Share the post "Doentes com cancro: ADSE vai cortar 10% no valor pago a tratamentos no privado"
A ADSE vai reduzir em 10% o valor que paga aos prestadores privados nos tratamentos oncológicos, com uma nova tabela a entrar em vigor em outubro. De acordo com a informação divulgada, o corte de 10% consta das novas regras e preços do regime convencionado, comunicadas aos prestadores.
O regime convencionado é o modelo em que o beneficiário paga apenas a sua parte (o copagamento) e a ADSE liquida o restante diretamente ao prestador. Nesse regime, o beneficiário suporta apenas o copagamento, que não é reembolsado pela ADSE.
Redução da ADSE: não é a primeira tentativa
Em 2025, a ADSE preparou uma redução ainda mais expressiva nos medicamentos oncológicos. Os cortes variavam entre 22% e 63%, e a entrada em vigor, prevista para 1 de novembro, acabou adiada para o início de 2026.
O adiamento surgiu depois de o grupo Lusíadas Saúde ter ameaçado abandonar a convenção e suspender tratamentos a doentes com cancro. Na altura, a ADSE garantiu que a continuidade dos tratamentos oncológicos não estava em causa, nem no Lusíadas nem nos restantes prestadores.
O grupo privado, por sua vez, considerou incompreensível um corte desta natureza quando outros financiadores estavam a atualizar preços em alta. Também não é uma política linear. Em dezembro de 2024, a ADSE anunciou um aumento médio de 6% nos valores pagos aos prestadores na tabela do regime convencionado. Numa revisão anterior, os preços do hospital de dia de oncologia tinham subido acima da regra geral de 5%.
Porque corta a ADSE
Não foi encontrada uma justificação oficial específica para este corte. Em revisões anteriores, a ADSE defendeu a fixação de tetos máximos para reduzir a imprevisibilidade e aumentar o controlo da despesa.
Há ainda uma questão de sustentabilidade. O sistema é financiado pelos descontos dos beneficiários, de 3,5% sobre a remuneração base ou a pensão. Cada euro gasto sai, em última análise, do bolso de quem contribui.
Porque preocupa tanto quem tem cancro

Um doente oncológico não escolhe o calendário do tratamento. Interromper ou mudar de hospital a meio de um ciclo de quimioterapia, com equipas que já conhecem o seu caso, não é uma simples questão administrativa.
O receio dos doentes assenta num padrão conhecido. Prestadores e médicos têm vindo a sair das convenções com a ADSE por considerarem as condições menos vantajosas do que as das seguradoras.
Com isso, os cerca de 1,3 milhões de beneficiários recorrem cada vez mais ao regime livre, em que pagam como qualquer particular e recuperam depois parte do valor. Neste regime, a comparticipação da ADSE é de 80%, dentro dos limites das tabelas.
Já houve episódios semelhantes noutras áreas. Em 2021, após uma nova tabela, os grupos Luz Saúde e CUF retiraram alguns atos da convenção e criaram tabelas próprias para os beneficiários.
Ainda não se sabe se algo do género acontecerá desta vez, mas é este o cenário que os doentes temem, ou seja, mais custos e menos previsibilidade.
O que fazer em caso de tratamento em curso
- Perguntar ao hospital ou clínica se o tratamento e o médico assistente se mantêm convencionados após a entrada em vigor da nova tabela.
- Pedir um orçamento detalhado e a confirmação por escrito do que será cobrado.
- Guardar todas as faturas e prescrições, caso seja necessário pedir reembolso em regime livre.
- Contactar a ADSE para confirmar as regras aplicáveis ao seu caso, sobretudo em medicamentos que exijam autorização prévia.
- Ponderar alternativas com a equipa médica, incluindo o Serviço Nacional de Saúde, se o tratamento deixar de estar convencionado.
- Procurar apoio associativo. A Associação 30 de Julho representa os beneficiários da ADSE e pode ajudar a esclarecer dúvidas.