Share the post "Super El Nino 2026: o que pode causar no bolso dos portugueses"
O Pacífico Equatorial está a aquecer a um ritmo que não se via há uma década. Os modelos climáticos da NOAA, a agência oceânica dos Estados Unidos, atribuem já mais de 90% de probabilidade à formação de um El Niño em 2026, com cerca de 50% de hipótese de o fenómeno atingir intensidade forte ou muito forte. É esse patamar que os cientistas chamam de Super El Niño. Para os portugueses, a questão não é apenas climática, também é uma questão de preços, de faturas e de poder de compra.
O climatólogo Ricardo Trigo, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, admite que o fenómeno em formação pode ser comparável aos episódios históricos de 1997-98 e 2014-15. Para Portugal, o aviso mais direto é o do risco de incêndios, agravado pelo comboio de tempestades do início do ano, que deixou a vegetação em condições propícias para arder no verão. Mas os efeitos económicos chegam por outras vias, menos óbvias e igualmente relevantes.
O que é um Super El Niño?
O El Niño é um fenómeno climático que ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial aquecem de forma anormal, alterando a circulação atmosférica global. Quando a temperatura sobe 2°C ou mais acima da média histórica, estamos perante um episódio considerado muito forte, o chamado Super El Niño. Estes eventos são raros e ocorrem, em média, uma vez por cada 10 a 15 anos.
O problema em 2026 é de contexto. As alterações climáticas criaram uma base de temperatura já mais elevada do que qualquer episódio anterior. O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF) alertou que o sistema climático atual pode não conseguir dissipar o calor gerado pelo fenómeno com a mesma eficácia do passado, amplificando os impactos globais. Os modelos indicam alta probabilidade de formação entre maio e julho de 2026, com pico previsto no inverno de 2026-2027 e efeitos que se poderão prolongar por grande parte de 2027.
Efeitos possíveis do Super El Nino
Comida mais cara
Quando há El Niño forte, várias regiões produtoras mundiais sofrem simultaneamente. A Índia, o maior produtor de arroz e açúcar, enfrenta monções abaixo da média. O Sudeste Asiático, onde se produz a maior parte do óleo de palma global, regista padrões de precipitação alterados, com quebras de produção estimadas até 12% nos cenários mais severos. A América Central e o Sudeste Asiático perdem terreno no café, precisamente onde o fenómeno eleva temperaturas em mais de 2°C e perturba ciclos de cultivo estáveis há décadas.
Para os portugueses, isto traduz-se em pressão sobre produtos que já tiveram variações significativas nos últimos anos: café, óleos vegetais, açúcar, produtos derivados de soja e arroz. Os custos sobem primeiro nos produtores, através de gastos acrescidos com irrigação, energia e controlo de pragas, e chegam depois às prateleiras. Os reflexos sobre os preços dos alimentos devem ser mais visíveis em 2027.
Preço da energia
Portugal depende da produção hidroelétrica para uma parte significativa da sua geração elétrica. O El Niño afeta diretamente o regime de precipitação e, em anos de seca, os reservatórios baixam, a produção hídrica cai e o preço da eletricidade sobe no mercado ibérico. O fenómeno de 2023-24 já demonstrou esse mecanismo com clareza.
Mas o canal mais imediato é internacional. O El Niño tende a perturbar a produção de gás natural liquefeito (GNL) em regiões produtoras do Pacífico e a pressionar os preços das matérias-primas energéticas. O relatório do CIP e do ISEG publicado em 2026 já alertava que a persistência dos preços elevados do petróleo e do gás natural constituía um risco adicional sobre empresas e famílias portuguesas e o Super El Niño pode agravar esse cenário no segundo semestre do ano.
O risco específico de Portugal: incêndios e a economia do turismo
Para Portugal, o impacto mais direto do El Niño não chega pelos mesmos canais que no Brasil ou na Ásia. O climatólogo Ricardo Trigo é claro: o maior perigo nacional está nos incêndios. Depois das tempestades do início de 2026, que deixaram a vegetação húmida e exuberante, o verão poderá trazer o cenário oposto com calor intenso, seca e biomassa seca pronta a arder.
E isso tem custos económicos concretos. Os incêndios de grande dimensão afetam diretamente o turismo, um dos pilares da economia portuguesa, que representou mais de 15% do PIB em anos recentes. Interrompem cadeias de abastecimento locais, destroem capital agrícola e silvícola e pressionam os seguros.
O que pode fazer antes que o fenómeno se intensifique
Preparar-se para um Super El Niño não exige decisões drásticas. Exige antecipar alguns ajustes concretos, antes que os preços subam e os riscos se materializem.
No supermercado, os produtos mais expostos são o café, os óleos vegetais, o açúcar e o arroz. Se os compra regularmente, considere aumentar o stock habitual agora, em marca branca ou embalagem maior. Não é acumulação irracional, é simplesmente não ser apanhado desprevenido quando os preços subirem no outono.
Na fatura de energia, a primeira coisa a fazer é verificar se o seu contrato de eletricidade e gás é de tarifa fixa ou variável. Se for variável, compare as ofertas do mercado liberalizado antes do verão. Em períodos de volatilidade energética, a tarifa fixa funciona como um seguro contra picos de preço e trocar de comercializador demora apenas alguns dias.
No seguro de habitação, quem tem casa em zona de pinhal, eucaliptal ou interface urbano-florestal deve abrir a apólice e confirmar o que está coberto em caso de incêndio. Verifique também a data de renovação: se for no segundo semestre, convém tratar do assunto antes do verão, não depois.
Nas poupanças, não há nenhuma ação urgente, mas vale a pena saber que os mercados de commodities agrícolas e energéticas já estão a reagir a estas previsões. Se tem fundos ou ETFs expostos a esses setores, é um momento para perceber exatamente o que tem em carteira. Sem pânico, mas com atenção.
Ninguém sabe ainda com exatidão o que este Super El Niño vai fazer à economia portuguesa. Os modelos climáticos apontam o caminho, mas a intensidade final do fenómeno só se confirmará no segundo semestre. O que já é certo é que os canais de impacto estão identificados, como preços dos alimentos, energia, incêndios e que agir antes é sempre mais barato do que reagir depois.
O clima mudou. Os mercados acompanham. E a sua carteira também merece acompanhamento. Quer perceber melhor como os fenómenos climáticos afetam o seu poder de compra? Subscreva a newsletter do Ekonomista.