Share the post "CD: o formato que todos deram por morto está de volta e já vende mais do que o nostálgico vinil"
O CD está de volta e os números não deixam margem para dúvidas. Depois de mais de uma década a ser apontado como um formato ultrapassado, o disco compacto voltou a crescer com força em 2026, ultrapassando até o vinil, que durante anos liderou o regresso da música física.
Nos Estados Unidos, as vendas de CD cresceram 16% no primeiro semestre de 2026, atingindo 16,3 milhões de unidades, um ritmo que superou claramente o crescimento do vinil, de apenas 2,4% no mesmo período.
Segundo dados da RIAA, a subida é ainda mais expressiva quando medida em receita. As vendas de CD geraram 171,1 milhões de dólares no primeiro semestre de 2026, um aumento de 58,6% em relação ao ano anterior, com as unidades vendidas a subir 45,7%, para 17,5 milhões de discos.
Uma parte deste crescimento está associada ao sucesso do K-pop, sobretudo aos lançamentos em edição especial do género.
A banda sul-coreana BTS, com o álbum “ARIRANG”, figurou entre os maiores sucessos do ano em formato CD. Ainda assim, o fenómeno não se explica apenas por este nicho.
Mesmo excluindo o K-pop da equação, as vendas de CD registaram uma subida de 6,7% em termos homólogos.
A recuperação não se limita ao disco compacto. No total, as vendas combinadas de vinil, CD e cassetes atingiram 38,2 milhões de unidades nos Estados Unidos, um crescimento de 7,8%.
Curiosamente, o formato com a subida percentual mais surpreendente foi a cassete, que registou um avanço de 73,4% em unidades vendidas.
Porque razão os CD estão a voltar a ser desejados

Os dados mostram que são precisamente os públicos mais jovens e não os nostálgicos anteriores ao streaming quem mais está a comprar CD.
Estas mudanças de hábito estão ligadas a uma redescoberta de catálogos antigos e 60% dos fãs da Geração Z afirmam ouvir sobretudo música anterior aos anos 2000, uma percentagem que era de apenas 18% em 2021.
Este interesse por sonoridades mais antigas traduz-se depois numa procura por objetos físicos que representem essa ligação.
Para quem cresceu a interagir com ecrãs e algoritmos, possuir um disco tangível funciona como forma de escapar, ainda que por breves momentos, à lógica de recomendação constante das plataformas digitais.
Ownership: possuir a música
Um dos argumentos mais repetidos por quem compra CDs atualmente tem a ver com propriedade.
Ao contrário do streaming, onde o utilizador acede a um catálogo que pode desaparecer de um dia para o outro, o CD garante posse definitiva do álbum, incluindo elementos que o digital tende a apagar.
Falamos do encarte, as letras impressas, a arte gráfica escolhida pelo artista e, em muitos casos, conteúdos exclusivos como cartões colecionáveis.
Qualidade sonora e a experiência
Existe também um argumento técnico a favor do disco compacto. Ao contrário do vinil, cuja duração de gravação é limitada pelo espaço físico do sulco (o que por vezes obriga a cortar faixas ou a comprimir o som), o CD permite reproduzir o álbum na sua versão completa e sem as limitações de desgaste típicas do vinil ao longo do tempo.
Para quem procura ouvir música sem as notificações do telemóvel, esta é ainda uma forma de criar um momento de escuta mais focado e intencional.
O fator económico

O preço é outro fator decisivo. Um CD custa normalmente uma fração do valor de um vinil, o que o torna um ponto de entrada natural para quem começa agora a construir uma coleção de música física.
Do lado dos artistas independentes, a equação também é favorável. A produção de pequenas séries pode custar cerca de dois dólares por unidade, enquanto a venda em concertos ronda entre dez e quinze dólares por disco, gerando margens que podem superar os 80%.
Este equilíbrio faz do CD uma ferramenta de receita particularmente atrativa para músicos emergentes, num contexto em que o streaming continua a pagar valores residuais por reprodução.
CD: o papel do K-pop e as edições especiais
A indústria do K-pop percebeu rapidamente o potencial do CD como produto de coleção.
Álbuns lançados em múltiplas versões, com embalagens exclusivas, fotografias e cartões colecionáveis diferentes em cada edição, incentivam os fãs mais dedicados a adquirir várias cópias do mesmo trabalho.
Este modelo, replicado por outros grupos do género, tem sido um dos principais motores do crescimento global do formato, ainda que, como já foi referido, não seja a única explicação para a tendência.
E em Portugal, o cenário dos CD é o mesmo?
Em Portugal, o percurso tem sido ligeiramente diferente. O regresso da música física por aqui começou pelo vinil.
O chamado “Vinyl Revival” chegou ao país de forma consistente a partir de 2019 e, desde então, as vendas de vinil têm vindo a superar as de CD no mercado nacional.
Em 2024, por exemplo, o mercado português de música gravada cresceu 15%, impulsionado sobretudo pelo vinil, que subiu 7%, enquanto as vendas de CDs recuaram 6% no mesmo ano.
Isto significa que o “boom” do CD registado nos Estados Unidos em 2026 ainda não tem, pelo menos até à data, um paralelo tão evidente no mercado português, onde o vinil continua a ser o formato físico dominante entre coleccionadores e ouvintes mais jovens.
Ainda assim, tendências globais de consumo, sobretudo entre fãs de K-pop e públicos ligados a redes sociais como o TikTok, tendem a chegar a Portugal com algum desfasamento temporal, pelo que um efeito semelhante ao norte-americano não deve ser descartado nos próximos anos.