Miguel Pinto
Miguel Pinto
24 Ago, 2026 - 14:00

Engenharia Aeroespacial: o curso com as médias mais altas que fascina milhares de candidatos

Miguel Pinto

É o curso com as médias de entrada mais elevadas em Portugal. Mas afinal, de onde vem o fascínio pela Engenharia Aeroespacial?

engenharia aeroespacial

Pelo quarto ano consecutivo, a Engenharia Aeroespacial voltou a liderar a tabela das médias de acesso mais elevadas do ensino superior português.

Na 1ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior de 2026, o curso da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) fechou com uma nota mínima de entrada de 19,5 valores, para apenas 30 vagas disponíveis.

Mas o fenómeno não se fica por aqui. Das cinco médias mais altas do país, três pertencem a licenciaturas de Engenharia Aeroespacial, ministradas pela Universidade do Porto, pela Universidade do Minho e pelo Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa.

Engenharia aeroespacial no topo das médias

Os números da última candidatura são elucidativos. Na Universidade do Porto, o último aluno colocado entrou com 19,50 valores, numa escala de zero a vinte, para um curso que abriu apenas 30 vagas.

Na Universidade do Minho, a nota mínima de entrada foi de 18,98 valores, e no Técnico, pioneiro na área em Portugal, a fasquia ficou nos 18,60 valores.

Estes três cursos surgem lado a lado com Medicina e Engenharia e Gestão Industrial, ambos também da Universidade do Porto, no restrito grupo de licenciaturas onde só entram os candidatos com classificações de topo.

O padrão não é novo. Já no ano letivo anterior, a Engenharia Aeroespacial da FEUP tinha fechado com uma nota de colocação mínima de 19,43 valores, muito próxima da registada este ano, o que confirma uma tendência consolidada e não um pico isolado.

Também no Técnico, o curso tem repetidamente ocupado o primeiro lugar nacional das médias de acesso, com notas na ordem dos 19 valores em anos recentes.

O que estuda um futuro engenheiro aeroespacial?

drone aeroespacial

A Engenharia Aeroespacial é uma formação transversal e multidisciplinar, que combina bases sólidas de matemática e física com conhecimentos aplicados de mecânica, eletrónica, materiais, fluidos e computação.

O objetivo é preparar profissionais capazes de participar em todo o ciclo de vida de um sistema aeroespacial, da conceção ao projeto, passando pelo desenvolvimento, produção, ensaio, operação e manutenção.

As principais áreas de intervenção deste ramo de engenharia são muito diversas:

  • Aerodinâmica e mecânica dos fluidos – estudo do comportamento do ar em torno de aeronaves, foguetões e outros veículos aeroespaciais.
  • Estruturas e materiais aeroespaciais – desenvolvimento de componentes leves, resistentes e seguros, recorrendo a materiais avançados e a processos de fabrico de última geração.
  • Sistemas de propulsão – motores de aviões, motores-foguete e sistemas de propulsão espacial.
  • Sistemas espaciais e satélites – planeamento de missões, projeto e integração de satélites e lançadores, e exploração de dados espaciais.
  • Aviónica, controlo e automação – sistemas eletrónicos e de computação responsáveis pelo controlo de voo e pela gestão de aeronaves e veículos autónomos.
  • Robótica aeroespacial – cada vez mais relevante, com aplicações em drones, veículos autónomos e exploração espacial.

Como resume a descrição do mestrado do Técnico, a intervenção profissional dos engenheiros aeroespaciais exige uma visão global dos problemas de engenharia, dada a multidisciplinaridade das tecnologias envolvidas num único veículo, bem como o domínio do inglês, incontornável num setor profundamente internacionalizado.

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Saídas profissionais: um leque bastante alargado

Um dos argumentos mais citados por coordenadores de curso e por estudantes para justificar a procura é precisamente a empregabilidade.

Segundo dados divulgados por responsáveis do curso do Técnico, o número de recém-diplomados registados como desempregados junto do IEFP é praticamente nulo, o que reforça a perceção de que esta é uma área com escassez de profissionais face à procura do mercado.

As saídas profissionais não se limitam à aviação ou ao setor espacial em sentido estrito. Em Portugal, os diplomados encontram colocação em empresas como a OGMA/Embraer, a TAP, a Força Aérea Portuguesa, a NAV Portugal, a Autoridade Nacional da Aviação Civil, ou em empresas tecnológicas mais recentes como a Deimos, a GMV e a UAVision, além de vários spin-offs académicos ligados às próprias universidades.

No estrangeiro, os nomes citados incluem gigantes do setor como a Airbus, a British Aerospace, a Rolls-Royce, a Safran, a Agência Espacial Europeia (ESA), o CERN e a Eurocontrol.

Consoante a especialização escolhida, um mestre em Engenharia Aeroespacial pode seguir, por exemplo, para o desenvolvimento de sistemas espaciais e planeamento de missões, para o projeto e integração de componentes de aeronaves, ou para a investigação em novos materiais e processos de fabrico aeroespacial.

Fora do setor aeronáutico e espacial, as competências analíticas e técnicas destes profissionais são também procuradas em consultoria, indústria automóvel, energia e engenharia de sistemas em geral.

Porque é o curso mais pretendido do país

aviões da embraer

A relação entre o número reduzido de diplomados e a procura crescente do mercado de trabalho traduz-se em oportunidades concretas logo à saída da universidade, o que torna a empregabilidade quase garantida. Esta situação está diretamente ligada à limitação das vagas: com turmas de poucas dezenas de alunos, a oferta é claramente inferior à procura, o que empurra as médias de acesso para valores muito elevados.

Precisamente por se tratar do curso mais difícil de entrar, este tornou-se também um fator de atração para os melhores alunos do secundário, que veem nesta escolha um desafio à altura do seu percurso académico — um prestígio que se soma à exigência do próprio curso.

Ao contrário do que a designação possa sugerir, a formação não fecha portas a quem não queira seguir estritamente a aviação ou o espaço, abrindo antes caminho a áreas como a robótica, a energia ou a consultoria tecnológica, o que garante uma assinalável diversidade de saídas profissionais.

Esta procura crescente é ainda alimentada por um genuíno fascínio pelo espaço e pela aeronáutica: a corrida internacional ao espaço, o crescimento dos drones e da mobilidade aérea, e o interesse crescente por missões espaciais civis têm reavivado a atração por esta área entre os mais jovens. Por fim, o contexto internacional é igualmente favorável, já que o crescimento global do setor aeroespacial e a escassez de engenheiros qualificados em países como o Reino Unido, a França ou os Estados Unidos tornam esta formação também um passaporte para carreiras internacionais.

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