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Miguel Pinto
Miguel Pinto
06 Out, 2020 - 15:06

Médicos da Peste: as máscaras medonhas para fugir à pandemia

Miguel Pinto

Chamavam-se Médicos da Peste, tinham umas máscaras estranhas e pontiagudas e tentavam combater uma pandemia. Uma história mascarada.

Médicos da Peste

Nunca se falou tanto em máscaras como agora com a pandemia da COVID-19. Ele é máscaras cirúrgicas, comunitárias, descartáveis, laváveis, de tecido, de plástico, de fibras sintéticas, enfim, um sem número de produtos que convergem todos para um objetivo comum: impedir a propagação do novo coronavírus. Como tentavam fazer os Médicos da Peste.

Mas é bom que se diga que a utilização de máscaras no combate a pandemias não é algo recente. Já razoavelmente disseminadas mundo fora por alturas do surto da gripe espanhola (1917-1918), as máscaras de proteção eram utilizadas na Idade Média, designadamente pelos médicos que acorriam às vítimas infectadas com a temível peste.

O seu visual estranho, e até algo medonho, acabou por influenciar não só obras artísticas no domínio do fantástico, mas também algumas das mais reconhecidas máscaras de carnaval, em especial nas celebrações de Veneza.

médicos da peste para tratar os doentes

Médicos da peste da idade média

Não obstante esta associação directa à Peste Negra, estes médicos de aspecto aterrador surgem, na verdade, nos alvores do século XVII. Denominados na altura como físicos, eram especializados no tratamento dos doentes que padeciam de pestes várias, regra geral doenças infeciosas, com altas taxas de mortalidade.

Na verdade, tratavam-se de funcionários públicos contratados pelas aldeias, vilas ou cidades atingidas por uma epidemia, tendo como principais funções o tratamento e cura dos doentes e ainda o enterro dos mortos.

Estes personagens eram ainda responsáveis pelo registo do número de óbitos em livros oficiais, assim como por documentar e tentar cumprir os últimos desejos dos moribundos. Não raras vezes, eram testemunhas dos testamentos que as vítimas ditavam pouco antes de expirarem pela última vez. Chegavam ainda a fazer autópsias a alguns cadáveres, no sentido de entender melhor a epidemia em questão e a melhor forma de a tratar.

Origem da vestimenta

Mas como é que surgiu tão inusitada vestimenta? O contacto com as vítimas de peste criava um problema junto dos médicos, ou seja, o risco que estes corriam de também serem infectados. Antes do século XVII já existem relatos de algumas proteções para quem acorria aos doentes, mas o fato que viria a ser mais popular, e assustador, surge em 1619.

O homem a quem é atribuída tão inusitada invenção é Charles de l’Orme, o médico de três reis franceses (Henrique IV, Luís XIII e Luís XIV), tendo ainda estado ao serviço da riquíssima família italiana dos Médici. O fato em causa tinha vários aspectos que o distinguiam, a começar pelo chapéu feito de couro e que indicava desde logo que ali estava um médico. Depois vinha a máscara.

Tratava-se de uma máscara em forma de um longo bico de pássaro, o que pode ser explicado pelo facto de na altura muita gente acreditar que a peste era transmitida através das aves. Este bico da máscara servia ainda para acomodar algumas substâncias de cheiro agradável (como hortelã ou pétalas de rosa) para afastar a peste daquilo que era popularmente conhecido como o ‘mau ar’, propício ao alastrar da doença, pensavam então.

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Casco e bengala

O fato criado por Charles l’Orme tinha ainda um longo sobretudo, para evitar qualquer contacto com a pele. Este casaco comprido começava no pescoço, por detrás da mascara, e estendia-se até aos pés. Por baixo, umas calças também de couro procuravam proteger de qualquer outro contacto exterior.

Finalmente, os médicos da peste traziam sempre uma bengala de madeira, que servia para examinar os doentes sem lhes tocar. Era ainda usada para indicar aos outros membros da família para que lado virar a vitima. Obviamente, que a bengala também servia de defesa contra os doentes mais desesperados.

A utilidade e eficácia destes apetrechos no combate à pestes é ainda alvo de um amplo debate entre a comunidade científica. Foi uma defesa muito usada durante a peste de 1656, que matou 145 mil pessoas em Roma e 300 mil em Nápoles, por exemplo. E Charles l’Orme viveu até depois dos 90 anos, algo absolutamente extraordinário para época. Mas também há registo da morte de muitos destes médicos, vitimados precisamente pela peste. Portanto, não deveria ser muito eficaz.

Não obstante ser pouco fiável, a máscara entrou no circuito cultural, designadamente no teatro, onde o médico da peste se tornou uma personagem da ‘commedia dell’arte’ e a sua máscara continua a esconder os rostos no carnaval de Veneza.

médicos da peste só depois da peste negra

Iluminura sobre a peste negra

Como atrás se disse, estes médicos surgiram ligados à Peste Negra, uma doença que devastou a Europa e a Ásia, mas isso não corresponde totalmente à verdade. É que a Peste Negra, que terá aniquilado entre 75 a 200 milhões de pessoas, atingiu o seu pico na Europa entre os anos de 1347 e 1351, senso o primeiro grande surto europeu do género.

Estima-se que esta doença tenha tido origem na Ásia Central ou na Ásia Oriental, tendo chegado à Europa ao longo da Rota da Seda, passado pela Crimeira e chegando a Génova. A partir daí, foi fogo em palha seca por toda a Europa, continente que terá demorado cerca de 200 anos a recuperar da devastação demográfica que o assolou. Esta praga, também conhecida como a peste bubónica, retornou várias vezes com surtos até ao início do século XX.

Peste negra em Portugal

Portugal terá sofrido cerca de 20 períodos epidémicos relacionados com a peste, sendo que o mais devastador ocorreu em 1569 e só em Lisboa terá matado qualquer coisa como 60 mil pessoas. Começou em Julho e só terminou na Primavera do ano seguinte, registando, no seu pico, aproximadamente 600 mortos por dia. Ficou conhecida como a grande peste de Lisboa.

O último grande foco da peste bubónica decorreu no Porto, em 1899, tendo a sua mortalidade sido muito mais baixa. Oficialmente, provocou 132 mortos, num universo de 320 casos identificados. Mas a situação foi grave e levou a que a 24 de agosto de 1899 fosse estabelecido um cordão sanitário à volta da cidade do Porto, vigiado pelas autoridades militares, e que se estenderia até 22 de dezembro do mesmo ano.

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