Cláudia Pereira
Cláudia Pereira
02 Jun, 2026 - 17:00

Super El Nino 2026: o que pode causar no bolso dos portugueses

Cláudia Pereira

Super El Niño 2026 pode pressionar preços dos alimentos e da energia em Portugal. Saiba o que muda e como proteger a sua carteira antes do impacto.

O Pacífico Equatorial está a aquecer a um ritmo que não se via há uma década. Os modelos climáticos da NOAA, a agência oceânica dos Estados Unidos, atribuem já mais de 90% de probabilidade à formação de um El Niño em 2026, com cerca de 50% de hipótese de o fenómeno atingir intensidade forte ou muito forte. É esse patamar que os cientistas chamam de Super El Niño. Para os portugueses, a questão não é apenas climática, também é uma questão de preços, de faturas e de poder de compra.

O climatólogo Ricardo Trigo, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, admite que o fenómeno em formação pode ser comparável aos episódios históricos de 1997-98 e 2014-15. Para Portugal, o aviso mais direto é o do risco de incêndios, agravado pelo comboio de tempestades do início do ano, que deixou a vegetação em condições propícias para arder no verão. Mas os efeitos económicos chegam por outras vias, menos óbvias e igualmente relevantes.

O que é um Super El Niño?

O El Niño é um fenómeno climático que ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial aquecem de forma anormal, alterando a circulação atmosférica global. Quando a temperatura sobe 2°C ou mais acima da média histórica, estamos perante um episódio considerado muito forte, o chamado Super El Niño. Estes eventos são raros e ocorrem, em média, uma vez por cada 10 a 15 anos.

O problema em 2026 é de contexto. As alterações climáticas criaram uma base de temperatura já mais elevada do que qualquer episódio anterior. O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF) alertou que o sistema climático atual pode não conseguir dissipar o calor gerado pelo fenómeno com a mesma eficácia do passado, amplificando os impactos globais. Os modelos indicam alta probabilidade de formação entre maio e julho de 2026, com pico previsto no inverno de 2026-2027 e efeitos que se poderão prolongar por grande parte de 2027.

Efeitos possíveis do Super El Nino

Comida mais cara

Quando há El Niño forte, várias regiões produtoras mundiais sofrem simultaneamente. A Índia, o maior produtor de arroz e açúcar, enfrenta monções abaixo da média. O Sudeste Asiático, onde se produz a maior parte do óleo de palma global, regista padrões de precipitação alterados, com quebras de produção estimadas até 12% nos cenários mais severos. A América Central e o Sudeste Asiático perdem terreno no café, precisamente onde o fenómeno eleva temperaturas em mais de 2°C e perturba ciclos de cultivo estáveis há décadas.

Para os portugueses, isto traduz-se em pressão sobre produtos que já tiveram variações significativas nos últimos anos: café, óleos vegetais, açúcar, produtos derivados de soja e arroz. Os custos sobem primeiro nos produtores, através de gastos acrescidos com irrigação, energia e controlo de pragas, e chegam depois às prateleiras. Os reflexos sobre os preços dos alimentos devem ser mais visíveis em 2027.

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Preço da energia

Portugal depende da produção hidroelétrica para uma parte significativa da sua geração elétrica. O El Niño afeta diretamente o regime de precipitação e, em anos de seca, os reservatórios baixam, a produção hídrica cai e o preço da eletricidade sobe no mercado ibérico. O fenómeno de 2023-24 já demonstrou esse mecanismo com clareza.

Mas o canal mais imediato é internacional. O El Niño tende a perturbar a produção de gás natural liquefeito (GNL) em regiões produtoras do Pacífico e a pressionar os preços das matérias-primas energéticas. O relatório do CIP e do ISEG publicado em 2026 já alertava que a persistência dos preços elevados do petróleo e do gás natural constituía um risco adicional sobre empresas e famílias portuguesas e o Super El Niño pode agravar esse cenário no segundo semestre do ano.

O risco específico de Portugal: incêndios e a economia do turismo

Para Portugal, o impacto mais direto do El Niño não chega pelos mesmos canais que no Brasil ou na Ásia. O climatólogo Ricardo Trigo é claro: o maior perigo nacional está nos incêndios. Depois das tempestades do início de 2026, que deixaram a vegetação húmida e exuberante, o verão poderá trazer o cenário oposto com calor intenso, seca e biomassa seca pronta a arder.

E isso tem custos económicos concretos. Os incêndios de grande dimensão afetam diretamente o turismo, um dos pilares da economia portuguesa, que representou mais de 15% do PIB em anos recentes. Interrompem cadeias de abastecimento locais, destroem capital agrícola e silvícola e pressionam os seguros.

O que pode fazer antes que o fenómeno se intensifique

Preparar-se para um Super El Niño não exige decisões drásticas. Exige antecipar alguns ajustes concretos, antes que os preços subam e os riscos se materializem.

No supermercado, os produtos mais expostos são o café, os óleos vegetais, o açúcar e o arroz. Se os compra regularmente, considere aumentar o stock habitual agora, em marca branca ou embalagem maior. Não é acumulação irracional, é simplesmente não ser apanhado desprevenido quando os preços subirem no outono.

Na fatura de energia, a primeira coisa a fazer é verificar se o seu contrato de eletricidade e gás é de tarifa fixa ou variável. Se for variável, compare as ofertas do mercado liberalizado antes do verão. Em períodos de volatilidade energética, a tarifa fixa funciona como um seguro contra picos de preço e trocar de comercializador demora apenas alguns dias.

No seguro de habitação, quem tem casa em zona de pinhal, eucaliptal ou interface urbano-florestal deve abrir a apólice e confirmar o que está coberto em caso de incêndio. Verifique também a data de renovação: se for no segundo semestre, convém tratar do assunto antes do verão, não depois.

Nas poupanças, não há nenhuma ação urgente, mas vale a pena saber que os mercados de commodities agrícolas e energéticas já estão a reagir a estas previsões. Se tem fundos ou ETFs expostos a esses setores, é um momento para perceber exatamente o que tem em carteira. Sem pânico, mas com atenção.

Ninguém sabe ainda com exatidão o que este Super El Niño vai fazer à economia portuguesa. Os modelos climáticos apontam o caminho, mas a intensidade final do fenómeno só se confirmará no segundo semestre. O que já é certo é que os canais de impacto estão identificados, como preços dos alimentos, energia, incêndios e que agir antes é sempre mais barato do que reagir depois.

O clima mudou. Os mercados acompanham. E a sua carteira também merece acompanhamento. Quer perceber melhor como os fenómenos climáticos afetam o seu poder de compra? Subscreva a newsletter do Ekonomista.

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