Share the post "Burlas nos parques de estacionamento: nunca pague no local"
Acabou de fazer marcha-atrás no parque do supermercado. Um desconhecido bate no vidro, aponta para um risco no carro dele e quer resolver o assunto ali mesmo, sem seguro nem polícia. É assim que começa uma das burlas nos parques de estacionamento que mais cresce em Portugal.
O falso acidente não está sozinho. Há também avisos de multa falsos deixados no para-brisas e códigos QR colados por cima dos verdadeiros nos parquímetros. Os três esquemas têm o mesmo motor: pressa, medo de complicações e um pagamento feito no momento.
A PSP registou 853 denúncias de burla por falso acidente entre 2021 e 2025, e as vítimas são sobretudo pessoas com 70 ou mais anos. Saber reconhecer os sinais e o que fazer a seguir, pode evitar perder centenas ou milhares de euros.
Falso acidente é o esquema que mais cresce
Na burla do falso acidente, o burlão aborda o condutor durante uma manobra, quase sempre marcha-atrás e garante que houve um toque. Mostra um dano que já existia e exige dinheiro na hora, com o argumento de que assim se evita o seguro. Segundo a PSP, acontece sobretudo em parques de grandes superfícies comerciais e em ruas com pouco movimento, sem videovigilância.
O guião tem variações. Às vezes não há abordagem no parque: a vítima é seguida por outro carro e levada a parar com sinais de luzes ou gestos. Noutras, o suspeito alega um atropelamento e diz que partiu os óculos ou o telemóvel. Há ainda quem simule uma chamada para uma oficina, para dar um “orçamento” credível.
O truque do terminal de pagamento
A variante mais recente usa um terminal de pagamento automático (TPA) portátil. A vítima marca o PIN à frente do burlão, que aproveita a distração para trocar o cartão por outro parecido. Com o cartão verdadeiro e o código, segue-se uma série de levantamentos no Multibanco antes de a vítima perceber o que aconteceu. É por isso que os prejuízos estão a subir mais depressa do que as denúncias. A GNR registou um caso em que uma só vítima perdeu 15.450 euros.
O que fazer se for abordado
As recomendações da PSP e da GNR coincidem nos pontos essenciais:
- Não pague nada no local, nem em dinheiro nem em terminais apresentados por desconhecidos;
- Nunca entregue o cartão bancário nem marque o PIN à frente de terceiros;
- Fotografe os dois veículos e os alegados danos, e peça a identificação da outra pessoa;
- Trate o assunto pela declaração amigável ou pela seguradora, um acidente verdadeiro resolve-se assim;
- Se a pressão continuar, ligue o 112 e anote matrícula, marca, modelo e cor do carro.
Se estiver a ser seguido por um carro que faz sinais para encostar, a PSP aconselha a não parar. Se parar, que seja num local com movimento de pessoas.
Tem familiares mais velhos que conduzem? Partilhe estes cinco passos com eles, são o público alvo que os burlões procuram.
Multas falsas deixadas no para-brisas
O segundo esquema não precisa de contacto. O condutor volta ao carro e encontra um aviso muito parecido com os das empresas concessionárias de estacionamento, com uma referência Multibanco e um desconto de 50% se pagar em 24 horas. O dinheiro vai para os burlões.
Foi a Polícia Municipal de Vila Nova de Gaia que deu o alerta, depois de cidadãos desconfiarem dos papéis. A autoridade sublinhou que as suas notificações verdadeiras são preenchidas à mão e não dão prémios a quem paga depressa.
Como confirmar se a multa é verdadeira
O desconto relâmpago é o primeiro sinal de alarme. Depois, desconfie de referências de pagamento sem identificação clara da entidade, de horas improváveis e de ruas que não correspondem ao local onde estacionou.
Na dúvida, não use os contactos impressos no papel. Procure no site oficial da câmara municipal ou da empresa que gere o estacionamento e ligue para lá. Com o Decreto-Lei n.º 107/2018, as contraordenações leves por estacionamento proibido, indevido ou abusivo passaram para os municípios, por isso é a autarquia que confirma.
O mesmo vale para multas que chegam por SMS ou e-mail. O Ministério Público já alertou para mensagens falsas em nome da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), com ameaças de perda de pontos na carta e links para páginas que pedem os dados do cartão e o código SMS. A recomendação é ignorar e apagar a mensagem e, se já introduziu dados, contactar primeiro o banco.
QR codes falsos nos parquímetros
Pagar o estacionamento com o telemóvel tornou-se normal, e é aí que entra o terceiro esquema. O burlão cola um código QR por cima do verdadeiro, no parquímetro ou num poste ao lado. Quem o lê vai parar a uma página falsa que imita o serviço oficial e pede os dados do cartão.
O alerta mais recente veio das autoridades do Liechtenstein, em agosto de 2026. Em Portugal, não há casos confirmados nem números oficiais sobre este tipo de fraude nos parquímetros, mas o risco existe sempre que o pagamento é feito através de um código colado na rua.
Sinais de que o código foi adulterado
Repare se o autocolante está torto, levantado nas pontas ou colado por cima de outro. Depois de ler o código, confirme o endereço que aparece no ecrã antes de tocar em qualquer coisa. Um site para pagar uma ou duas horas de estacionamento não precisa de mais dados do que o cartão; se pedir o PIN, códigos de confirmação ou dados pessoais em excesso, pare.
A alternativa mais segura é instalar a aplicação oficial de estacionamento do município a partir da loja do telemóvel e pagar sempre por lá, ou usar o próprio parquímetro com moedas ou cartão.
E quando, apesar de tudo, o dinheiro já saiu da conta? Há passos que convém dar logo nas primeiras horas.
Já pagou? O que fazer nas primeiras horas
Nas burlas nos parques de estacionamento, o tempo conta. Se entregou o cartão, marcou o PIN à frente de alguém ou introduziu os dados numa página suspeita, ligue de imediato para a linha de cancelamento do seu banco e peça o bloqueio do cartão. Cada minuto dá aos burlões mais margem para levantar dinheiro.
Depois, peça ao banco a lista de movimentos e conteste por escrito os que não autorizou. Guarde tudo: fotografias, o aviso de multa falso, capturas de ecrã da página, a matrícula do outro carro.
Com esses elementos, apresente queixa na PSP, na GNR ou no Ministério Público. Mesmo que o valor seja pequeno, a denúncia conta, vários burlões só foram detidos porque as polícias juntaram queixas de vítimas diferentes.
Proteja o seu dinheiro antes que alguém o tente levar. Subscreva a newsletter do Ekonomista e receba todas as semanas os alertas de burlas, as mudanças que afetam o seu orçamento e as estratégias para poupar mais.
Decreto-Lei n.º 107/2018, de 29 de novembro. Diário da República, 1.ª série. https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/107-2018-117142873
Gabinete Cibercrime da Procuradoria-Geral da República. (2025, fevereiro 7). Alerta: phishing em nome da ANSR. https://cibercrime.ministeriopublico.pt/sites/default/files/editor-files/2025-02-07_alerta_phishing_ansr.pdf