Share the post "Empresas portuguesas mais sólidas desde 2019. E os salários?"
As empresas portuguesas terminaram 2025 com a situação financeira mais sólida dos últimos sete anos. O volume de negócios cresceu 7,4% e o valor acrescentado bruto (VAB) subiu 10%, segundo o estudo Panorama Empresarial Português 2026, da Iberinform, divulgado a 28 de outubro de 2026.
O retrato resulta da análise de 366.900 empresas não financeiras. O motor foi o mercado interno (consumo, investimento e construção), enquanto as vendas ao exterior perderam fôlego pelo terceiro ano seguido.
Há, no entanto, um número que estraga a fotografia. Por cada euro gasto com pessoal, as empresas geraram 1,80 euros de valor, abaixo dos 1,83 euros do ano anterior e dos 1,87 euros da média da União Europeia e é aqui que a conversa chega ao salário de quem trabalha.
O que mostram os números de 2025
A tabela resume os principais indicadores do estudo.
| Indicador | 2025 | Comparação |
| Volume de negócios | +7,4% | crescimento face a 2024 |
| Valor acrescentado bruto (VAB) | +10,0% | crescimento face a 2024 |
| Autonomia financeira | 48,8% | 48,0% em 2024 |
| Folga de tesouraria | 3,11 meses | 2,97 meses em 2024 |
| Taxa de exportação | 18,4% | 20,0% em 2024 |
| VAB por euro de custos com pessoal | 1,80 € | 1,83 € em 2024; 1,87 € na UE |
Dois destes indicadores merecem explicação. A autonomia financeira mede a parte do ativo de uma empresa que é financiada com capitais próprios, e não com dívida. Com 48,8%, quase metade do que as empresas têm assenta em dinheiro dos sócios e em lucros acumulados, o valor mais alto dos últimos anos, segundo a Iberinform.
A folga de tesouraria indica durante quanto tempo uma empresa aguentaria uma paragem da atividade com a liquidez de que dispõe. Subiu para 3,11 meses. Na prática, há mais margem para atravessar um trimestre difícil sem entrar em rutura.
Se tem um pequeno negócio, guarde estes dois indicadores: mais abaixo, veja como calculá-los para a sua empresa.
Porque é que o mercado interno continua a puxar pela economia
Em 2025, a procura interna cresceu 3,7%, mais 0,8 pontos percentuais do que em 2024. Já as exportações da economia aumentaram apenas 0,4%, o terceiro ano consecutivo de abrandamento, de acordo com a Iberinform.
Segundo o mesmo estudo, o investimento foi a componente mais dinâmica, com uma subida de 6%. A construção ganhou peso: passou de 7,7% para 8,1% da procura total, e o investimento no setor (formação bruta de capital fixo) cresceu 10,3%. A Iberinform associa este impulso à forte carência de oferta de habitação face ao aumento da procura.
O turismo é a exceção do lado externo. A quota de Portugal nas exportações mundiais de serviços de viagens passou de 1,2% em 2016 para 1,8% em 2024, o que coloca o país na 18.ª posição mundial e corresponde ao quinto maior aumento a nível mundial entre 2016 e 2024, segundo o relatório.
Nas empresas analisadas, porém, o cenário é outro. As exportações caíram 1,1% e a taxa de exportação desceu para 18,4% do volume de negócios, o valor mais baixo desde 2019.
Em 2026, o ciclo de execução do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) aproxima-se do fim. A Iberinform sublinha que a continuidade do investimento público vai depender da execução dos programas do Portugal 2030 e das opções do Orçamento do Estado.
Produtividade é o ponto fraco que pesa nos salários
O indicador de produtividade usado no estudo compara o valor criado com o custo do pessoal. Em números redondos fica mais claro: por cada 100 euros gastos com trabalhadores, as empresas portuguesas geraram 180 euros de VAB em 2025. Na média da União Europeia, foram 187 euros.
São menos 7 euros de valor por cada 100 euros de custos com pessoal. E a distância aumentou: face a 2024, as empresas perderam 3 euros por cada 100 euros (de 183 para 180 euros).
Porque caiu? Segundo a Iberinform, os custos salariais subiram mais depressa do que o valor produzido. O custo médio por trabalhador aproximou-se dos 26 mil euros, mais 4,9% do que em 2024. Este valor corresponde ao que cada trabalhador custa à empresa, não ao que recebe no fim do mês.
A ligação ao bolso de quem trabalha é direta. Os salários sobem de forma sustentável quando a produtividade acompanha. Se o custo do pessoal cresce mais do que o valor criado, as margens apertam e sobra menos espaço para novos aumentos. A Iberinform aponta a inovação, a qualificação e o investimento em atividades de maior valor acrescentado como o caminho para inverter a tendência.
O que estes números significam para o seu dinheiro
Para quem trabalha por conta de outrem, empresas com mais capitais próprios e mais liquidez têm, à partida, mais margem para atravessar um abrandamento sem medidas drásticas. E 2026 pede prudência: a Iberinform aponta a instabilidade geopolítica, as incertezas no comércio global e a subida das taxas de juro como riscos a vigiar. Se está a preparar uma conversa com a chefia, veja como fazer um pedido de aumento salarial com argumentos concretos.
Para quem tem um pequeno negócio, os dois indicadores do estudo servem de termómetro:
- Autonomia financeira = capitais próprios ÷ ativo total. Uma empresa com 50.000 euros de ativo e 24.400 euros de capitais próprios tem 48,8% — exatamente a média de 2025;
- Folga de tesouraria (aproximação) = liquidez disponível ÷ custos fixos mensais. Com 24.880 euros disponíveis e 8.000 euros de custos fixos por mês, a empresa aguenta 3,11 meses.
Ficar abaixo destes valores não é, por si só, sinal de alarme, depende do setor e da fase do negócio. Mas é um bom ponto de partida para uma conversa com o contabilista.
Já agora, a lógica da folga de tesouraria aplica-se também às contas da casa. É a mesma ideia de um fundo de emergência: saber quantos meses consegue pagar as despesas sem rendimento.
O que esperar até ao fim de 2026
A almofada existe, mas não é infinita. As empresas entraram em 2026 com menos dívida, mais liquidez e uma estrutura financeira mais equilibrada e, segundo a Iberinform, os dados não apontam para um cenário de alarme, mas sim para um contexto de gestão cautelosa.
O teste está na produtividade. Com o fim do PRR à porta e as exportações a perder peso, os aumentos de custos continuarão a apertar as margens se o valor criado não acompanhar. Não espere uma mudança de um ano para o outro, mas é aí que se decide o espaço para salários mais altos nos próximos anos.
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Iberinform. (2026, outubro 28). Empresas portuguesas com situação financeira mais sólida dos últimos sete anos [Comunicado de imprensa].