Share the post "Lapa de Santa Margarida: o santuário escondido na Arrábida que vale a pena descobrir"
Discreta, mal sinalizada e por isso mesmo ainda envolta em certo mistério, a Lapa de Santa Margarida é uma gruta natural com uma pequena capela no interior e constitui um dos segredos mais bem guardados da Península de Setúbal. Além de ser um destino perfeito para quem procura um passeio diferente, a poucos minutos de Lisboa.
A Lapa de Santa Margarida nasceu do encontro entre a rocha calcária da Arrábida e a força incansável do Atlântico. Ao longo de dezenas de milhares de anos, a água foi corroendo as fragilidades do calcário até abrir um túnel que se foi alargando, criando a cavidade que hoje se conhece, com cerca de vinte metros de profundidade e uma entrada a poucos metros do nível do mar.
Estudos geológicos apontam que a formação da gruta remonta a mais de cem mil anos, período em que a região foi moldada pelas oscilações do nível do mar. O interesse do local não se esgota na geologia. Escavações arqueológicas conduzidas em meados do século XX revelaram vestígios de ocupação humana que remontam ao Paleolítico, com restos de fauna e materiais líticos que comprovam a presença de comunidades muito antigas nesta zona costeira.
A vizinha Gruta da Figueira Brava, situada a escassas dezenas de metros, partilha esta riqueza arqueológica, reforçando a ideia de que todo este troço da costa arrabidense foi, desde sempre, um lugar de abrigo e de vida.
Lapa de santa margarida: de pagão a capela cristã

Antes de qualquer cruz ou imagem sagrada, a gruta já era, segundo diversos relatos, um local associado a rituais ligados à água e à fertilidade, numa tradição que antecede a chegada do cristianismo a esta região.
Essa vocação espiritual acabaria por se perpetuar séculos mais tarde, quando, entre o final do século XVII e o início do século XVIII, foi erguida no interior da lapa uma pequena capela sobre duas colunas de pedra, com um altar dedicado a Santa Margarida.
Conta a tradição popular que pescadores do Cabo Espichel visitavam a gruta de barco para ali assistir à missa ou deixar oferendas à santa, aproveitando a maré para entrar pela boca que se abre sobre o mar.
Outra versão, mais lendária, atribui a construção da ermida a um grupo de marinheiros que, fugindo de piratas, terá encontrado refúgio nesta gruta e erguido a capela em agradecimento por ter sobrevivido à perseguição.
O escritor Alexandre Herculano, no século XIX, deixou um dos retratos mais evocativos deste lugar, descrevendo-o como um espaço envolto numa suavidade inalterável e num silêncio quase religioso, apenas quebrado pelo som das ondas.
Também o arqueólogo Joaquim Rasteiro documentou a existência da lapa nessa mesma época, prova de que este santuário nunca foi propriamente um segredo para as gentes da região, ainda que continue a ser pouco conhecido do grande público.
No altar, chegaram a estar reunidas três imagens de Nossa Senhora da Conceição, Santo António e a da própria Santa Margarida, mais tarde transferida para o Convento da Arrábida por motivos de segurança.
Hoje, a capela mantém-se como espaço de culto informal, coberta de velas, fotografias, flores e pequenos objetos deixados por quem ali continua a prestar homenagem, apesar da ausência de qualquer manutenção institucional.

Como chegar à Lapa de Santa Margarida
O acesso à gruta faz-se exclusivamente a pé e exige alguma disposição física, já que implica descer (e, no regresso, subir) mais de duzentos degraus de pedra irregulares, talhados na encosta. Não é um trajeto difícil, mas também não é recomendável para pessoas com mobilidade reduzida ou dificuldades respiratórias.
O ponto de partida mais utilizado situa-se junto ao Lar de Férias da Casa do Gaiato, na Rua do Portinho da Arrábida. A partir daí, um caminho estreito, por vezes com sinalização escassa, conduz até um pequeno miradouro com vista sobre o mar, antes de uma última escadaria descer até à boca da gruta. Todo o percurso, a partir do estacionamento junto à estrada principal, ronda os quinhentos metros.
Durante a época balnear, vigora em grande parte da Serra da Arrábida o programa Arrábida Sem Carros, que condiciona o acesso automóvel às praias da zona.
Nesse período, a opção mais prática costuma ser deixar o carro no parque de estacionamento do Creiro e seguir depois a pé, ou recorrer às carreiras de transporte público disponibilizadas para o efeito. Fora da época balnear, é possível estacionar mais perto do ponto de partida, junto à Rua do Portinho da Arrábida.
Antes de planear a visita, vale a pena confirmar as condições de acesso e o estado do mar, uma vez que dias de ondulação mais forte podem tornar a entrada na gruta desaconselhável.
O que ver na envolvente à Lapa de Santa Margarida

A Lapa de Santa Margarida está longe de ser uma atração isolada. Toda a área que a rodeia, dentro do Parque Natural da Arrábida, reúne alguns dos cenários mais bonitos do litoral português:
- Portinho da Arrábida: a poucos minutos a pé, esta é uma das praias mais fotografadas do país, com águas de tom quase caribenho encostadas às falésias calcárias;
- Convento da Arrábida: fundado no século XVI, este antigo convento franciscano ergue-se na encosta da serra e oferece um dos melhores miradouros sobre a costa e o estuário do Sado;
- Forte de Santa Maria da Arrábida: antiga fortificação costeira, hoje reconvertida em pousada, que marca a paisagem junto ao mar;
- Praias do Creiro, dos Galápos e dos Galapinhos: acessíveis por trilhos pedestres que ligam toda a costa entre o Portinho e a Figueirinha, ideais para quem quer prolongar o passeio;
- Gruta da Figueira Brava: vizinha da Lapa de Santa Margarida, é outro importante sítio arqueológico da região, com ocupação humana também remontada ao Paleolítico.
Para quem gosta de caminhadas, existem percursos pedestres que ligam vários destes pontos, permitindo transformar a visita à gruta num roteiro de um dia inteiro pela serra e pelo litoral.
Dicas para uma visita tranquila
Vale a pena visitar a Lapa de Santa Margarida fora dos meses de maior calor, quando o acesso às praias da Arrábida está mais condicionado e o calor torna a subida de regresso mais exigente.
Calçado confortável e aderente é essencial, dado o piso irregular dos degraus. Por respeito ao valor histórico e espiritual do local, recomenda-se não retirar objetos do altar nem danificar as formações naturais de estalactites e estalagmites, já bastante fragilizadas ao longo dos anos por visitantes menos cuidadosos.