Miguel Pinto
Miguel Pinto
06 Ago, 2026 - 17:00

Redes sociais: uso intenso por crianças mais novas faz baixar as notas escolares

Miguel Pinto

Estudo italiano com mais de 5 mil alunos associa a criação precoce de contas em redes sociais a notas mais baixas a Matemática e Língua Materna.

crianças com redes sociais

Criar uma conta nas redes sociais ainda antes dos 12 anos pode ter um custo escondido, com pior desempenho a Matemática e a Língua Materna nos anos seguintes.

É essa a principal conclusão de um estudo italiano recente, publicado na revista científica Nature Human Behaviour, que voltou a colocar o tema da idade de entrada nas redes sociais no centro do debate entre pais, escolas e especialistas em educação.

A investigação, liderada por Marco Gui, da Universidade de Milão-Bicocca, acompanhou 5.227 alunos de 28 escolas do norte de Itália.

A equipa cruzou dados recolhidos entre 2023 e 2024 sobre hábitos de utilização de plataformas como Facebook, Instagram e TikTok com os resultados obtidos em provas estandardizadas de Italiano, Inglês e Matemática, aplicadas pelo instituto nacional de avaliação do sistema de ensino italiano.

Os resultados mostram que os alunos que abriram a primeira conta em rede social entre os 11 e os 12 anos obtiveram, em média, notas mais baixas em Italiano e em Matemática do que os colegas que esperaram até aos 14 anos para o fazer.

Aos 15 e 16 anos, essa diferença equivale a cerca de seis meses de aprendizagem. No caso do Inglês, o estudo não encontrou evidências de um efeito negativo semelhante.

Redes sociais: um sinal, não uma sentença

fotografias dos filhos nas redes sociais

Os próprios autores fazem questão de sublinhar os limites do trabalho. Por se tratar de um estudo observacional, os dados não permitem afirmar, com certeza absoluta, que o uso das redes sociais é a causa direta das notas mais baixas.

Ainda assim, a associação manteve-se consistente mesmo depois de os investigadores controlarem variáveis como o desempenho escolar anterior, a estrutura familiar e o nível de escolaridade dos pais.

Em comunicado, a equipa de investigação afirmou que, “embora o estudo seja observacional, a análise fornece evidências robustas de um efeito negativo do uso precoce de mídias sociais nas notas”.

Ao mesmo tempo, os autores pedem prudência na interpretação dos resultados, dado tratar-se de um tema sensível e alvo de um debate público particularmente polarizado nos últimos anos.

Telemóvel sempre por perto, notas mais baixas

Um dos dados mais reveladores do estudo prende-se com a frequência de utilização do telemóvel.

Os alunos que relataram consultar o dispositivo com mais regularidade tendiam também a ter aberto conta em redes sociais mais cedo e a apresentar, em simultâneo, classificações mais baixas em Italiano e Matemática no 10.º ano.

Esses mesmos estudantes reportaram, ainda, níveis mais baixos de supervisão parental sobre a utilização das redes sociais.

Para os investigadores, esta falta de acompanhamento por parte dos pais pode ajudar a explicar padrões de uso mais intensos e, consequentemente, um maior impacto negativo no percurso escolar.

Porque é que as crianças são mais vulneráveis

trabalhar redes sociais

Do ponto de vista da psicologia, este tipo de conteúdo (sobretudo vídeos curtos e de consumo rápido) tende a estimular a libertação de dopamina, o neurotransmissor associado à sensação de prazer.

Como o cérebro infantil ainda está em desenvolvimento, a criança tem mais dificuldade em regular esse impulso e em equilibrar o tempo de ecrã com outras responsabilidades, ao contrário do que geralmente acontece com um adulto.

Este mecanismo ajuda a explicar por que razão as plataformas conseguem captar tão facilmente a atenção dos mais novos, tornando particularmente difícil interromper o ciclo de utilização sem apoio e orientação de um adulto.

Quanto tempo passam as crianças nas redes sociais?

Os números confirmam que a entrada precoce nas redes sociais está longe de ser um fenómeno isolado.

Levantamentos internacionais mostram que a esmagadora maioria das crianças e adolescentes já utiliza a internet e possui conta em pelo menos uma plataforma social muito antes da idade mínima estipulada pelas próprias empresas, geralmente fixada nos 13 anos.

Esta discrepância entre a idade mínima oficial e a idade real de entrada nas redes sociais é, aliás, um dos motivos que tem levado vários países europeus a discutir a introdução de sistemas de verificação de idade mais rigorosos e de regras de consentimento parental reforçadas.

portugal restringe acesso de menores às redes sociais
Veja também Redes sociais: Portugal restringe acesso a menores de 16

O que podem fazer os pais

Apesar de os resultados do estudo serem preocupantes, os especialistas insistem que a resposta não passa por proibir ou demonizar as redes sociais, mas sim por acompanhar de forma mais próxima o modo como os filhos as utilizam:

  • Adiar a criação de contas, sempre que possível, até uma idade em que a criança tenha maior maturidade para gerir os riscos e o tempo de utilização.
  • Definir limites diários para o tempo de ecrã, evitando que o acesso às redes sociais interfira com o sono, os estudos e outras atividades.
  • Privilegiar espaços comuns da casa para o uso do telemóvel ou do computador, facilitando o acompanhamento por parte dos pais.
  • Conversar regularmente sobre os conteúdos consumidos e sobre situações de risco, como contacto com desconhecidos ou exposição a conteúdos inadequados.
  • Dar o exemplo, já que os hábitos digitais dos adultos em casa influenciam diretamente a forma como as crianças se relacionam com os ecrãs.

Apesar das limitações reconhecidas pelos próprios investigadores, o estudo junta-se a um número crescente de trabalhos que associam o uso intenso e precoce das redes sociais a consequências negativas no desenvolvimento cognitivo e no percurso académico dos mais novos.

Veja também