Miguel Pinto
Miguel Pinto
15 Jan, 2026 - 11:30

Há 10 anos que não nasciam tantos bebés em Portugal

Miguel Pinto

Em 2025 nasceram em Portugal quase 88 mil bebés, o valor mais alto da última década. A imigração tem um papel relevante.

Bebés nascidos em Portugal

Portugal atingiu em 2025 o maior número de nascimentos da última década, com 87.708 bebés a nascerem no país, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA).

Este valor representa um crescimento de 3.077 nascimentos face a 2024 e marca o melhor resultado desde 2012, quando nasceram cerca de 89.800 bebés.

Os números, recolhidos através do Programa Nacional de Rastreio Neonatal (teste do pezinho), que abrange quase a totalidade dos nascimentos em território nacional, confirmam uma inversão positiva numa tendência de queda que caracterizou os últimos anos no país.

O envelhecimento da população tem sido uma constante nas últimas décadas, criando uma pressão cada vez maior junto da Segurança Social, pelo que este aumento de natalidade pode ser encarado como uma boa notícia.

Imigração: motor do crescimento da natalidade

Quase 30% dos nascimentos em 2025 são de mães estrangeiras, evidenciando o efeito de atração de jovens mães para um nascimento seguro, explicou Ana Fernandes, demógrafa e investigadora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Esta realidade sublinha o papel crucial da imigração no aumento da natalidade portuguesa, um fenómeno que tem vindo a ganhar dimensão nos últimos anos.

Maria Filomena Mendes, investigadora da Universidade de Évora, reforça esta análise ao destacar a importância da imigração no crescimento dos nascimentos.

A especialista alerta que a influência da imigração pode ser ainda maior do que os dados oficiais indicam, uma vez que não são contabilizados os casos em que a mãe é portuguesa mas o pai é estrangeiro.

Esta observação ganha particular relevância quando analisamos a evolução da população estrangeira em Portugal. Em 2024, ultrapassou 1,5 milhões de pessoas, representando 14,4% da população total, o valor mais elevado de sempre.

Mais bebés: distribuição geográfica

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A distribuição geográfica dos nascimentos reflete igualmente os padrões de fixação da população imigrante.

Lisboa lidera com 26.595 recém-nascidos rastreados, seguida pelo Porto com 15.255 e Braga com 6.534, todos os distritos com aumentos face ao ano anterior. Apenas a Madeira e Santarém registaram descidas.

Esta concentração nos grandes centros urbanos coincide com as zonas de maior atração de população estrangeira, onde a oferta de emprego e serviços é mais robusta.

Demografia: país envelhecido precisa de bebés

O aumento dos nascimentos em 2025 ocorre num contexto demográfico desafiante para Portugal.

A taxa de fecundidade portuguesa ronda atualmente os 1,4 filhos por mulher, muito abaixo dos 2,1 necessários para assegurar a substituição da população.

Para efeito de comparação, nos anos 1960 nasciam mais de 200.000 crianças anualmente em Portugal, enquanto em 2021 foram registados menos de 80.000 nascimentos, o menor número desde que há registos.

Desde 2017 que há mais pessoas a entrar do que a sair do país e desde 2019 que este saldo migratório positivo consegue compensar o saldo negativo de nascimentos.

Esta dinâmica tem permitido o crescimento populacional, mas levanta questões sobre a sustentabilidade demográfica a longo prazo.

O envelhecimento da população portuguesa continua a agravar-se, com uma idade mediana que aumentou significativamente nas últimas décadas, colocando Portugal entre os países mais envelhecidos da Europa.

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Condições de vida e expectativas familiares

Para além da imigração, existem outros fatores que podem ter contribuído para o aumento dos nascimentos em 2025.

Os portugueses querem ter filhos, querem ter pelo menos um e gostariam de ter dois. Quando as condições são melhores ou há essa expectativa, tentam cumprir essas intenções.

Nos últimos anos, Portugal implementou diversas políticas de apoio à família e à natalidade.

O reforço do abono de família, a gratuitidade progressiva das creches para famílias de rendimentos mais baixos, benefícios fiscais por dependente e subsídios de nascimento são algumas das medidas que visam aliviar o peso financeiro de ter filhos.

Muitas autarquias, especialmente no interior do país, têm ainda lançado programas locais de apoio à natalidade, com valores que podem atingir os 5.000 euros por criança em alguns municípios, na tentativa de fixar população e inverter o declínio demográfico.

A licença parental também tem vindo a ser alargada, permitindo maior flexibilidade e partilha entre os progenitores.

Resultado positivo, mas desafios permanecem

Pós-parto

Apesar dos especialistas considerarem este aumento uma boa notícia, alertam que não deve ser encarado como uma mudança definitiva na tendência de nascimentos no país.

A estrutura demográfica portuguesa, marcada pelo envelhecimento e pela redução da população em idade fértil, continua a representar um desafio estrutural.

O Programa Nacional de Rastreio Neonatal, que permitiu detetar estes números através do teste do pezinho, desempenha também um papel fundamental na saúde pública.

Em 2025, foram identificados 147 casos de doenças raras em recém-nascidos, incluindo doenças hereditárias do metabolismo, hipotiroidismo congénito e fibrose quística.

Desde 1979, data de início do programa, foram rastreados mais de 4,3 milhões de recém-nascidos em Portugal, permitindo a deteção precoce e tratamento atempado de diversas patologias genéticas.

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