Share the post "Alcántara, a escapadinha ibérica que não vai querer perder"
A poucos quilómetros da fronteira com a Beira Baixa, na província de Cáceres, existe uma pequena vila espanhola que partilha o nome com um bairro lisboeta e uma ligação histórica muito mais próxima de Portugal do que a maioria dos viajantes imagina. Falamos de Alcántara, na Estremadura espanhola.
A localidade é sobretudo conhecida pela sua imponente ponte romana sobre o rio Tejo, mas esconde um património monástico, religioso e natural que justifica plenamente uma escapadinha de um dia. Ou de um fim de semana.
Alcántara situa-se na província de Cáceres, junto ao curso do rio Tejo e muito perto da chamada Raia, a linha fronteiriça entre Portugal e Espanha.
A vila fica a cerca de 17 quilómetros da fronteira de Segura, na Beira Baixa, e a pouco mais de 60 quilómetros de Cáceres, a capital de distrito.
Esta localização faz de Alcántara um destino natural para quem visita o interior centro de Portugal, nomeadamente a zona de Idanha-a-Nova, Penamacor ou Monsanto, e queira prolongar a viagem até território espanhol.
Alcántara: destino cheio de história
O nome de Alcántara tem origem árabe (deriva de “al-qantara”, que significa precisamente “a ponte”), uma homenagem à construção romana que atravessa o Tejo desde o século II depois de Cristo.
Ao longo da Idade Média, a região foi fronteira entre os reinos cristãos do norte e os territórios muçulmanos, e mais tarde tornou-se sede da Ordem Militar de Alcántara, uma das mais importantes ordens de cavalaria da Península Ibérica.
É precisamente esse passado de ordem militar e religiosa que explica a densidade de conventos, igrejas e edifícios nobres concentrados numa vila de dimensão tão modesta.
A relação com Portugal também tem raízes profundas. Foi por ali que se assinou o Tratado de Alcáçovas, através do qual os Reis Católicos renunciaram formalmente às suas pretensões sobre a coroa portuguesa.
A própria ponte romana chegou a estar envolvida em episódios das guerras entre Portugal e Castela.
Ponte romana de Alcántara: a grande estrela

O grande cartão-de-visita de Alcântara é, sem dúvida, a sua ponte romana, mandada erguer pelo imperador Trajano e concluída por volta do ano 106 depois de Cristo, sob a direção do engenheiro Caio Júlio Lácer.
Com mais de 190 metros de comprimento e cerca de 60 metros de altura, assenta sobre seis arcos desiguais e continua a ser uma das pontes romanas mais bem preservadas de toda a Europa.
No centro do tabuleiro ergue-se um arco honorífico dedicado a Trajano, e junto a uma das margens encontra-se um pequeno templo romano, onde terá sido sepultado o próprio engenheiro que a projetou.
A construção terá servido para ligar a via romana entre Norba (atual Cáceres) e Conimbriga, junto a Coimbra, integrando o traçado da Via da Prata.
Vale a pena observar a ponte a partir de diferentes ângulos: de perto, para apreciar o rigor da engenharia romana, e a partir dos miradouros próximos, que oferecem uma vista de conjunto sobre o vale do Tejo.
Convento de San Benito

Sede administrativa e religiosa da Ordem de Alcántara a partir do século XVI, o Convento de San Benito reúne igreja, claustro e hospedaria num conjunto que combina elementos góticos, renascentistas e platerescos.
O claustro gótico foi erguido sobre uma antiga fortaleza árabe, e uma das suas características mais distintivas é a galeria exterior de três níveis.
É um dos edifícios mais representativos da importância que a Ordem teve nesta região ao longo de vários séculos.
Igreja de Santa Maria de Almocóvar
Construída sobre uma antiga mesquita, a igreja paroquial de Santa Maria de Almocóvar mantém um bonito portal de estilo românico, com pormenores que já anunciam a chegada do gótico.
No seu interior guarda obras do pintor renascentista Luis de Morales, um dos nomes mais relevantes da pintura espanhola do século XVI.
Convento das Comendadoras e Miradouro da Ponte
Junto às antigas muralhas encontra-se o conjunto formado pelo Convento das Comendadoras e pela Igreja da Encarnação, datado do século XV.
É precisamente nesta zona que se situa um dos melhores miradouros da vila, com uma vista privilegiada sobre a ponte romana e o vale do Tejo.
Arco da Conceição e centro histórico
O acesso tradicional ao núcleo histórico de Alcântara faz-se através do Arco da Conceição, antiga porta de entrada na vila.
A partir daqui, vale a pena perder-se pelas ruas estreitas do centro, incluindo a antiga judiaria, onde ainda subsistem passagens em arco e recantos que transmitem bem a atmosfera de uma vila que resistiu praticamente intacta à passagem dos séculos.
Parque Natural do Tejo Internacional

Para além do património edificado, a região de Alcântara é também um destino de referência para quem procura contacto com a natureza.
O Parque Natural do Tejo Internacional, que se estende de ambos os lados da fronteira luso-espanhola, e a barragem de Alcântara oferecem paisagens de sobreiros e azinheiras, percursos pedestres, rotas a cavalo e condições excelentes para a prática de desportos náuticos e pesca desportiva.
Gastronomia local
Depois de um dia de visitas, a gastronomia da região é outro dos motivos para prolongar a estadia.
Os pratos de grão-de-bico com bacalhau, a caça menor (como faisão e perdiz) e a tenca de rio, preparada de várias formas, são alguns dos produtos mais típicos da mesa local.
Os doces conventuais, herança direta da forte presença religiosa na região, e os vinhos com Denominação de Origem Ribera del Guadiana completam a experiência.
Como chegar a Alcántara a partir de Portugal
Alcántara não tem ligações ferroviárias nem uma rede de transportes públicos direta a partir de Portugal, pelo que a forma mais prática e recomendada de lá chegar é de automóvel.
Ainda assim, existem algumas alternativas a considerar consoante o ponto de partida.
A partir de Lisboa
De Lisboa, a viagem até Alcántara ronda os 250 a 280 quilómetros, com um tempo de condução estimado entre duas horas e meia a três horas, dependendo da rota escolhida.
O trajeto habitual segue pela A6 e A23 em direção a Castelo Branco e à zona da Beira Baixa, atravessando depois a fronteira num dos postos junto a Segura, Salvaterra do Extremo ou Termas de Monfortinho.
Após a passagem da fronteira, seguem-se estradas secundárias espanholas (como a EX-117) que atravessam o Parque Natural do Tejo Internacional até chegar a Alcântara.
A partir do Porto
A partir do Porto, a distância até Alcântara é maior, entre 350 e 380 quilómetros, com um tempo de viagem que ronda as três horas e meia a quatro horas de carro.
A rota mais direta segue pela A1 e A23 até à zona da Beira Baixa, seguindo depois o mesmo percurso descrito para quem parte de Lisboa, com passagem pela fronteira junto a Idanha-a-Nova ou Termas de Monfortinho.