques de estacionamento.

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Fontes

Decreto-Lei n.º 91/2018, de 12 de novembro. Regime Jurídico dos Serviços de Pagamento e da Moeda Eletrónica. Diário da República, 1.ª série, n.º 217. https://www.bportugal.pt/sites/default/files/anexos/legislacoes/335415275_3.docx.pdf

East Lothian Council. (2025, 25 de abril). Warning over use of scam QR codes by fraudsters. https://www.eastlothian.gov.uk/news/article/14501/warning_over_use_of_scam_qr_codes_by_fraudsters

ESET Portugal. (2026, 20 de julho). Fraudes com códigos QR são a sétima ameaça por e-mail mais detetada em Portugal [Comunicado de imprensa]. https://www.eset.com/pt/about/imprensa/artigos/fraudes-com-codigos-qr-sao-a-setima-ameaca-por-e-mail-mais-detetada-em-portugal/

Ministério da Administração Interna. (s.d.). Queixa Eletrónica. https://queixaselectronicas.mai.gov.pt/

SIBS. (2018, 20 de março). Mais de 600 mil clientes MB WAY já podem pagar com QR Code [Comunicado de imprensa]. https://sibs-sites.sibs.pt/multibanco/wp

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