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Assunção Duarte
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04 Nov, 2019 - 15:12

Ameaças e perigos do reconhecimento facial

Assunção Duarte

Serve para desbloquear telemóveis e pode identificar terroristas ou encontrar crianças desaparecidas. Saiba tudo sobre os perigos do reconhecimento facial.

Reconhecimento facial

Os perigos do reconhecimento facial utilizado em larga escala como sistema de acesso a equipamentos e serviços, são reais e o alerta já foi dado por especialistas e forças de segurança pública.

E a razão não é para menos. Até 2020, espera-se que mais de um bilhão de smartphones utilize este tipo de sistemas para ser desbloqueado. O iPhoneX da Apple deu o pontapé de partida em 2017 com o Face ID e, desde então, parece haver um consenso geral para expandir esta forma rápida e fácil de desbloqueamento a muitos outros dispositivos e serviços. 

A identificação facial é feita recorrendo a sistemas biométricos de inteligência artificial (IA). Isto quer dizer que a IA vai fazer estudos estatísticos sobre as características físicas do rosto humano.

A imagem do utilizador é submetida a um algoritmo que compara dezenas e mesmo centenas de características da expressão facial humana, como por exemplo a distância entre nariz e olhos ou entre boca e queixo, marcas, cicatrizes ou o contorno da face.  

O funcionamento do reconhecimento facial em larga escala pressupõem a existência de gigantescas bases de dados que comparam milhares de imagens de rostos humanos em todo o mundo.

Associado a cada imagem de um rosto estarão dados sobre a sua identidade, como nome, morada, idade ou tudo o mais que as bases de dados consigam armazenar. Mas será isto um problema? 

perigos do Reconhecimento facial

Software de reconhecimento facial

As vulnerabilidades já encontradas em vários sistemas de reconhecimento facial, parecem confirmar que a expansão deste tipo de identificação de forma massiva a serviços e dispositivos, poderá trazer ameaças verdadeiras para o futuro das sociedades humanas. Nalguns países, estas ameaças já se transformaram em perigos bem reais.

Uma ferramenta para os mais poderosos

Uma das ameaças mais evidentes dos softwares de reconhecimento facial é tornarem-se verdadeiras ferramentas para que governos ou grandes gigantes tecnológicos consigam controlar indivíduos ou populações inteiras.

A China é o caso exemplar desta situação. Este país possui mais de 170 milhões de câmaras espalhadas pelas suas províncias e que fazem parte do programa Sharp Eye. Os perigos do reconhecimento facial são assim exponenciados.

Este programa tem por missão reunir informação sobre os movimentos de todas os cidadãos que consegue registar com o objectivo de controlar a criminalidade. 

Num país onde até já é possível aceder a WCs públicos com reconhecimento facial, tornou-se fácil registar os movimentos rotineiros dos cidadãos e, a partir daí,  investigar aquilo que que é considerado um “comportamento problemático”. 

Os próprios policias já começam a estar equipados com óculos de realidade aumentada, para conseguir identificar o mais rapidamente possível os suspeitos e avançar para a sua detenção em tempo record.

Neste cenário, a primeira questão óbvia que se coloca é, quem decide o que é “comportamento problemático” e como é que o peso dessa decisão vai afectar a vida dos que ficam com o “rosto” marcado por esse comportamento? 

O sistema de reconhecimento facial pode ser enganado ou pirateado

Quando a Apple lançou o seu Face ID, vários especialistas e hackers conseguiram provar que o sistema tinha as suas falhas. Fotografias conseguiam fazer-se passar por pessoas no reconhecimento facial e alterações piratas conseguiam criar falsos positivos ou negativos na identificação.

Estas falhas nos sistemas foram encaradas como estímulos que levaram as empresas a investir cada vez mais para aperfeiçoar esta tecnologia.

Mas, apesar dos perigos do reconhecimento facial, o sistema melhorou, sem ser100% fiável. Em 2018 o FBI (Departamento Federal de Investigação norte americano) informou que quando recorreu a esta tecnologia para identificar suspeitos, em 85% dos casos eram identificados 49 falsos positivos para 1 positivo verdadeiro, tendo os agentes de fazer identificação tradicional com o olho humano.

Mas e se evoluirmos para uma fase em o olho humano, quem garante que não somos identificados no lugar do criminoso? 

perigos do reconhecimento facial

Privacidade e dados pessoais comprometidos

Atualmente as empresas privadas que gerem equipamentos e serviços com reconhecimento facial já possuem bases de dados maiores do que os serviços governamentais ou policiais de vários países. E esta pode ser uma das chaves dos perigos do reconhecimento facial.

As redes sociais e empresas como a Amazon ou Google lideram o tamanho destas bases de dados, uma vez que juntam às suas próprias soluções de reconhecimento facial, um verdadeiro manancial de dados e imagens que recolhem dos seus utilizadores.  Muitas deles, oferecidas de livre vontade pelos mesmos.

Como nunca sabemos bem a quem é que estas empresas vendem estas bases de dados e já testemunhamos várias e gravíssimas falhas de segurança nas suas plataformas, a situação fica ainda mais obscura.

Em alguns países, como o Reino Unido, bases de dados deste tipo já estão também a ser criadas para utilização em supermercados, donos de bares e mesmo condomínios privados para vigiar supostos criminosos que costumam criar problemas nesses locais. 

O procedimento costuma ser o de identificar o delinquente ou criminoso na sua base de dados privada, para depois entregar esses dados às autoridades oficiais da sua região. Mas e o que vai acontecer se alguém ou algum grupo decidir fazer justiça pelas próprias mãos face a comportamentos que consideram ilícitos?

E se essas pessoas o fizerem face à identificação de um falso positivo? É fácil de perceber algum tipo de caos social no horizonte se não forem feita uma reflexão em todos os quadrantes sociais.

Perigos do reconhecimento facial: o problema legislativo

Enquanto o reconhecimento facial era utilizado por departamentos de polícia oficiais, em aeroportos e fronteiras, os danos pareciam minimamente controlados. Mas a expansão destes sistemas e a sua utilização por empresas de segurança privada veio evidenciar uma lacuna legal. 

Enquanto que estes enquadramento já existem para a recolha e guarda de dados sobre o ADN ou impressões digitais de suspeitos que depois são ilibados, no que diz respeito aos dados sobre o seu reconhecimento facial ainda estamos a dar os primeiros passos para essa regulamentação. 

Reconhecimento facial: um perigo ou o futuro?
Não perca Reconhecimento facial: um perigo ou o futuro?

Os perigos do reconhecimentos facial preventivo

Os sistemas biométricos de reconhecimento facial podem fazer estudos estatísticos sobre características físicas, mas também sobre comportamentos. 

A detecção de elementos como personalidade, sentimentos, emoções e saúde mental a partir das expressões faciais dos indivíduos é o próximo passo da tecnologia de reconhecimento facial. 

Isto quer dizer que, uma vez em funcionamento, o acesso à saúde, justiça, educação e emprego poderiam passar a estar condicionados pela expressão do nosso rosto, potenciando discriminação a vários níveis com base apenas no aspecto físico.

Para muitos o conselho mais sensato é que se avance com cautela no que diz respeito ao reconhecimento facial.

É uma tecnologia do futuro que já chegou, que que é possível e que já está a funcionar, mas que levanta muitas questões sobre se é ou não aceitável para o futuro que queremos ter nas sociedades humanas.

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