Miguel Pinto
Miguel Pinto
12 Jun, 2026 - 11:00

BCE sobe juros: saiba quanto vai aumentar a sua prestação

Miguel Pinto

Se tem crédito à habitação saiba que vem aí um agravamento da prestação. É que pela primeira vez desde 2023, o BCE subiu a taxa de juro.

BCE sobe juros

O Banco Central Europeu (BCE) anunciou uma subida de 25 pontos base nas taxas de juro de referência da Zona Euro, a primeira desde setembro de 2023. A taxa de depósito passa assim para os 2,25%, numa decisão que era amplamente esperada pelos mercados financeiros.

A decisão foi tomada num contexto de inflação crescente na Zona Euro, alimentada pelo agravamento da guerra no Médio Oriente (em particular no Irão), que está a fazer disparar os preços da energia desde o início do conflito armado, há mais de três meses.

A inflação na região acelerou para 3,2% em maio, o valor mais elevado desde setembro de 2023 e bem acima da meta de 2% do BCE. Para quem tem crédito habitação em Portugal, esta notícia tem consequências concretas.

BCE sobe juros, famílias vão pagar mais

A maioria dos empréstimos à habitação estão indexados à Euribor, a taxa interbancária europeia que funciona como referência para o cálculo das prestações. Quando o BCE mexe nas suas taxas de referência, isso transmite-se directamente à Euribor e, por sua vez, às prestações mensais.

Desde janeiro de 2024, a Euribor a 6 meses é o indexante mais utilizado nos créditos habitação com taxa variável em Portugal. Com a antecipação da subida do BCE pelos mercados, esta taxa já estava a subir antes mesmo do anúncio oficial de hoje.

O impacto não é imediato para todos. As prestações só são atualizadas quando o empréstimo entra na sua revisão periódica (normalmente semestral ou anual, consoante o contrato). Mas para quem tiver revisão nos próximos meses, o aumento já se fará sentir.

O Banco de Portugal confirmou recentemente que a prestação média mensal dos empréstimos à habitação atingiu os 428 euros em abril, oito meses consecutivos de subida. A taxa de juro média dos novos contratos passou de 2,81% em março para 2,86% em abril, quebrando uma tendência de estabilização.

Quanto vai subir a sua prestação?

A tabela seguinte ilustra o impacto estimado de uma subida de 0,25 pontos percentuais (25 pontos base) na Euribor, para diferentes perfis de crédito habitação.

Os valores são indicativos e assumem um spread médio de 1% e uma Euribor a 6 meses base de 2,60% (anterior à subida), passando para cerca de 2,85%.

Capital em DívidaPrazo RestantePrestação Antes (+/- Euribor 2,60%)Prestação Depois (+/- Euribor 2,85%)Aumento Mensal Estimado
80 000 €15 anos~560 €~574 €+14 €
100 000 €20 anos~605 €~622 €+17 €
150 000 €25 anos~745 €~767 €+22 €
200 000 €30 anos~890 €~920 €+30 €
250 000 €30 anos~1 110 €~1 147 €+37 €
300 000 €30 anos~1 330 €~1 373 €+43 €

Nota: Estes valores são simulações indicativas. O impacto real depende do capital em dívida exacto, do indexante do seu contrato (Euribor 3, 6 ou 12 meses), do spread, e da data de revisão do empréstimo. Consulte o seu banco ou um intermediário de crédito para uma simulação personalizada.

Haverá mais subidas nos próximos meses?

A resposta honesta é que depende da guerra. O consenso entre economistas aponta para dois a três aumentos adicionais ao longo de 2026. Se o conflito no Irão persistir, esperam-se duas subidas do BCE. Se as hostilidades se reavivarem, três subidas parecem mais prováveis.

Christine Lagarde, presidente do BCE, deverá manter uma comunicação “neutra” nos próximos tempos, sublinhando a dependência dos dados e a elevada incerteza. Não há um caminho pré-definido e cada decisão será tomada reunião a reunião.

O que é certo é que o mercado já reflete parte desse cenário. A Euribor a 12 meses atingiu o nível mais elevado desde o final de 2024, quando o BCE ainda estava em ciclo descendente.

crédito à habitação
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O que pode fazer para proteger o seu orçamento?

Se tem crédito habitação com taxa variável, existem algumas medidas concretas que pode considerar:

1. Renegociar o spread com o seu banco. Num contexto de subida generalizada, pode valer a pena negociar melhores condições, especialmente se for bom pagador e tiver margem para apresentar propostas de outros bancos.

2. Ponderar a transferência de crédito. Comparar ofertas de outros bancos pode resultar numa poupança significativa. Os intermediários de crédito podem ajudar neste processo sem custos para o consumidor.

3. Avaliar a passagem para taxa fixa. Se a incerteza o preocupa, uma taxa fixa dá-lhe estabilidade nas prestações durante vários anos. Dependendo do valor negociado, pode ser uma opção de paz de espírito, ainda que possa sair mais cara se os juros começarem a cair novamente.

4. Amortizar antecipadamente (se possível). Usar o reembolso do IRS ou poupanças para reduzir o capital em dívida é uma das formas mais eficazes de reduzir o encargo mensal a longo prazo.

5. Rever o seguro de vida associado ao crédito. Muitas famílias pagam mais do que o necessário neste seguro. Mudar de seguradora (mantendo a cobertura exigida pelo banco) pode libertar dezenas de euros por mês.

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