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Ekonomista
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12 Nov, 2018 - 12:11

Especialista: ‘grupos extremistas’ de fake news vão chegar a Portugal

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Especialista admite que o fenómeno das fake news em Portugal é hoje feito por amadores, mas alerta que ‘os grupos extremistas’ vão chegar.

Especialista: 'grupos extremistas' de fake news vão chegar a Portugal

O fenómeno das fake news ainda é incipiente em Portugal, porque “os seus criadores ainda têm uma atuação muito amadora, mas não é preciso ter uma bola de cristal para perceber que o profissionalismo de grupos extremistas vai chegar”, afirmou, numa entrevista por email à Lusa, o coordenador da pós-graduação em Marketing Digital Filipe Carrera.

Fenómeno das notícias falsas deverá agravar-se

Ora 2019 é um ano de europeias, legislativas e regionais na Madeira e mesmo sem eleições, Carrera receia que o fenómeno “tenda a agravar-se”.

“Com ou sem eleições este fenómeno tende a agravar-se, pois três fatores conjugam-se, criando a tempestade perfeita para o triunfo das ‘fake news’”, argumentou Filipe Carrera, licenciado em Economia e coordenador da Pós-Graduação em Marketing Digital no Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM), em Lisboa.

Para este especialista, há três fatores a ter em conta, como o “alheamento da participação cívica em que as crescentes taxas de abstenção são uma das provas”, a “falta de debate entre os cidadãos” e a “perda de qualidade, credibilidade e alcance dos meios de comunicação tradicionais”.

As ‘fake news’, comummente conhecidas por notícias falsas, manipulação ou informação propositadamente falsificada com fins políticos ou outros, ganharam importância nas presidenciais dos EUA que ditaram a eleição de Donald Trump, no referendo sobre o ‘Brexit’ no Reino Unido e, mais recentemente, nas presidenciais no Brasil, ganhas pelo candidato de extrema-direita, Jair Bolsonaro.

Em Portugal, registaram-se alguns casos de fake news, nomeadamente um que envolveu a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, por alegadamente usar um relógio avaliado em 20 milhões de euros.

O DN, que abordou o assunto, noticiou a existência de sites sediados no Canadá que alojam notícias falsas sobre a política portuguesa, ligados a uma empresa de Santo Tirso.

Em Portugal, acrescentou Filipe Carrera, o “discurso político tem vindo a adaptar-se às novas circunstâncias, as palavras-chave, as imagens fortes e os sound bites são sintomáticos dessa adaptação”.

“Porque a política e os meios de comunicação que temos são reflexo da sociedade em que vivemos, pois de outra forma não sobrevivem”, acrescentou.

Além do mais, “a conjugação do alheamento dos cidadãos e do bombardeamento de fake news, cria um ambiente perfeito para ascensão de populismos e movimentos extremistas”, dado que “soluções simples e radicais são mais fáceis de explicar e de propagar”.

E, no limite, “se nada for feito, a tendência será” ter “uma democracia no papel, mas na prática uma ditadura baseada a ignorância consentida”. argumentou.

Para o futuro, o coordenador da pós-graduação em Marketing Digital diz não existirem soluções fáceis e rápidas. É preciso, aconselhou, “começar nas escolas e mesmo mudar os métodos de ensino para que desde muitos jovens todos se sintam parte de um sistema democrático e não de um sistema que lhes foi imposto”.

Por outro lado, “têm que ser desenvolvidos projetos que fomentem o debate das questões que realmente interessam no desenvolvimento do país”.

fake news

Fake news preocupam portugueses

O relatório anual do Reuters Institute concluiu que grande parte dos portugueses continua a confiar no que lê nos media, mas mostra preocupação (69,2%) com as chamadas “notícias falsas” para favorecer fins políticos e comerciais.

O estudo Reuters Digital News Report 2018, realizado pelo Reuters Institute for the Study of Journalism e em Portugal coordenado pelo Observatório da Comunicação (OberCom), foi divulgado em 29 de setembro e revela que o país é, juntamente com a Finlândia, aquele onde a população mais confia nas notícias, numa lista de 37 em todo o mundo.

O que mais preocupa os inquiridos em Portugal são “as notícias em que os factos são manipulados para favorecer uma agenda específica (70,1%), notícias falsas para fins políticos e/ou comerciais (69,2%) e jornalismo de má qualidade (67,5%) devido a erros factuais, cobertura insuficiente de histórias, títulos enganadores ou clickbait”, lê-se no texto que dedica um capítulo à questão das fake news.

E apesar de os níveis gerais de confiança terem atingido valores muito elevados (62% em notícias em geral e nas notícias consumidas), apenas 48,2% dos inquiridos dizem confiar em notícias nos motores de busca e só 28,9% afirmam poder confiar em notícias nas redes sociais.

A confiança geral nas notícias em Portugal sofreu uma quebra do estudo de 2017 para este ano, passando de 65,6% em 2015 para 62,1%, enquanto a confiança nos conteúdos consumidos baixou de 71,3% para 62,3% em 2018.

Em 25 de outubro, o parlamento de Estrasburgo aprovou uma resolução em que defende medidas para reforçar a proteção dos dados pessoais nas redes sociais e combater a manipulação das eleições, após o escândalo do abuso de dados pessoais de milhões de cidadãos europeus.

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