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Miguel Pinto
Miguel Pinto
26 Jul, 2022 - 16:57

Dona Branca: banqueira do povo morreu há 30 anos

Miguel Pinto

Criou um milionário esquema de pirâmide que garantia juros de 10 por cento a quem lhe confiasse as poupanças. A história da Dona Branca.

Dona Branca

Há 30 anos morria quase incógnita e na miséria a mulher que durante alguns anos abalou o sistema bancário português. Dona Branca, a banqueira do povo, provocou um terramoto tal que obrigou à intervenção política, antes de a Justiça entrar em campo e deitar por terra um verdadeiro esquema de Ponzi.

O alvoroço foi imenso, tendo mesmo obrigado o então ministro das Finanças, Ernâni Lopes, a ir à televisão avisar os mais incautos sobre aquele negócio. Afinal, começavam a sair dos bancos tradicionais quantias importantes de dinheiro, com muita gente atraída pelas generosas taxas de juro que a Dona Branca oferecia.

No entanto, quando a manta é curta, algo acaba por ficar de fora e o esquema acabou por ser denunciado. Mas o susto foi grande no país, até meados de 1984.

Dona Branca: a génese de um esquema milionário

Maria Branca dos Santos nasceu nos alvores do século XX (em 1902),  muito provavelmente na freguesia da Mouraria, em Lisboa, no seio de uma família muito pobre. Ao que se sabe, e as informações sobre a sua infância são escassas, não terá sequer cumprido a instrução primária, rapidamente se fazendo à vida, numa miríade de pequenos negócios.

Um desses “negócios”, e que mais tarde iria estar na base do esquema de pirâmide que montou, consistia em guardar o dinheiro às varinas da venda diária, devolvendo-o ao final do dia, recebendo uma compensação. Com fama de honestidade, começou a ser procurada por outros vendedores ambulantes. O negócio crescia e estava pronto para ser escalado.

Ali pela década de 1950, Portugal vivia sobre o pulso forte da ditadura de Oliveira Salazar, imune aos ventos de mudança e progresso que sopravam em grande parte da Europa na ressaca da Segunda Guerra Mundial. Continuava um país amorfo e, sobretudo, pobre.

Dona Branca, qual fura-vidas, percebe que há ali uma oportunidade e apoiada na crendice de quem pouco tem, começou a atribuir juros a quem lhe confiasse as economias. Juros esses que subiam de acordo com o montante “depositado”.

O esquema continua a progredir e a florescer. Recebia dinheiro acrescido de um juro de 10% e fazia empréstimos com juros altíssimos. A palavra começa a espalhar-se como fogo em palha seca. Há uma banqueira a subverter as vetustas regras bancárias e dar muito dinheiro a ganhar a todos, independentemente da condição social de cada um. Começa ali a bola de neve da usurária Dona Branca, que ainda iria durar uns bons anos.

Notas de escudos antigas

Clientes de todas as condições

O esquema começou a alastrar-se para lá das fronteiras de Lisboa. Gente de todos os pontos do país convergiam para os escritórios da Dona Branca, confiando-lhe as suas parcas poupanças. Mas quem pensa que apenas pessoas de condição mais humilde ali acorriam que se desengane. A investigação veio a mostrar que muitas figuras conhecidas da sociedade, advogados, e fala-se até em políticos, terão chegado a meter ali dinheiro.

O funcionamento era muito simples: ontem alguém depositou 100 euros. Hoje, outro alguém deposita mais 100 euros. Daqui, saem logo os 10 euros para o cliente de ontem, os juros mensais a 10%. Confuso? Nem por isso. Dinheiro faz dinheiro e a verdade é que dos dois depositantes nenhum iria logo levantar todo o capital. Isso permitia criar um fundo de maneio assinalável e ir mascarando o esquema, que durou décadas.

Com familiares e amigos chegados a trabalhar por conta, Dona Branca viu o seu negócio expandir-se de forma quase incontrolável, abrindo novos escritórios e recebendo um fluxo cada vez maior de dinheiro vivo. O crescimento exponencial que a sua atividade verificava começava a atrair a atenção de algumas autoridades judiciais e bancárias, mas isso não era nada que uns bons maços de notas não resolvessem.

Fotografia antiga de Alves dos Reis
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Quando o esquema chega à comunicação social, mais precisamente ao jornal Tal & Qual, ao invés de torcer o nariz, o português correu de carteira aberta para os braços de Dona Branca, que rapidamente quadruplicou o seu capital. Foi a loucura e aqui já não havia hipótese de se olhar para o lado.

Era preciso intervir ou todo o sistema bancário português podia estar em causa, já que, diariamente, eram sacadas avultadas quantias dos bancos tradicionais, para investimento na banqueira do povo.

Quando o ministro das Finanças alerta para o logro, gera-se um movimento de pânico, com centenas de pessoas a tentarem reaver o dinheiro “investido”. Como acontece em todos os esquemas de pirâmide, rapidamente tudo ruiu e Maria Branca dos Santos acaba detida a 8 de outubro de 1984. Num derradeiro esforço para devolver o dinheiro que lhe tinha sido confiado, passa milhares de cheque, parte substancial deles sem provisão. Era o fim.

Dona Branca: julgamento e morte

Acusada de múltiplos crimes, em conjunto com mais 68 arguidos, foi condenada a uma pena de 10 anos de prisão por burla agravada. Acabou por ser colocada em liberdade pouco tempo depois, fruto da fragilidade do seu estado de saúde. Acabou os seus dias num lar, já cega e sem um vintém.

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