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Elsa Santos
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17 Jul, 2020 - 14:32

Sleep learning: aprender enquanto dorme

Elsa Santos

Sabia que é possível aprender coisas novas durante o sono? Há estudos que o confirmam. A técnica, essa, tem um nome, sleep learning.

cérebro de homem a ser analisado enquanto em sleep learning

O sleep learning parece ser a solução perfeita para quem quer saber mais, sem perder horas de sono.

Considerando que um terço do nosso dia é (ou deve ser) passado a dormir, é legítimo considerar a hipótese de aproveitar esse tempo para adquirir novas aprendizagens.

O método é usada há muito e reúne opiniões divergentes dentro da comunidade cientifica.

Absorver informações complexas ou adquirir uma nova habilidade do zero, ouvindo uma gravação de áudio enquanto repousa, é muito pouco provável que aconteça. No entanto, há pesquisas que mostram que o cérebro adormecido está longe de ficar “parado” e que algumas formas de aprendizagem podem funcionar. Resta determinar se o processo faz ou não perder o sono.

sleep learning: da farsa à ciencia

mulher a dormir

Sleep learning: o que é?

O sleep learning, ou Hipnopedia consiste no processo de aprendizagem durante o sono, ouvindo uma gravação de som, repetidamente.

As pesquisas sobre este método não foram conclusivas.

A História

O conceito de aprendizagem do sono, ou hipnopédia, conta já com uma longa história.

O primeiro estudo a demonstrar um benefício de memória e aprendizagem do sono foi publicado em 1914 pela psicóloga alemã Rosa Heine. Ela descobriu que aprender algo novo à noite, antes do sono, resulta numa melhor recordação em comparação com as aprendizagens realizadas durante o dia.

Após muitos estudos realizados desde então, sabe-se agora que o sono é crucial para formar memórias de longo prazo do que encontramos durante o dia. O cérebro adormecido repete as experiências do dia e organiza-as, movendo-as do hipocampo, onde são formadas pela primeira vez, para outras regiões do cérebro.

Considerando que acontece muita coisa com as memórias durante o sono, surge a questão: Será que as mesmas podem ser alteradas, aprimoradas ou mesmo formadas de novo?

Desenvolvimento do método

Uma abordagem popular para aprendizagem do sono foi o Psychophone, um dispositivo popular na década de 1930 do século passado. O aparelho apresentava mensagens motivacionais que passavam para quem dormia, com o objetivo de ajudar essas pessoas a absorver as ideias no seu subconsciente e a acordar com uma confiança extra.

Alguns estudos iniciais afirmaram que quem era “submetido” à écnica de sleep learning aprendia, de facto, enquanto dormia. No entanto, tais conclusões viriam a ser desmentidas duas décadas mais tarde, quando os cientistas começaram a usar o EEG para monitorar as ondas cerebrais do sono.

Nessa altura, os investigadores descobriram que qualquer aprendizagem obtida durante o sono resultaria apenas de estímulos que despertaram os participantes, descartando a técnica para a categoria de pseudociência.

Utilidade

Estudos mais recentes descobriram que é possível ao cérebro adormecido absorver informações e até formar novas memórias. O problema, no entanto, é que as memórias são implícitas ou inconscientes. Por outras palavras, trata-se de uma forma de aprendizagem básica, muito mais simples do que o seu cérebro precisa realizar caso queira aprender alemão ou mecânica quântica.

Ainda assim, as novas descobertas elevaram o sleep learning à categoria dos sonhos e trouxeram o tema novamente para o campo da ciência.

Para alguns investigadores da matéria, as recentes descobertas aumentaram as esperanças sobre possíveis aplicações, nomeadamente para ajudar pessoas que desejam abandonar um mau hábito, como fumar.

aplicações e vantagens do sleep learning

Ovos podres e tabaco: uma associação com resultados

Vários estudos descobriram que uma forma básica de aprender, chamada condicionamento, pode acontecer durante o sono. Num estudo realizado em 2012, publicado na revista Nature Neuroscience, investigaores israelitas descobriram que as pessoas podem aprender a associar sons a odores enquando dormem.

Os cientistas transmitiram um som aos participantes do estudo que dormiam, enquanto provocavam um cheiro desagradável de peixe estragado. Uma vez acordados, ao ouvir o mesmo som, as pessoas prendiam a respiração em antecipação a um cheiro ruim.

Uma descoberta que mostra que os seres humanos podem formar novas memórias durante o sono.

Embora a memória estivesse implícita, ela poderia afetar o comportamento das pessoas, descobriu-se num novo estudo, em 2014, publicado no Journal of Neuroscience. As conclusões mostraram que os fumadores usaram menos cigarros depois de passar a noite expostos ao cheiro de tabaco combinado com ovos podres ou peixe estragado.

O que é possível aprender?

Uma das aprendizagens mais populares, ou mais procuradas, através do sleep learning diz respeito a novos idiomas.

De acordo com o que se conhece, a técnica poder-e-á estender à aprendizagem de palavras. Num estudo publicado na revista Current Biology em janeiro de 2019, os pesquisadores transmitiram pares de palavras inventadas e seus supostos significados – como o “guga” significa elefante – a um conjunto de participantes adormecidos. Após acordarem, as pessoas apresentaram um desempenho melhor do que o esperado, quando tiveram de escolher a tradução correta de palavras inventadas num teste de escolha múltipla.

O que todos os estudos realizados sobre o tema têm em comum é o facto de mostrarem uma forma implícita de memória.

A pergunta impõe-se: onde é possível chegar a partir daqui? Quais as suas implicações?

Vantagens

Aprender durante o sono, sem esforço, enquanto (supostamente) descansa, parece ser algo vantajoso que permite, desde logo, rentabilizar o tempo ao máximo. Mas, talvez não seja bem assim.

Aprender um novo idioma, por exemplo, exige reconhecer os sons, aprender o vocabulário e dominar a gramática, o que envolve áreas distintas do cérebro.

Até agora, os estudos sugerem que pode ser possível familiarizar-se com o tom e o sotaque de uma língua ou mesmo com o significado das palavras enquanto dorme, mas num nível mais fraco do habitual, durante o dia, mesmo sem perceber.

Questiona-se, portanto, a eficácia do sleep learning, ou hipnopedia, para quem quer aprender a falar outra língua.

Depois, há que considerar, ainda, o custo. Estimular o cérebro adormecido com novas informações, provavelmente interrompe as funções do sono, afetando negativamente o que aprendemos no dia anterior.

O custo-benefício parece não ser significativo, não justificando o investimento (ou risco).

Os cientistas continuam a estudar as potencialidades do sleep learning, visto que em algumas situações específicas, a sua prática pode, realmente, fazer diferença e apresentar resultados importantes. Aprender durante o sono pode ser útil, por exemplo, quando as pessoas precisam de mudar um hábito ou alterar memórias perturbadoras, relacionadas com fobias e transtorno de stress pós-traumático.

A real eficácia e alcance do sleep learning continua a apresentar reservas.

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