Share the post "Dinheiro para todos: Multibanco Social vai onde a banca não quis ir"
O Multibanco Social, um projeto inovador que pretende garantir o acesso ao numerário em localidades onde a banca comercial há muito decidiu sair. O projeto envolve a SIBS, a empresa responsável pela gestão da rede Multibanco em Portugal, e conta com a participação ativa do Banco de Portugal.
A iniciativa, de acordo com o Jornal de Negócios, tem como objetivo instalar caixas automáticas em zonas de baixa densidade populacional, sobretudo no interior do país, onde as ATM tendem a desaparecer por falta de rentabilidade para as instituições financeiras.
E os números são difíceis de ignorar. Segundo dados do Banco de Portugal referentes a 2022, 1.276 freguesias onde residem cerca de 740 mil pessoas, não têm qualquer ponto de acesso ao numerário. Ainda mais preocupante, existem localidades a 17 quilómetros da caixa automática mais próxima, em linha reta.
Os distritos mais afetados por esta “exclusão bancária” são Beja, Bragança, Faro, Guarda, Viana do Castelo e Vila Real. Em concelhos como Miranda do Douro, apenas três das 13 freguesias têm acesso a numerário. Em Macedo de Cavaleiros, há quatro localidades (Chacim, Morais, Podence e Torre de Dona Chama) a 17 quilómetros do multibanco mais próximo.
O encerramento de balcões bancários acelerou este processo. Entre 2017 e 2022, encerraram mais de mil balcões em Portugal. A digitalização do sistema financeiro contribuiu para agravar a situação, deixando para trás as populações com menor literacia digital ou sem acesso a boas infraestruturas tecnológicas.
Multibanco Social: o papel do Banco de Portugal

Em março de 2026, o governador do Banco de Portugal revelou estar em contacto com outros bancos centrais europeus para estudar soluções para a falta de ATM em zonas rurais periféricas.
Entre as possibilidades em análise, além do próprio Multibanco Social, está o modelo de cash-in-shop, isto é, a possibilidade de os consumidores levantarem dinheiro diretamente no terminal de pagamento automático (TPA) de uma loja local.
E a necessidade é real. De acordo com dados do Banco Central Europeu (BCE) de 2024, o numerário continua a ser o meio de pagamento mais utilizado em Portugal, representando 54% das transações no ponto de venda.
Ao mesmo tempo, 7% dos consumidores portugueses considera o acesso a levantamentos de numerário “relativamente difícil” ou “muito difícil”.
Como vai funcionar o projeto piloto?
O Multibanco Social arranca com uma fase piloto em 20 freguesias, prevista para ficar concluída até ao final de 2026.
As localidades selecionadas são precisamente aquelas que o Banco de Portugal identificou como estando em situação mais vulnerável. São zonas do interior com baixa densidade populacional e sem qualquer ponto de acesso bancário nas proximidades.
O projeto implica a instalação de caixas automáticas em locais estratégicos dessas freguesias (como juntas de freguesia, lojas de proximidade ou outros espaços de uso comunitário), em parceria com as autarquias locais e sob supervisão do Banco de Portugal.
A iniciativa distingue-se dos modelos tradicionais precisamente pelo seu caráter não comercial. O objetivo não é gerar lucro, mas sim cumprir uma função social de inclusão financeira, garantindo que nenhum cidadão fica privado do acesso ao único meio de pagamento com curso legal na área do euro.
Os obstáculos que o projeto tem de ultrapassar

O caminho até aqui não foi linear. Um acordo anterior, negociado entre o Governo e a banca para a instalação de 200 caixas automáticas nas freguesias mais carenciadas, ficou suspenso após a queda do Governo PS.
A Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE) alertou para o impasse, revelando que alguns bancos chegaram a exigir às juntas de freguesia rendas mensais elevadas e a construção de estruturas de segurança, os chamados bunkers, que podiam custar vários milhares de euros.
Estas exigências tornaram inviável, para a grande maioria das juntas de freguesia, avançar com a instalação de ATM por conta própria.
O que muda para as populações?
Ter acesso a uma caixa automática a poucos minutos de casa significa não depender de transporte próprio ou de familiares para ir a outra localidade levantar a pensão, pagar uma conta ou simplesmente ter dinheiro no bolso para as necessidades do dia a dia.
Para os mais idosos, que representam uma fatia considerável das populações do interior, e para quem não tem smartphone ou não está familiarizado com a banca digital, o Multibanco Social pode representar a diferença entre a independência e a dependência de terceiros para gerir o próprio dinheiro.
O que ainda está por definir
A fase piloto em 20 freguesias é apenas o primeiro passo. Dependendo dos resultados, o projeto poderá ser alargado a outras localidades do país.
Questões como o financiamento do modelo a longo prazo, a manutenção dos equipamentos e a distribuição de responsabilidades entre a SIBS, os bancos, o Estado e as autarquias ainda estão a ser afinadas.
O Banco de Portugal tem também sinalizado que poderão coexistir diferentes soluções além do Multibanco Social, como o cash-in-shop e outras formas inovadoras de distribuição de numerário poderão complementar a rede tradicional de ATM.