Miguel Pinto
Miguel Pinto
02 Out, 2026 - 10:00

DGS define alimentação nas creches: cortes no sal e no açúcar e amamentação facilitada

Miguel Pinto

A DGS publicou orientações para a alimentação nas creches. Conheça as recomendações sobre ementas, açúcar, sal, porções e texturas.

creches

A sopa, a fruta, os legumes, o peixe ou a carne que chegam ao prato de uma criança nas creches podem parecer apenas parte da rotina diária.

Nos primeiros anos de vida, porém, cada refeição também contribui para o crescimento, para o desenvolvimento e para a construção de preferências alimentares que podem acompanhar a criança durante muitos anos.

É neste contexto que a Direção-Geral da Saúde (DGS) publicou, pela primeira vez, orientações nacionais específicas para a oferta alimentar nas creches e noutras respostas sociais destinadas a crianças até aos 3 anos.

O documento pretende apoiar as instituições na disponibilização de uma alimentação nutricionalmente adequada, segura e ajustada à idade e ao desenvolvimento de cada criança.

Inclui também indicações para a manutenção do aleitamento materno e para situações como alergias, intolerâncias, alimentação vegetariana e dietas terapêuticas.

Alimentação pensada para os primeiros anos de vida

A DGS parte de uma ideia essencial: alimentar uma criança pequena não significa simplesmente reduzir a quantidade de comida que é servida a um adulto.

Nos primeiros anos, as necessidades de vários nutrientes são elevadas, enquanto a capacidade gástrica é reduzida.

Por isso, a alimentação deve privilegiar alimentos com elevada densidade nutricional, capazes de fornecer vitaminas, minerais, proteína de qualidade e outros nutrientes essenciais sem representar um excesso de energia.

A diversidade assume igualmente um papel central.

As orientações recomendam o consumo diário de fruta, hortícolas e alimentos dos grupos da carne, pescado, ovos e lacticínios, bem como o consumo frequente de leguminosas e frutos oleaginosos, sempre apresentados em formatos e texturas adequados à idade.

Menos açúcar, menos sal e menos ultraprocessados

crianças nas creches

Uma das recomendações mais claras da DGS diz respeito à redução da exposição precoce ao açúcar, ao sal e aos alimentos ultraprocessados.

As novas orientações não recomendam, nesta faixa etária, a oferta de alimentos com açúcares adicionados ou elevado teor de sal.

Também desaconselham bebidas açucaradas, sumos de fruta, néctares e produtos que contenham açúcares livres ou edulcorantes.

Nas preparações culinárias realizadas na creche, a adição de sal está contraindicada até aos 12 meses e a adição de açúcar até aos 24 meses. Depois dessas idades, ambos devem continuar a ser utilizados o mínimo possível.

A recomendação procura também evitar que os sabores muito doces ou salgados se tornem uma referência alimentar desde cedo.

Segundo a DGS, a exposição precoce a estes sabores pode influenciar o desenvolvimento das preferências alimentares e dificultar a adoção de hábitos alimentares saudáveis em fases posteriores da vida.

A água assume, naturalmente, um papel privilegiado na hidratação, em vez de bebidas açucaradas ou sumos.

Veja também Programa Creche Feliz: como funciona, quem tem direito e como pedir

Porções adequadas nas creches

Outra mudança importante está na forma de olhar para a quantidade que uma criança deve comer.

As orientações recomendam que as porções sejam ajustadas à faixa etária e às necessidades individuais, evitando tanto quantidades insuficientes como excessivas.

Mais importante ainda, defendem o respeito pelos sinais de fome e saciedade da criança.

Isto significa evitar pressionar uma criança a comer, utilizar comida como recompensa ou castigo ou insistir para que termine obrigatoriamente tudo o que está no prato.

A DGS reconhece que as crianças têm capacidade para regular a ingestão alimentar de acordo com os seus sinais internos de fome e saciedade.

Uma oferta adequada de alimentos e porções permite acompanhar esse processo, podendo também contribuir para reduzir o desperdício alimentar.

A refeição deixa, assim, de ser apenas uma questão de quantidade. O ambiente em que a criança come e a relação que desenvolve com a comida também fazem parte da alimentação saudável.

Bebés na creche

Texturas: não é tudo para triturar

As novas orientações dedicam uma atenção particular à evolução das texturas.

À medida que a criança desenvolve as suas competências motoras orais, os alimentos devem passar progressivamente para texturas, consistências, formatos e dimensões adequados ao seu nível de desenvolvimento.

A exposição atempada a diferentes texturas contribui para o desenvolvimento da mastigação e da deglutição, além de favorecer a autonomia alimentar e a aceitação de novos alimentos.

A DGS alerta, por isso, para que a progressão não seja atrasada através da manutenção prolongada de alimentos exclusivamente triturados quando a criança já apresenta competências para avançar.

Existe, contudo, outro lado desta questão: a segurança. Os alimentos devem ser preparados e apresentados de forma a reduzir o risco de engasgamento e asfixia.

A textura, a consistência, o formato e a dimensão devem ser adaptados às competências de cada criança, sendo também recomendada formação contínua dos profissionais responsáveis pela alimentação.

Ou seja, avançar nas texturas não significa simplesmente colocar alimentos mais duros no prato e esperar pelo melhor. A progressão deve acompanhar o desenvolvimento individual.

Aleitamento materno protegido nas creches

As orientações da DGS incluem também recomendações destinadas a apoiar a manutenção do aleitamento materno.

Esta posição enquadra-se na importância atribuída aos primeiros 1000 dias de vida, período que vai desde a conceção até aproximadamente aos 2 anos e durante o qual ocorrem processos fundamentais de crescimento e desenvolvimento.

A DGS considera esta fase particularmente relevante para a formação de preferências e hábitos alimentares, com possíveis implicações na saúde ao longo da vida.

A alimentação complementar deve, por isso, ser encarada como um processo progressivo, adaptado ao desenvolvimento da criança e articulado com as suas necessidades nutricionais.

Ementas para diferentes necessidades

creches

As creches não alimentam um grupo de crianças todas iguais. As diferenças de idade, desenvolvimento, preferências, alergias, intolerâncias e necessidades clínicas tornam necessária uma abordagem capaz de acomodar diferentes situações.

O manual da DGS inclui orientações específicas para alimentação vegetariana, alergias e intolerâncias alimentares e dietas terapêuticas. Inclui ainda sugestões práticas para almoços e lanches e recomendações para a elaboração de ementas.

A segurança alimentar surge, por isso, como uma dimensão fundamental das novas orientações.

Não basta escolher alimentos nutricionalmente adequados: é necessário garantir condições corretas de higiene e segurança na preparação e disponibilização das refeições e adaptar a apresentação dos alimentos às competências da criança.

Veja também